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“BBB 21”: A edição em que a saúde mental superou a afinidade

[tempo de leitura: 5 minutos]

Atitudes agressivas, discursos posicionados e falas polêmicas marcaram a 21ª edição do Big Brother Brasil.


VVocê acompanhou o Big Brother Brasil 21? Talvez essa seja uma pergunta desnecessária, afinal, de certa forma, por meio da TV ou das redes sociais, todo mundo ficou por dentro das movimentações da casa do BBB.

Alguns pontos podem explicar o fenômeno – e aqui não falo de Juliette apenas, mas da temporada como um todo. Posicionamentos agressivos, o medo do cancelamento, a exclusão, a insegurança. Fato é que vários sentimentos comuns a todas as pessoas deram as caras diante as câmeras nos mais de três meses de confinamento.

Mais do que entretenimento, festas e shows animados em meio às limitações da ainda preocupante pandemia, o reality show esse ano nos proporcionou vivenciar quase que de perto as consequências do desespero, da manipulação e, acima de tudo, o desencontro com a própria essência.

Eis que, com tudo isso, a afinidade perdeu o lugar de principal motivador para a saída do BBB. Entrou a saúde mental e foi, pouco a pouco, desgastando quem ali achou que entrou só por estratégia. É o jogo imitando a vida, seja para o reconhecimento ou a reprovação. 

 

O BIG DOS BIGS 

O Big dos Bigs, Brasil! Assim foi chamada a edição desde o começo, quando começaram as divulgações, os primeiros detalhes e anúncios das pessoas selecionadas, anônimas e famosas. Era o reality, famoso em 2020, prometendo uma experiência ainda mais grandiosa um ano depois. 

Logo no começo a angústia pelo cancelamento nas redes sociais e as fragilidades apareceram. O começo do BBB foi marcado por uma narrativa pautada pela sensibilidade (ou falta dela) e a conexão com o público através da autenticidade, o cativante “gente como a gente” assumiu destaque desde a apresentação inicial.

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Ao longo da 21ª edição, ficamos todas e todos indignadas (os) com atitudes preocupantes, injustas, que como aqui fora, muitas vezes, são compreendidas como verdade a ser seguida. 

O racismo recreativo, o incentivo à exclusão geral em torno de um participante e um episódio comum durante o jogo: quase sempre havia alguém chorando pelos cantos, procurando entender a dinâmica que nunca foi só estratégia.

 

BRASIL TÁ LASCADO

O episódio mais emblemático de toda a temporada do BBB foi o beijo entre Lucas e Gil. Um ato de amor, carinho e libertação que logo foi julgado e transformado em um peso para os dois participantes. Qualquer semelhança com o tratamento fora das câmeras não é pura coincidência.

É um ato histórico e revolucionário. O primeiro beijo entre dois homens em um reality show brasileiro em rede nacional, isso após 20 edições de atos tímidos de carinho entre pessoas LGBTQIA+.

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Lucas e Gil, respectivamente

Isso sem falar na festa e na pessoa de Gil. Uma presença necessária que foi, aos poucos, se mostrando e se fortalecendo enquanto homem gay, com força para viver intensamente o programa. Aliás, o nome “Gil do Vigor” não é atoa.

Carregando as referências de instituições tradicionais fortes, como a igreja, o ambiente acadêmico e a família, Gil conseguiu, de forma doce e firme, se desenvolver pessoalmente, enquanto muitas pessoas dentro da casa se perdiam com a própria personalidade e a vontade de ganhar o prêmio apenas.

Chegamos ao ponto chave: o BBB não é sobre as relações dentro da casa apenas, mas muito sobre a conexão com o público aqui fora. A “brabeza” de Camilla ao enfrentar pessoas influentes, a leveza de João para lidar com situações pesadas para ele e a coerência de Carla no início do jogo, por exemplo. Esse sim é o verdadeiro prêmio que fica.

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A ex-sister Camilla

 

FENÔMENO

Alguns fenômenos marcaram também o BBB esse ano. Aqui falo da dor e da delícia que esse termo carrega.

Karol Conká, mulher negra, errou, sim. Foi julgada, saiu com recorde de rejeição, estimularam o seu linchamento, o que parecia o fim de uma artista. Enquanto isso, Rodolffo, homem branco, errou, persistiu no erro e saiu. Foi recebido, por parte do público, como pessoa que está aprendendo, apesar de ser artista e ter acesso a informação.

Ele continuou com uma de suas músicas bombando nas plataformas digitais, execuções nas rádios e cresceu a popularidade enquanto artista. É a dinâmica social se repetindo mais uma vez.

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Karol Conká, considerada a maior vilã da Edição, saiu do programa com o histórico 99,17% de rejeição

Temos ainda Carla Diaz, que saiu do reality por estar sendo “trouxa” em relação ao homem com quem estava na casa. Arthur, por sua vez, teve atitudes violentas, abusivas, e continuou no jogo por um bom tempo até que sua permanência teve fim. É o famoso dois pesos, duas medidas, em que resta às mulheres o fardo maior.

 

RECONHECIMENTO

No meio de tudo isso, uma participante passeou com coerência e coragem por vários conflitos. Juliette procurava resolver as questões diretamente com as pessoas envolvidas, ficou muitas vezes sozinha durante o jogo e acabou construindo a jornada da sobrevivente. Um típico modelo favorito nas finais, entendam.

Mulher, nordestina, brincalhona, irritante algumas vezes, mas coerente com a própria personalidade e os ideais. Não se deixou levar pelo ego, pelo comportamento da maioria, e foi crescendo dentro do BBB e aqui fora. Isso os números das redes sociais não deixam mentir.

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Gil do Vigor, um dos queridinhos do reality

Assim como Gil, Juliette floresceu em meio a dureza que ditou o ritmo do jogo. Fez como os cactos, símbolo relacionado a ela pelo público, e permaneceu consistente e natural, mesmo sendo por vezes mal interpretada. 

Ju realmente nunca esteve sozinha. Ela representa muitas pessoas e assim foi a edição. Que tenhamos mais Gils, Juliettes, Camillas, Joãos, que nos cativam pelo entretenimento sim, mas também pela autenticidade e a confiança de seguir as próprias intuições.

No fim, venceu a sensibilidade, o diálogo, quem soube se adaptar para além dos adjetivos colocados no pescoço. Quando isso acontecer lembre-se: as pessoas loucas, sem noção, também vencem. Às vezes não vão acreditar em você e é isso, mas o impacto que promove vai continuar.

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Juliette, coroana a grande vencedora do BBB21

Fato é que no pódio final do BBB, a bondade e o amor nunca saem do primeiro lugar. Isso é indestrutível!

mike faria

Conectado com a potência das narrativas e a sensibilidade social encontrou no Jornalismo o melhor lugar para se expressar, junto a prática de natação nas horas vagas e as distopias para lidar com a realidade.

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