A vida no Círculo

A Vida No Círculo
[tempo de leitura: 7 minutos]

“The Circle” triunfa ao apresentar uma ideia inovadora, embalado em um reality show cheio de carisma, identidade e entretenimento puro.


Nota do Colab: este texto contém leves spoilers – mas não se preocupe: não contamos quem ganha ou é eliminado.

 

VVocê é bom em navegar pelas redes sociais? Você acha que, se dependesse apenas de seu perfil, você seria popular? Talvez até mesmo capaz de ganhar um reality show? Essa é a ideia do The Circle, um programa de competição onde os jogadores interagem um com os outros apenas através de uma plataforma digital ativada por voz.

 

The Circle

The Circle é uma criação britânica, tendo estreado pela primeira vez em 2018 pelo canal Channel 4. Misturando Big Brother e Catfish, além de pegar emprestado conceitos de Black Mirror, a primeira temporada, com 18 episódios e 15 jogadores, fez um grande sucesso na terra da Rainha, levando o programa a ganhar uma segunda temporada.

Em 2019, com 22 episódios, o game show ganhou um novo prédio e uma atualização no sistema operacional. Paralelamente, The Circle se expandiu em uma franquia para fora do Reino Unido e, com a co-produção da Netflix, ganhou uma versão norte-americana, que estreou em janeiro de 2020, e uma brasileira, em março de 2020, com uma francesa ainda para estrear na plataforma de streaming. Assim, tanto a segunda temporada do reality britânico quanto as três versões da Netflix são gravadas no mesmo prédio, em Salford, na Inglaterra.

 

O Formato

Trancados em um prédio, cada um em um quarto, os competidores do The Circle dependem apenas de seus perfis na plataforma que leva o nome do programa para se comunicar. Atualizando suas fotos, montando suas biografias, atualizando seus status e conversando através de chats em grupos ou privados, eles se conhecem, participam de jogos e tomam decisões importantes, como decidir quem são os jogadores mais populares (conhecidos como Influencers). E tudo isso sem sair do sofá, enquanto falam apenas com uma televisão e são filmados por câmeras espalhadas por todos os cômodos do apartamento.

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The Circle não se distancia de outros reality shows de competição e seus competidores ainda precisam formar alianças e passam por alguns dramas e jogos de afinidade ou “resistência”. Mas, ao adicionar a camada do mundo digital, o jogo fica ainda mais interesse por apresentar a possibilidade, por exemplo, dos jogadores construírem perfis fakes ou aumentar um pouquinho da própria história. Assim, enquanto alguns optam por assumir a persona de amigos ou pessoas completamente estranhas, outros optam por serem 100% verdadeiros ou contar pequenas mentirinhas brancas, como diminuir a idade ou falarem que são solteiros – claro, com o consentimento de seus respectivos cônjuges!

O jogo digital garante ao programa uma autenticidade e renovação para o gênero, ao mesmo tempo em que adiciona novos tipos de sentimentos para os telespectadores na jornada de torcida. Não é difícil ficar nervoso esperando por um fake dar um deslize e ser descoberto, #revirar #os #olhos #com #a #quantidade #de #uso #de #hashtags, se animar quando os participantes eliminados vão visitar um dos outros jogadores, ou ficar em choque quando os competidores percebem que mandaram embora uma pessoa real achando que era um fake.

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O complexo residencial da franquia “The Circle”
A CIRCLE
Embora a edição faça a Circle parecer como uma Inteligência Artificial (AI) recém-saída de uma ficção-científica, a plataforma é parcialmente gerida por humanos. Em uma entrevista para a revista norte-americana Vulture, Tim Harcourt, o criador do programa, fala sobre  toda a construção do programa, desde o conceito até as filmagens e edição. No bate-papo ele conta que há todo um quartel general de edição para nada dar errado, incluindo a Circle, que faz sim uso de pessoas reais para funcionar 100%. No caso, os produtores do programa são responsáveis por atividades como a de transcrever todas as mensagens e enviá-las através da plataforma. Harcourt ainda revela que a franquia foi gravada ao longo de quatro meses sequenciais, começando com a US, imediatamente indo para a segunda temporada da UK, passando pela BR, e fechando com a FR – cada temporada dura cerca de três semanas para ser filmada.

 

The Circle US

Com doze episódios e 14 jogadores, o The Circle EUA estreou na Netflix no primeiro dia de 2020. Apresentado e narrado pela atriz e comediante Michelle Buteau, o Círculo norte-americano apresentou ao mundo o programa de origem britânica, com competidores cheio de carismas e personalidade.

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Michelle Buteau, a apresentadora do The Circle US

Em meio a perfis como o de um ítalo-americano marrento cheio de amor pela família, uma bissexual biscoiteira que trabalha com crianças autistas e um descendente indiano nerd e anti-redes sociais, o The Circle estadunidense construiu muito bem suas narrativas, apresentando uma edição ágil e natural capaz de prender o telespectador do início ao fim.

Com introduções de personagens marcada pela vivacidade, episódio por episódios podemos construir vínculos com os competidores e conhecer um pouco mais sobre cada um deles. É interessante perceber que, aqui, aqueles que escolheram interpretarem outras pessoas (o famoso Catfish) mostram muito mais de suas próprias personalidades do que a da pessoa que eles estão sequestrando a identidade. Um, em particular, é um dos mais cômicos do The Circle US, provendo deliciosos momentos como o que ele precisa discutir menstruação com outras mulheres reais.

A versão norte-americana do programa é marcada por diversidade, representatividade e MUITO bromance (romance inocente entre brothers, em tradução livre), além de interações onde os participantes compartilham muito mais de suas próprias histórias pessoais. E é no meio disso que há espaço para fazer certos questionamentos socialmente pertinentes.

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Além do jogo, é preciso prestar atenção na decoração de interiores dos apartamentos!

Em um determinado momento, por exemplo, uma das participantes questiona o uso do termo “skinny queens” (rainhas magras) para aquelas que não se encaixam nessa descrição de beleza padrão. Em outro episódio, podemos ver uma mulher plus-size ir ficando muito mais confortável em ser ela mesma, com medo de que seu físico ative o preconceito de suas rivais. Ao mesmo tempo, nossos próprios pré-julgamentos são colocados em teste, quando o público reforça certos esteriótipos nos julgadores, que se provam muito mais profundo e tridimensionais que a primeira opinião de todos. Nesse ponto, é preciso dar os parabéns pra produção, que provavelmente pensou em trazer personagens estereotipados e ver que tipo de resposta teria o telespectador.

The Circle se prova como um excelente experimento social para aqueles que se permitirem verem além do teor de entretenimento. Não julgar um livro pela capa é, praticamente, o maior ensinamento que a versão norte-americana nos apresenta – pauta que, inclusive, vira um interessante ponto de discussão na final da versão brasileira. Mas também não podemos esquecer de toda a problemática da interação apenas por rede social, a vida no mundo digital e a evolução da tecnologia.

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Todos os participantes da versão norte-americana

Não há como negar, como um dos participantes constantemente nos lembra através de seu mantra pessoal, que a internet é a Medusa contemporânea para muitos, que não sabem dosar o uso das redes a acabam vivendo dentro de um personagem obcecado por curtidas. E com uma plataforma por comando de voz sendo o centro de tudo, fica ainda mais impossível se questionar: será que esse seria realmente o nosso futuro? Eu sei que, nesse quesito de isolamento social, eu triunfaria. #Introvertido #MeuQuartoMeuMundo

 

The Circle Brasil

Não se distanciando muito da versão norte-americana, o The Circle Brasil também aposta bastante em personagens cheios de carisma, que representam muito da identidade brasileira com a sua riqueza de diversidade. A edição, apresentada e narrada pela atriz Giovanna Ewbank, traz competidores do Nordeste, Norte, Sudeste e Sul, que circulam entre 20 e 34 anos.

A maior diferença entre as duas versões é que a brasileira aposta muito mais no uso de memes – o que faz sentido, considerando que o Brasil é praticamente o maior fabricante dessa linguística digital. No começo, no entanto, o uso de termos como “flopados” parece um pouco forçado, destoando da naturalidade como todo o resto ocorre. Mas com competidores tão cativantes e reais, o ruído acaba sendo apenas isso: um ruído.

A edição brasileira triunfa com a sua personalidade, mostrando extremos de representatividade cultural, linguística e sexual. Se por um lado temos, por exemplo, um bombeiro saradão, branco e hétero topzera ou uma mulher branca, magra e miss, do outro temos um homem nordestino, negro, gay e afeminado, ou uma mulher negra, gorda, periférica e capaz de abrir um espacate como se fosse a coisa mais natural do mundo. Há espaço para todo mundo – e não sobra nenhum para o preconceito.

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No The Circle Brasil, com o arco-íris e as mulheres marcando tanta presença, a edição abre bastante espaço para discussões sociais, como a normalidade da orientação sexual e a força do sexo feminino e da mulher brasileira. Ao longo dos episódios, vemos os participantes bastante conectados nessas pautas, mostrando que, independente de qualquer coisa, o respeito é a vida de regra ali.

Ainda que os brasileiros tenham uma interação pessoal menor, discutindo mais estratégia e suas constantes suspeitas referente ao jogo, é impossível não chegar no episódio final sem ter seu favorito, querer ser amigo de um deles, ter se apaixonado por alguém e ter se divertido muito com pelo menos metade deles – especialmente com os super-gêmeos que estão sempre ativados pelo poder de uma peruca.

O The Circle Brasil não fica pra trás e bate de frente com a versão norte-americana, com alguns dos espectadores preferindo a versão tupiniquim do programa. Se um é melhor que o outro, fica a critério de quem assistir. Mas uma coisa é universal: a franquia The Circle, com sua refrescância ao gênero, é entretenimento puro e na sua melhor qualidade.

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Na versão brasileira, a diversidade brasileira é o pilar da primeira temporada

Ei, Circle, atualize meu perfil: Já estou esperando a França nesse Carnaval, e não aguento mais esperar pelas próximas temporadas dos países que já passaram por aqui sambando! #ÍconeDeReality #TheCircleEuTeVenero *emoji piscando* *emoji de brilho*. Enviar! 😉✨

Vics

vics

tem 24 anos e é formado em Jornalismo pela PUC Minas, com um MBA em Comunicação e Marketing. gerencia a revista e, ainda, escreve matérias sempre que tem uma boa pauta.

ao todo, já assistiu um total de 18 meses em Séries, cinco meses em Filmes e em uma década foram cerca de 25 meses em reprodução de Música.

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