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Crítica: “Infiltrado Na Klan”

Crítica: “Infiltrado na Klan”

Se no mundo contemporâneo filmes como Moonlight (2016), Corra! (2017), Ponto Cego (2018) e o vindouro Sorry to Bother You (2018), ou até mesmo séries de TV como Kee & Peele (2012 – 2015) e Dear White People (2017), tem marcado época por trazerem representatividade e instigarem transformações estruturais importantes para Hollywood, todas essas produções são influenciadas pelo cinema pungente de Spike Lee.

Desde que foi coroado no Festival de Cannes com o Grand Prix, prêmio mais importante além da Palma de Ouro (reconhecimento máximo do festival), Inflitrado na Klan passou a carregar uma enorme expectativa até sua estreia. Com a chegada da película aos cinemas brasileiros, fica a felicidade de presenciar o retorno do diretor a sua melhor forma, dando vida a uma obra tão expressiva, interessante e rica quanto seus melhores trabalhos, como Faça A Coisa a Certa (1989) e Malcolm X (1992).

Ao abrir o longa com a frase “Dis joint is based upon some fo’ real, fo’ real shit”, a versão mais Spike Lee possível para o corriqueiro “baseado em fatos reais”, o diretor já nos apresenta toda a essência de Infiltrado na Klan: uma produção bem humorada, sarcástica e ácida que em momento algum esquece do peso e da realidade existente na sua trama e no seu discurso. O roteiro, assinado pelo diretor em colaboração com Kevin Willmott, David Rabinovitz e Charlie Wachtel, adapta o livro Black Klansman: Race, Hate, and the Undercover Investigation of a Lifetime, de Ron Stalworth. A trama, tão real quanto absurda, apresenta a história do primeiro policial negro da Polícia de Colorado Springs, responsável por comandar uma investigação em que se infiltrou em uma célula da Ku Klux Klan. Para obter sucesso na missão, Stalworth (vivido no longa por John David Washington) se afiliou á organização pelo telefone e manteve contato frequente com os integrantes da célula, enquanto seu parceiro de investigação, Flip Zimmerman (Adam Driver) comparecia aos encontros e se relacionava em pele e osso com os supremacistas brancos racistas da Klan.

O texto do longa é, também, muito inteligente na forma como constrói as tensões sociais do contexto em que representa e as estuda com humor e sarcasmo. Se por um lado temos a Ku Klux Klan com suas ideologias enfadonhas, do outro existe uma organização estudantil de jovens negros que reivindica os direito civis e dão força ao Movimento Black Power. Há também o desenvolvimento de um tema pautado na histeria coletiva e na popularização de discursos e retóricas ideológicas, seja na bonita sequência do início do longa em que o orador do movimento negro dialoga efusivamente com os estudantes admirados, ou nos discursos comedidos e calmos de David Duke (Topher Grace). É uma contraposição de abordagens interessante que evidencia a necessidade de energia e luta para que as minorias consigam conquistar seus direitos e espaços na sociedade, enquanto o preconceito (velado ou escancarado) pode existir da forma mais singela e natural possível que as respostas no comportamento alheio serão tranquilas.

A contraposição de ideias também é trabalhada em um dos momentos mais interessantes do longa, em que Spike retorna ao começo de sua carreira para, assim como fez em seu curta The Answer, explorar de O Nascimento de Uma Nação (2015) novamente. Em uma das sequências mais fortes do filme, o diretor utiliza da montagem paralela, consagrada por D.W.Griffith e que consiste na alternância de planos de duas sequências para criar um novo significado a estes acontecimentos, afim de desnudar a aceitação coletiva do preconceito como veneno social. Se por um lado acompanhamos a célula da Klan vibrando e celebrando ao assistirem ao filme, por outro acompanhamos o clima lamentoso e intimista em que um ancião negro conta aos jovens estudantes a triste história do linchamento e condenação de um negro, em um espaço recheado de brancos. É um momento forte da película, em que o tom leve e bem humorado dá lugar a seriedade e drama, principalmente quando conseguimos lembrar com facilidade de linchamentos sociais e ataques a minorias que aconteceram nos últimos meses, em diversos países, incluindo o Brasil.

O clima cômico e bem humorado que permeia durante quase toda a projeção, juntamente com a história que por vezes parece irreal devido a estupidez dos integrantes da Klan, ganham raízes na realidade com as atuações. John David Washington é intenso a todo momento, transmitindo a frustração, raiva e tristeza ao enfrentar o sistema racista (seja a sociedade, a KKK ou as próprias estruturas do departamento de polícia). Adam Driver dá profundidade ao seu personagem, transmitindo o peso da desconstrução que o policial branco passa ao se infiltrar na célula e passar a ter contato direto com o ódio e preconceito destilados nos encontros, ao mesmo tempo que começa a entender melhor a sensação de fazer parte de uma minoria ao precisar esconder sua relação com o judaísmo. Topher Grace entrega um David Duke político, comedido e sereno, agregando na construção da figura preconceituosa e nojenta do homem que é, mas que sempre soube como se comportar perante o público e a sociedade para se fazer ser ouvido.

Todo esmero com que Spike trabalha a temática e desenvolve sua narrativa também é vista na criação dos anos 70, seja na ótima direção de arte, nos figurinos, cenários e maquiagens, ou na fotografia de Chase Irvin, Essa recriação da atmosfera setentista pode, em algum momento, fazer com que o espectador enxergue nos discursos preconceituosos absurdos uma conversa atrasada ou não atual. Contudo, o diretor usa de sua acidez para em comentários sutis, mas igualmente poderosos, fazer marcações que apontam diretamente para a figura de Donald Trump e para a atual conjuntura sócio-política do país. E só de olharmos para o contexto que vivemos no Brasil, torna-se impossível não reconhecer as semelhanças entre o que Lee fala sobre os EUA e o que vemos acontecer no nosso dia a dia. Não custa lembrar que o mesmo David Duke, líder da Ku Klux Klan, é o homem que elogiou publicamente Jair Bolsonaro, futuro presidente do Brasil.

Como se as atualizações sutis para a contemporaneidade não bastassem no roteiro, o diretor ainda reserva um desfecho tão impactante quanto toda sua carreira como cineasta. Infiltrado na Klan é uma obra prima do cinema, que com a identidade confrontadora, cômica e genial de Spike Lee se assume como uma comédia política histórica, real e muito necessária.

joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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