Dis joint is based upon some fo’ real, fo’ real shit

Dis Joint Is Based Upon Some Fo’ Real, Fo’ Real Shit
[tempo de leitura: 16 minutos]

No mês da Consciência Negra, Spike Lee comemora 35 anos do seu primeiro longa metragem (e quase 40 do primeiro curta) enquanto nos cinemas brasileiros chega “Infiltrado na Klan”, sua mais recente produção.


Nada mais justo do que em novembro, mês da Consciência Negra, estrear nos cinemas brasileiros Inflitrado na Klan, filme que marca o retorno de Spike Lee a sua melhor forma. O trabalho do diretor marcou época na década de 80 por seus filmes subversivos e representativos de uma cultura negra urbana muito particular. Isso cunhou Lee como um mestre do cinema social e racial nos Estados Unidos, também marcado pelo seu posicionamento engajado como figura pública, transformando-o em um nome relevante do movimento de contracultural. Se no mundo contemporâneo filmes como Moonlight (2016), Corra! (2017), Ponto Cego (2018) e o vindouro Sorry to Bother You (2018), ou até mesmo séries de TV como Kee & Peele (2012 – 2015) e Dear White People (2017), tem marcado época por trazerem representatividade e instigarem transformações estruturais importantes para Hollywood, todas essas produções são influenciadas pelo cinema pungente de Spike Lee.

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É verdade que a atuação de cineastas e realizadores negros na indústria já existia desde os anos 40 do século passado. No entanto, todas essas produções originadas por ótimos diretores e protagonizadas por atores e atrizes excelentes eram condicionadas pela própria indústria à uma circulação e exibição nichada, marginalizando as produções para as salas de cinemas dos bairros e guetos afro-americanos. É importante ressaltar, também, que o cinema negro tem um período muito próspero na década de 70, resultado do movimento por direitos civis e do movimento de contracultura. Esta é uma época marcada pelo Blaxploitation, fenômeno cinematográfico pautado por um cinema autoral e ideológico, em uma resposta ao segregacionismo social da época em “filmes feitos por negros para negros”.

É justamente a filmografia de Spike Lee que tira essas produções de um espaço de consumo e exibição marginalizado pela indústria e os eleva ao status de sucesso de público e crítica, consagrando-se em diversos dos mais prestigiados festivais de cinema do mundo. Spike tem um papel imprescindível na popularização do cinema negro não só em um sentido social, cultural e artístico, mas também em uma esfera produtiva, levando diversos espectadores para filmes que seguiam um traço autoral claro e meios de produção independentes.

 

Um Gênio de Origens Urbanas

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Nascido em Atlanta, na Geórgia, um Lee ainda criança acompanhou sua família para uma mudança de ares, quando tinha apenas três anos. Assim, cresceu e firmou raízes no Brooklyn, em Nova York. Filho de uma mãe professora de Artes e de um pai músico de jazz, sua trajetória sempre foi marcada pelo contato com arte e cultura, levando-o a estudar na Tisch, a famosa Escola de Artes da Universiadade de Nova York (NYU) – mesmo centro estudantil em que nomes como Martin Scorsese, Jim Jarmusch e Joel Coen estudaram.

Logo em seus primeiros curtas-metragens experimentais é possível perceber a assinatura que o diretor construiria e afirmaria ao longo de sua carreira. Em The Answer (1980), segundo curta que dirigiu, o diretor apresenta a jornada de um roteirista negro que é contratado para escrever o texto do remake de O Nascimento de Uma Nação (1915), de D.W.Griffith, longa que apesar de sua inegável importância para o desenvolvimento da linguagem cinematográfica é tido como “o filme mais polêmico da história do cinema”. Tal classificação é justa e branda, devido ao racismo contundente existente na forma como os negros são retratados no filme, em atuações caricatas e absurdas de atores brancos com uso de black face (uma prática que consiste em pessoas brancas pintarem seus rosto de preto, fazendo sátira aos negros) além de uma ostensiva e nojenta exaltação da Klu Klux Klan em seu enredo. Em uma conversa com Pharrell Williams, para o Reserve Channel (canal no Youtube), Spike conta que a sua motivação para a produção de The Answer veio, justamente, do seu incomodo perante a forma com que O Nascimento de Uma Nação era apresentando dentro da história do cinema. Inclusive, compartilha que após a exibição de seu curta em um festival estudantil de cinema, ele quase chegou a ser expulso da faculdade por abordar a condescendência que o mundo sempre tratou a problemática e preconceituosa forma com que Griffith construiu seu filme.

Passados três anos de toda a polêmica com a NYU, Spike lançou como sua tese de mestrado o filme independente Joe’s Bed-Stuy Barbershop: We Cut Heads (1983), que se tornou o primeiro filme estudantil a ser exibido no Lincoln’s Center New Directors New Films Festival, promovido pelo prestigiado centro de companhia de artes de Nova York. Com uma trama focada em uma barbearia no Brooklyn, que funciona como ponto de encontro para jogos de azar e apostas, ao mesmo tempo que é um espaço para os moradores do bairro se encontrarem e conversarem trivialidades, o longa já apresenta a atenção que o diretor dá para temáticas urbanas envolvendo a cultura negra e a ocupação urbana da população afro-americana nos EUA.

 

Salto na Indústria

É no final da década de 80 e nos primórdios dos anos 90 que Spike Lee se consolida como um dos principais cineastas de sua geração. Em 1986, ele estreou na direção de um longa-metragem distribuído por um estúdio com Ela Quer Tudo, um filme que marca sua carreira não só por apresentar seu traço autoral ao público mainstream, mas também por trazer uma prerrogativa ousada e confrontadora para a época. Quando lançado, a produção foi considerada uma película que confrontava o senso comum no que diz respeito à sexualidade da mulher negra, uma vez que seu enredo apresenta Nola Darling (Tracy Camilla Johns), uma jovem negra que experimentava sua sexualidade abertamente, saindo com três homens ao mesmo tempo.

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Ao lado de Tracy Camilla Johns, a estrela do filme, Spike Lee posa nos bastidores de “Ela Quer Tudo”

Apesar de ter lançado School Daze em 1988, é só no ano seguinte que Spike cravaria seu nome na indústria com o arrebatador Faça A Coisa Certa (1989), filme que consolidava a identidade confrontadora, engajada, autoral e corajosa enquanto cineasta. Uma das maiores virtudes do longa é que, mesmo passados quase 30 anos de sua estreia, o filme em questão ainda é extremamente atual e contemporâneo, não só envelhecendo muito bem enquanto obra cinematográfica, mas também como um um manifesto social poderoso e urgente.

O engajamento social aqui, como todo filme do cineasta, está na estrutura da narrativa que apresenta um longo e excessivamente quente dia em Bedford-Stuyevesant, bairro do Brooklyn. Diferentemente do que se via no cinema da época, em que os filmes apresentavam um Brooklyn marginalizado, violento e pautado por tiros e drogas, Spike trouxe as telas a realidade social de um bairro habitado por pessoas comuns, que assim como nós, tem rotinas, trabalhos e relações afetivas, construídas em um senso de comunidade forte. A partir do clima quente naquele espaço urbano, o diretor transforma a região em um micro-cosmo, aproveitando do calor crescente como o estopim da panela de pressão que eram (e mesmo que com singelas mudanças, continuam sendo até hoje) as tensões sociais nos Estados Unidos.

A sensação de desconforto que Spike traduz inerentemente em seus longas é muito bem transmitida por meio de uma narrativa inteligente, ácida e a partir do olhar particular e intimo que o diretor tem para esses conflitos, evidenciando o preconceito latente e estrutural na sociedade, sentido na própria ocupação urbana das cidades norte-americanas. Para amplificar o desconforto, vêm a perfeita recriação do sentimento de calor, seja nas atuações de um elenco afiado ou dá ótima fotografia de Ernest Dickson, mas também na maneira com que o diretor conduz a narrativa em um ritmo crescente de acontecimentos imprevisíveis que enervam o espectador até um estopim impactante.

Passados quase 30 anos, Faça A Coisa Certa se edifica cada vez mais como um filme inteligente que propõem ao espectador caminhos e ferramentas para uma discussão importante e atemporal. Também, o trabalho de seu diretor tem se perpetuado ao longo dos anos, tornando-se, na próxima década, ainda mais produtivo para o cinema negro.

 

Alta Produtividade

Na sequência de um dos seus mais emblemáticos longas, Spike adentra a década de 90 com inúmeras produções para as telonas, com filmes como Mais e Melhores Blues (1990), Febre da Selva (1991), Garota 6 (1996) e o Verão de Sam (1999). Mesmo com alguns se destacando mais do que outros, todos eles reafirmam a essência provocativa e reveladora do diretor, além de assegurar que em um sistema de produção de quase um filme por ano, Spike continuava a manter uma áurea de longas independente em suas produções do mainstream.

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Na mesma época, o cineasta mostra sua genialidade para diferentes formas de direção, passando a comandar documentários, clipes musicais, especiais de comédia para a TV e, claro, continuando a realizar curtas-metragens. Dentre os mais marcantes, pode-se apontar o documentário Quatro Meninas – Uma História Real (1997), que conta a história de um chocante atentado racial na história dos EUA, em que quatro jovens negras foram brutalmente assassinadas em um ataque a uma igreja do Alabama. No segmento musical, Spike dirigiu as duas versões do conhecido clipe de They Don’t Care About Us, de Michael Jackson, cujo original é filmado no Rio de Janeiro e uma segunda versão gravada dentro de uma cadeia, com detentos de verdade. Ainda, comandou o vídeo de Sunless Saturday, de Fishbone, e o clipe de Revolution, do Arrested Development, que faz parte da trilha sonora original de Malcolm X.

Apesar de uma década de muitos lançamentos, Malcolm X (1992) se destaca entre os demais por ser uma das mais impressionantes cinebiografias da história, que assim como seu protagonista e seu diretor é carregada de personalidade. O esmero com que o cineasta consegue abarcar as distintas fases da vida do protagonista, marcada por experiências e vivências fortes e transformadoras, fazem da produção um recorte muito coeso do que foi a vida de uma das figuras negras mais marcantes da história dos EUA.

O filme acompanha a infância de Malcolm e passa por seu período na cadeia, onde tem a guinada em sua vida, que o motivaria a se tornar a figura impactante, contestadora e contestável que foi. Sendo tão comparado a imagem oposta de Martin Luther King, acompanhamos a jornada intensa por um olhar que combina com perfeição momentos de comédia, documentário e drama. É um trabalho de condução de ritmo e tom muito preciso do diretor.

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Spike Lee contracena com Denzel Washington em “Malcolm X”

Se Spike tem seus méritos na concepção da visão e retrato da figura, o ainda jovem Denzel Washington é o responsável por apresentar “a figura Malcolm X” que pode ser vista em vídeos e gravações de discursos e passeatas, ao mesmo tempo que constrói o personagem em seus momentos antes da fama e nas fases obscuras da vida. É uma concepção de personagem e atuação com camadas, profundidade e que trazem mais folego à projeção, além de sustentar ainda mais a figura social construída. Um trabalho impecável que lhe rendeu uma indicação a Melhor Ator no Oscar daquele ano.

Tudo se torna ainda mais bonito e carregado de sentimentos com a deslumbrante fotografia de Ernest Dickerson. Enquanto ela pinta as cenas passadas no Harlem urbano com tons quentes, as sequências na prisão ganham tonalidades mais claras e cruas, trazendo uma estética mais burocrática e fria para esta parte do longa. E sem perder a identidade, a fotografia se transforma em uma iluminação mais documental quando vamos nos aproximando do terceiro ato, quase que em uma mudança de formato do olhar para acompanhar o período em que o protagonista se transforma na figura pública emblemática.

O mais surpreendente de Malcolm X é que Lee consegue transformar uma cinebiografia em um retrato íntimo e verdadeiro, capaz de capturar a personalidade de um personagem marcante para a história de um país e, principalmente, para um povo específico, em um recorte universal do que essa figura foi. Ao apresentar as bases e motivações de Malcolm, o diretor consegue criar um filme que, ao mesmo tempo que evidencia o discurso poderoso, impactante e ideológico do protagonista (e porque não o seu próprio), também cria uma relação de compreensão e justificativa para aqueles que talvez não enxergariam a humanidade e o sentido naquela figura e, mais importante, no discurso perpetuado. É mais um trabalho arrebatador da vasta filmografia do cineasta.

 

Novo Milênio

Na virada para os anos 2000, Spike continua mostrando sua versatilidade enquanto diretor e realizador, dirigindo o especial de comédia The Original King’s of Comedy (2000), que registra as apresentações de quatro importantes e hilários comediantes negros: Cedric The Entertainer, Steve Harvey, D.L.Hughley e Bernie Mac. Dentre os documentários, Jim Brown: All American (2000) e A Huey P. Newton Story (2001) marcam seu trabalho no formato, enquanto nos filmes de ficção o diretor entregava mais uma produção impactante e que balançava com as estruturas sociais, dessa vez atacando também a própria indústria de Hollywood.

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Spike começa o novo milênio chutando a porta com a estreia de A Hora do Show. No meio de uma filmografia já robusta e de um traço autoral consolidado, o longa chega como mais uma demonstração da coragem do diretor em como escolher as representações que usa para falar sobre a temática social desejada. Dessa vez, o olhar se volta para as estruturas de Hollywood, apresentando a jornada de um jovem negro roteirista de televisão que ainda não teve nenhum de seus textos escolhidos para serem produzidos no canal. A partir da eminente demissão, o jovem escreve uma comédia escrachada, inspirando-se na época em que os personagens negros eram vividos por atores brancos que cometiam o ridículo black face. De forma sarcástica, a comédia se torna um sucesso de audiência que acaba desencadeando uma série de discussões e repercussões, construindo o cenário para que Spike volte a enfiar o dedo nas feridas raciais da indústria televisiva, do cinema e, consequentemente, da sociedade.

Uma das maiores virtudes de A Hora do Show é o sarcasmo e a acidez do discurso que o cineasta imprime, trazendo camadas para uma crítica que demonstra a podridão interna de um sistema que tem suas estruturas muito enraizadas, sendo difícil de ser combatido também por dentro. Se a comédia da trama é pautada pela sátira e pelo cinismo auto-referente, o longa de Spike opta por transformar essa possibilidade de meta-linguagem em uma demonstração dos preconceitos e descriminações vividas na realidade. Essa proposta se torna ainda mais latente pensando que na atualidade presenciamos o movimento de boicote #OscarsSoWhite e com as recentes mudanças na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para tentar corrigir justamente as estruturas errôneas que o diretor apontava em seu filme. Nada mais digno do que o diretor não comparecer a cerimônia de entrega do Oscar de 2016, como forma de protesto, mesmo tendo sido homenageado com um Oscar Honorário pela sua contribuição para o cinema naquela mesma ocasião.

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Nos próximos anos, é passível de dizer que o diretor não viveu seus melhores anos como realizador, tendo altos e baixos em filmes que mesmo sem impactarem como outro de sua filmografia, em momento algum perderam sua identidade confrontadora e provocante, fosse nas temáticas, discursos ou propostas enquanto obra cinematográfica. A Última Noite (2002), Elas Me Odeiam, Mas Me Querem (2004), Código das Ruas (2004), Passing Strange (2009), Da Sweet Blood of Jesus (2014) e o remake do coreano Oldboy: Dias de Vingança (2013) são considerados por muitos como películas em que o cineasta não conseguiu reproduzir sua genialidade corriqueira, entregando filmes que dividiram público e crítica, mas que nunca foram elevados a um patamar especial.

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Contudo, neste mesmo período, Spike também deu vida a produções que se destacaram. O Plano Perfeito (2005) é provavelmente o filme mais mainstream do diretor, tido até mesmo como uma investida no ramo mais comercial da indústria – mas passando longe de uma crítica negativa. Nessa tentativa de fazer um filme mais acessível ao público, Spike mostra como sabe tratar de temáticas sociais de maneiras sutis, não só com sua corriqueira identidade impactante. Revigorando toda uma gama de filmes de policiais e assaltos a bancos, O Plano Perfeito encontra espaço para falar da seletividade policial e da truculência motivada por estruturas violentas na sociedade e em suas principais instituições.

Em 2012, o diretor traz as telas um filme curioso em sua filmografia. Pautado pela artificialidade em sua construção, vista principalmente nos cenários e nas atuações engessadas, Verão em Red Hook (2012) pode ser a primeira vista um filme complicado, mas a partir de um olhar mais sensível se transforma em uma das produções mais complexas de Lee. Ao voltar seus olhos para o bairro Red Hook, no Brooklyn, o diretor traz uma representação atualizada do condado de Nova Iorque antes muito bem explorado em seus longas, como Faça A Coisa Certa. A relação de proximidade fica ainda mais profunda, possibilitando até comparações, quando pensamos nas adaptações que o diretor faz para falar de um Brooklyn que outrora quente pelas tensões sociais de ocupação urbana, hoje vive em uma comunidade mais articulada e estruturada. De qualquer forma, o diretor recorre novamente ao artifício de sucesso que utilizou no filme de 89 (em que uma reviravolta no cotidiano das pessoas causa efeitos sérios na dinâmica social representada, mexendo com o status quo) para escancarar que esse mesmo bairro aparentemente organizado, não está tão articulado assim.

Explorando do formato de documentário, Kobe Doin’ Work (2009) propõem um dos olhares mais crus e interessantes em Kobe Bryant, um dos maiores jogadores de basquete da história da NBA, a liga nacional de basquete dos EUA. Conhecido no mundo todo, figura midiática que vale milhões e com uma história pessoal interessante, Kobe é apresentando de outra forma aqui. O que importa realmente é o jogador, o comportamento dentro de quadra, suas decisões enquanto atleta, seus direcionamentos para os colegas e sua onipresença e qualidade inquestionáveis na hora de jogar basquete. É uma proposição interessante para um documentário esportivo, que em sua maioria é trabalho na emoção e paixão do que envolve o esporte, os investimentos milionários que passam por esse mercado e o glamour da vida de atleta. É quase como se Spike quisesse representar o lado operário de Kobe Bryant, em uma desconstrução da figura pública e apresentação do atleta. Um recorte muito interessante para um documentário

Outro destaque do período é Chi-Raq (2015), um musical satírico contemporâneo focado em falar sobre violência, armas e a sexualização da sociedade. Explorando de todo seu know-how na direção de videoclipes e de seu bom domínio da teatralidade existente em números musicais, o diretor surpreende com um filme cheio de ritmo, vida e, como de costume, acidez nas críticas e discursos. Este seja, talvez, o filme mais irreverente do diretor desde A Hora do Show, propondo intencionalmente um cinismo e sátira como meio de diálogo a respeito de temas tabus ou polêmicos. Uma conversa que Spike Lee se deleita ao nos apresentar com música, humor e irreverência.

 

New Film, Old Spike

Mesmo que Chi-Raq e Verão em Red Hook sejam filmes muito interessantes, ambas as produções sofreram com distribuições, chegando a passar em poucas salas de cinema ou, como no caso do Brasil, serem destinados diretamente para TV ou DVD. Esse relativo tempo de afastamento das telonas foi marcado também pelos recorrentes posicionamentos públicos do cineasta, sempre muito engajado, principalmente no já citado episódio dos protestos pela falta de representatividade nos indicados das edições do Oscar de 2015 e 2016.

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Spike Lee no tapete vermelho do Festival de Cannes

Todo esse contexto foi potencializado pela conjuntura social contemporânea, com a extrema direita crescendo em países de vários continentes, além de nações importantes estarem elegendo líderes que propagam ideologias preocupantes e agressivas aos direitos civis e as liberdades individuais humanas, atacando principalmente as minorias. Os efeitos desses acontecimentos dentro da sociedade civil estado-unidense construiu uma conjuntura propicia para que Spike Lee encontrasse a história perfeita para retornar a direção de um longa-metragem, apresentando um filme visceral, realizado com maestria pelo cineasta, que carrega um discurso crucial e impactante para as relações sociais, políticas e culturais da atualidade.

Desde que foi coroado no Festival de Cannes com o Grand Prix, prêmio mais importante além da Palma de Ouro (reconhecimento máximo do festival), Infiltrado na Klan passou a carregar uma enorme expectativa até sua estreia. Com a chegada da película aos cinemas brasileiros, fica a felicidade de presenciar o retorno do diretor a sua melhor forma, dando vida a uma obra tão expressiva, interessante e rica quanto seus melhores trabalhos, como Faça A Coisa a Certa e Malcolm X.

Ao abrir o longa com a frase “Dis joint is based upon some fo’ real, fo’ real shit”, a versão mais Spike Lee possível para o corriqueiro “baseado em fatos reais”, o diretor já nos apresenta toda a essência de Infiltrado na Klan: uma produção bem humorada, sarcástica e ácida que em momento algum esquece do peso e da realidade existente na sua trama e no seu discurso. O roteiro, assinado pelo diretor em colaboração com Kevin Willmott, David Rabinovitz e Charlie Wachtel, adapta o livro Black Klansman: Race, Hate, and the Undercover Investigation of a Lifetimede Ron Stalworth. A trama, tão real quanto absurda, apresenta a história do primeiro policial negro da Polícia de Colorado Springs, responsável por comandar uma investigação em que se infiltrou em uma célula da Ku Klux Klan. Para obter sucesso na missão, Ron Stalworth (vivido no longa por John David Washington) se afiliou à organização pelo telefone e manteve contato frequente com os integrantes da célula, enquanto seu parceiro de investigação, Flip Zimmerman (Adam Driver) comparecia aos encontros e se relacionava em pele e osso com os supremacistas brancos racistas da Klan.

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John David Washington e Adam Driver protagonizam “Infiltrado na Klan”

O texto do longa é, também, muito inteligente na forma como constrói as tensões sociais do contexto em que representa e as estuda com humor e sarcasmo. Se por um lado temos a Ku Klux Klan com suas ideologias enfadonhas, do outro existe uma organização estudantil de jovens negros que reivindica os direito civis e dão força ao Movimento Black Power. Há também o desenvolvimento de um tema pautado na histeria coletiva e na popularização de discursos e retóricas ideológicas, seja na bonita sequência do início do longa em que o orador do movimento negro dialoga efusivamente com os estudantes admirados, ou nos discursos comedidos e calmos de David Duke (Topher Grace). É uma contraposição de abordagens interessante que evidencia a necessidade de energia e luta para que as minorias consigam conquistar seus direitos e espaços na sociedade, enquanto o preconceito velado ou escancarado pode existir da forma mais singela e natural possível que as respostas no comportamento alheio serão tranquilas.

A contraposição de ideias também é trabalhada em um dos momentos mais interessantes do longa, em que Spike retorna ao começo de sua carreira para, assim como fez em seu curta The Answer, explorar de O Nascimento de Uma Nação novamente. Em uma das sequências mais fortes do filme, o diretor utiliza da montagem paralela, consagrada por D.W.Griffith e que consiste na alternância de planos de duas sequências para criar um novo significado a estes acontecimentos, para desnudar a aceitação coletiva do preconceito como veneno social. Se por um lado acompanhamos a célula da Klan vibrando e celebrando ao assistirem a O Nascimento de Uma Nação , por outro acompanhamos o clima lamentoso e intimista em que um ancião negro conta aos jovens estudantes a triste história do linchamento e condenação de um negro, em um espaço recheado de brancos. É um momento forte da película, em que o tom leve e bem humorado dá lugar a seriedade e drama, principalmente quando conseguimos lembrar com facilidade de linchamentos sociais e ataques a minorias que aconteceram nos últimos meses, em diversos países, incluindo o Brasil.

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Spike Lee com Topher Grace e Adam Driver durante as gravações de “Infiltrado na Klan”

O clima cômico e bem humorado que permeia durante quase toda a projeção, juntamente com a história que por vezes parece irreal devido a estupidez dos integrantes da Klan, ganham raízes na realidade com as atuações. John David Washington é intenso a todo momento, transmitindo a frustração, raiva e tristeza ao enfrentar o sistema racista (seja a sociedade, a KKK ou as próprias estruturas do departamento de polícia). Adam Driver dá profundidade ao seu personagem, transmitindo o peso da desconstrução que o policial branco passa ao se infiltrar na célula e passar a ter contato direto com o ódio e preconceito destilados nos encontros, ao mesmo tempo que passa a entender melhor a sensação de fazer parte de uma minoria ao precisar esconder sua relação com o judaísmo. Topher Grace entrega um David Duke político, comedido e sereno, agregando na construção da figura preconceituosa e nojenta do homem que é, mas que sempre soube como se comportar perante o público e a sociedade para se fazer ser ouvido.

Todo esmero com que Spike trabalha a temática e desenvolve sua narrativa também é vista na criação dos anos 70, seja na ótima direção de arte, nos figurinos, cenários e maquiagens, ou na fotografia de Chase Irvin, Essa recriação da atmosfera setentista pode, em algum momento, fazer com que o espectador enxergue nos discursos preconceituosos absurdos uma conversa atrasada ou não atual. Contudo, o diretor usa de sua acidez para em comentários sutis, mas igualmente poderosos, fazer marcações que apontam diretamente para a figura de Donald Trump e para a atual conjuntura sócio-política do país. E só de olharmos para o contexto que vivemos no Brasil, torna-se impossível não reconhecer as semelhanças entre o que Lee fala sobre os EUA e o que vemos acontecer no nosso dia a dia. Não custa lembrar que o mesmo David Duke, líder da Ku Klux Klan, é o homem que elogiou publicamente Jair Bolsonaro, futuro presidente do Brasil.

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Como se as atualizações sutis para a contemporaneidade não bastassem no roteiro, o diretor ainda reserva um desfecho tão impactante quanto toda sua carreira como cineasta. Infiltrado na Klan é uma obra prima do cinema, que com a identidade confrontadora, cômica e genial de Spike Lee se assume como uma comédia política histórica, real e muito necessária.


joão dicker

com 23 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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