Na Mise-en-scène / “O protagonismo da direção de arte”

Na Mise-en-scène / “O Protagonismo Da Direção De Arte”
[tempo de leitura: 7 minutos]

Por definição, o design de produção é compreendido como um dos principais aliados para a construção tridimensional de uma narrativa audiovisual. É através da direção de arte que o universo do roteiro se materializa e é com base no uso consciente de cores, texturas, estilos, formas e técnicas de composição que somos capazes de compreender (e, principalmente, sentir) qual energia emana de uma cena específica ou de um produto como um todo.

O design de produção de O Iluminado, por exemplo, nos ajuda a sentir logo de cara que há algo de errado naquele hotel absolutamente intimidador, com composições simétricas (que não são naturais) e estampas que causam confusão visual ou que lembram labirintos. A arte também é responsável por ditar o tom peculiar e caricato de O Grande Hotel Budapeste, com um uso quase lúdico de cores e seus ambientes extremamente estilizados.

Geralmente, a direção de arte é um em meio a muitos elementos fundamentais que nos ajudam a contar uma história no formato audiovisual – mas e quando ela se torna o principal recurso de linguagem? Hoje vamos usar a série Room 104 como ponto de partida para entender melhor como o design de produção pode protagonizar um filme ou série e como isso agrega sentido e conceito ao produto final.

Room 104 é uma joia rara do catálogo da HBO – trata-se de uma série antológica (isto é, um episódio não continua a história do anterior) idealizada e roteirizada pelos Irmãos Duplass que funciona quase como um apanhado de pequenos contos conectados que se passam precisamente no Quarto 104 de um hotel de beira de estrada.

Cada episódio tem pouco mais de 20 minutos para se resolver e acho que esse é um fator determinante para que a qualidade da série seja tão elevada – é realmente impressionante como temos roteiros complexos, cheios de nuances, com arcos de personagens bem trabalhados e, principalmente, extremamente bem resolvidos. Além disso, a série ainda transita com leveza e eficiência entre vários gêneros – suspense, terror, fantasia, comédia, romance e por aí vai. Poderia ficar horas elencando pontos positivos de Room 104 mas estamos aqui por uma razão: a mise-en-scène.

O quarto 104, palco de todas as histórias contadas na série, funciona como uma tela em branco – a arquitetura do espaço é sempre a mesma, padronizada, como um quarto de hotel deveria ser e é aí que a arte ganha seu protagonismo: se histórias tão distintas vão se desenvolver em um mesmo cenário, é a arte a grande responsável por transformar esse ambiente em universos completamente diferentes.

Com um tempo tão curto para começar, desenvolver e terminar uma narrativa, recursos visuais são fundamentais para trazer profundidade para o enredo e, no caso de Room 104, o design de produção é, sem dúvidas, o artifício mais importante para que a metamorfose aconteça entre um episódio e outro. Escolhi dois episódios que ilustram bem como Room 104 usa e abusa do design de produção para enriquecer as curtas narrativas através da subversão de um espaço convencional.

 

Temporada 2, episódio 1.

O primeiro episódio da 2ª temporada, chamado “FOMO“, retrata um grupo de três amigos que reserva o Quarto 104 para celebrar o aniversário de 30 anos de uma deles. O espaço está super bagunçado, repleto de balões, pacotes de comida espalhados, copos de bebidas por todos os cantos, festões decorativos, roupas jogadas e vestidos pendurados no abajur. Além disso, muitos tons colorem o quarto numa paleta de cores bem diversa e os personagens estão trajando roupas confortáveis, despojadas, como numa festa do pijama.

Nada disso é gratuito – completar 30 anos costuma ser um choque de realidade para muitos, representa a saída definitiva da ideia de juventude para entrar de fato numa fase inevitavelmente mais madura. O quarto lembra um ambiente jovem e desleixado e apesar da ideia de maturidade atrelada à idade que ali se comemora, a noite entre amigos é encarada como uma suspensão da realidade adulta, num contrato em que todos se despem de suas responsabilidades e preocupações.

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cena de “FOMO”, episódio da segunda temporada de Room 104

Tudo ia muito bem até que o grupo de amigos é surpreendido pela chegada da irmã não convidada da aniversariante. A intrusa, que aparenta já ser mais vivida do que os outros, traja salto alto, um vestido preto com brilhos, brincos elegantes e maquiagem – uma estética grotescamente destoante do restante do grupo. Sua presença, desde o princípio, deixa o ritmo da cena completamente desconfortável, numa clara interrupção da euforia inicial. Após um acontecimento constrangedor, um silêncio agonizante toma conta da cena e toda aquela bagunça colorida, em contraste com a energia embaraçosa que nasce ali, potencializa ainda mais o sentimento de desconforto e de intromissão.

A inconveniência da personagem vai gradativamente dando lugar à um comportamento obsessivo e insano para com a irmã aniversariante e o ambiente, que permanece caótico, passa a ter outro significado – nesse momento, a bagunça passa a simbolizar a ideia de armadilha, que confunde e perturba ainda mais a cabeça dos três amigos.

O desfecho do episódio ainda atribui um terceiro sentido à composição caótica do quarto – mas vou poupar meus leitores de spoilers como um incentivo para conferir essa que é uma das minhas séries preferidas.

 

Temporada 1, Episódio 10

A maioria dos episódios de Room 104 tem estruturas narrativas bem tradicionais, com início, meio e fim, plot twists e tudo mais. No entanto, alguns possuem um caráter bem experimental, não se atendo completamente às regras formais de roteiro. O 10 episódio da 1ª temporada é um deles.

Com o nome de “Red Tent”, acompanhamos dois rapazes que nos são apresentados, em um primeiro momento, sob uma luz dura e vermelha, trabalhando em algo que não sabemos ainda o que é. Alguns minutos depois, nos é revelado que ambos estavam em uma barraca vermelha, armada dentro do quarto 104. O cômodo está absolutamente impessoal, parecendo um quarto de hotel desocupado, exceto pela enorme tenda vermelha aberta no meio ambiente.

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cena do episódio “Red Tent”, da série Room 104

A relação dos dois é pouco clara mas, pelas pistas dadas, notamos que os rapazes não se conhecem bem e estão ali somente para executar a tarefa na qual trabalham dentro da tenda. Um deles decide abandonar a missão e deixa um bilhete em cima da cama, dizendo que não consegue “fazer isso”. Nesse momento, nos é revelado que o jovem está construindo uma bomba caseira.

Ao terminar de fabricar o artefato, o rapaz que prosseguiu no trabalho sai da tenda e decide tomar um banho para se preparar para um comício. Durante esse momento, a câmera foca na televisão do apartamento e vemos propagandas políticas e noticiários falando sobre os candidatos à presidência dos Estados Unidos. Ao sair, o jovem é surpreendido pela presença de um técnico de ar condicionado enviado pelo proprietário do hotel para fazer reparos no quarto. A chegada desse personagem é que deixa claro para o espectador qual é o verdadeiro tema do episódio – o técnico veste um uniforme todo azul e boné branco que, se somadas ao vermelho da barraca, temos as cores dos Estados Unidos (semiótica é tudo, meninas!).

A narrativa não deixa claro mas é fácil inferir que o jovem planeja um ataque terrorista ao candidato que se pronunciará no evento em que ele pretende ir. Para não levantar suspeitas, o rapaz aceita que o homem termine o conserto do equipamento e, assim, eles começam a conversar. Em um determinado momento, o técnico pergunta onde está o filho do rapaz, presumindo que a barraca pertence à uma criança. Acho isso relevante porque atribui uma ideia de inocência para aquele objeto que, na verdade, encobre uma bomba.

Em outra oportunidade, o rapaz pergunta ao homem se, caso ele pudesse voltar no tempo, se ele mataria Hitler para evitar os crimes que o ditador cometeu. Esses dois pontos são muito importantes para trazer mais profundidade para um episódio que acontece totalmente nas entrelinhas. Não é difícil entender que trata-se de uma crítica a Donald Trump e ao que ele representa.

Assim, a tenda vermelha ganha um significado ainda mais potente – aquilo que, por fora, parece inofensivo (e até carrega uma das cores da nação) mas, por dentro, esconde uma bomba-relógio, pronta para provocar violência (vermelho também é cor do sangue, né?). Todo esse episódio é bem bonito, cheio de nuances e complexidades e com uma crítica contundente e muito bem arquitetada ao atual presidente americano.

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cena do interior da barraca vermelha, no episódio “Red Tent”

A verdade é que é possível dissecar tudo que o design de produção oferece para a narrativa em todos os episódios de Room 104. O que mais me encanta nessa antologia é que se trata de um produto em que fica muito claro o que faz a direção de arte de fato, já que o cenário em si não muda nunca. Não se trata apenas de mobiliar um cômodo, definir uma paleta de cores ou estilizar um espaço a partir da estética de uma época específica.

Apesar de ser compreendido como uma arte visual, o design de produção também se realiza nas coisas invisíveis – a energia de uma cena nasce no humor que a ambientação cria no espaço e isso acaba por o gênero do episódio – se é suspense, comédia, romance, etc. É a partir da sensibilidade do tratamento da arte que se consegue empregar tanta simbologia na composição, enriquecendo e criando camadas de profundidade numa narrativa com tempo tão limitado para se resolver.

O design de produção é capaz de transformar um único cômodo em diversos universos imaginários possíveis. Até me arrepia. Room 104 deve ser um exercício delicioso e bastante desafiador para a criatividade, em todos os sentidos. Fica a recomendação para quem ainda não conhece, é uma fonte de inspiração em todos os aspectos.

Até a próxima!

Raquel Almeida

raquel almeida

sempre atenta aos pequenos detalhes de todas as coisas. mineira, 24 anos, formada em Comunicação e fã de Cinema pop.

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