Amor em tempos de liquidez

Amor Em Tempos De Liquidez
[tempo de leitura: 3 minutos]

“Casamento às Cegas”, novo reality da Netflix, aposta em um formato que mostra como o amor nos tempos modernos pode, de fato, ser cego.


CCasamento às Cegas é uma das novas apostas da Netflix para prender o telespectador a TV. O reality show consiste em pessoas tentando provar o mantra de que o “amor é cego”, por meio de um experimento. A ideia é que, inicialmente, 15 homens e 15 mulheres que seguem um um padrão de beleza, tem encontros dentro de uma cabine, que só permite a revelação do companheiro quando um pedir o outro em casamento.

No final, são formados seis casais, que partem para uma viagem para o México. Depois apenas cinco casais se mudam, cada um para uma nova casa, e no final do mês se casam. Tudo assim bem rápido, sem tempo de pensar. O reality show tem um ar trash e armado, mas consegue prender o espectador e criar um forte sentimento de curiosidade para saber quem dirá o grande “Sim”, no altar.

Os participantes de Casamento às Cegas chegavam a ficar 19 a 20 horas conversando entre si, no início em encontros de 30 minutos e após começar a aproximação entre os casais poderiam durar várias horas. Essa experiência toda pode lembrar a teoria da modernidade líquida do sociólogo Zygmunt Bauman. Como os casais fogem da realidade, como telefone, redes sociais, pressão social e até mesmo família e amigos, o tempo e espaço para eles é outro.

A teoria de Bauman fala que o momento histórico que vivemos atualmente, em que as instituições, as ideias e as relações estabelecidas entre as pessoas se transformam de maneira muito rápida e imprevisível, “Tudo é temporário, a modernidade (…) – tal como os líquidos – caracteriza-se pela incapacidade de manter a forma”, escreveu o sociólogo. Aplicando essa ideia ao reality, podemos falar algo de amor líquido, que todos os fatores externos interfeririam em encontrar o amor verdadeiro.

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“Casamento às Cegas” é apresentado pelo casal da vida real Nick e Vanessa Lachey

É isso que Casamento às Cegas tenta prevenir, mas quando os participantes voltam a realidade tudo muda. Cheio de cenas apaixonadas e fogosas, mas também cheio de discussões o programa acompanha de perto a vida dos casais é aí que surgem pautas como bissexualidade, preconceito, empoderamento negro e casais inter-raciais. Um dos casais que se forma é Lauren e Cameron, ela negra e ele branco, a participante que tem voz ativa na comunidade negra se preocupa como o noivo será aceito, principalmente pelo o pai, uma das cenas mais tensas. Por mais que sejam coadjuvantes, esses temas aparecem e são importantes, por terem tomado lugar no reality. Nos faz perceber que eles têm lugar até mesmo entre o amor verdadeiro.

A produção surpreende pelo escopo grandioso, com todos os cenários iniciais, nas cabines por exemplo, sendo pensados para aconchegar o participante e fazer com que ele se abra com mais facilidade, tem sofá e mantinha. Todos os lugares têm bebida, para ajudar nessa abertura e proporcionar cenas de amor e conflito. Na segunda fase do experimento câmeras voyeurísticas gravam o máximo que podem do contato físico entre os casais, e no enlace final a marcha nupcial é trocada por uma composição dramática digno de Pedro Almodóvar.

Apesar de toda essa romantização, Casamento às Cegas tende a reforçar ideias patriarcais. A cada episódio a frase ‘’para o resto de nossas vidas’’ é repetida inúmeras vezes. Durante grande parte de sua vida a mulher é ensinada a cuidar da casa, servir o marido, pronta para o casamento, como isso a tornaria completa e que sem o matrimônio ela teriam falhado na vida. E a partir do momento que o reality alcançou milhões de pessoas é preciso pensar nos conceitos que ele propaga, consciente ou inconscientemente. A ideia de que só se é plenamente feliz com o casamento (tanto para o homem, mas principalmente para a mulher), é algo que deve ser rodeado de exceções.

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O formato do programa coloca duas pessoas frente a frente – mas cada uma fica em uma sala, sem poder ver a outra pessoa.

O programa tem até um episódio de reunião, gravado após um ano dos casamentos, para mostrar quais casais continuam juntos, quais voltaram e até aqueles que não deram certo terem a chance de se explicar. Ao final, percebemos que Casamento às Cegas é um reality cru e real para alguns participantes, levando-os a perceber paredes que haviam erguido, e principalmente que o amor em tempos de grandes visualizações pode ser cego.

Clarice Pinheiro Cunha

clarice pinheiro cunha

tem 20 anos, aluna de jornalismo que não toma café. libriana, mãe de um gato. nunca vai recusar uma batata frita, uma caneca de chá e uma boa conversa.

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