Açúcar, tempero e muita crítica social

Açúcar, Tempero E Muita Crítica Social
[tempo de leitura: 7 minutos]

As Meninas Superpoderosas comemora 20 anos lutando contra padrões de gênero, patriarcado e preconceitos.


Florzinha (Catherine Cavadini), Lindinha (Tara Strong) e Docinho (Elizabeth Daily) terminam o ano de 2018 comemorando o aniversário de 20 anos! Um dos desenhos mais queridos pela geração que nasceu na década de 1990, a animação conta a história das três irmãs acidentalmente criadas em laboratório pelo Professor Utônio (Tom Kane) e que enfrentam, até hoje, o crime, as forças do mal, os padrões de gênero, o patriarcado e todo tipo de preconceito.

As Meninas Superpoderosas estreou em novembro de 1998 e seu último episódio foi lançado em março de 2005. Sucesso de público e de crítica, com 78 episódios exibidos, a série foi indicada a seis Emmy Awards e nove Annie Awards (o Oscar da animação), não terminando sua trajetória aí. O reboot de mesmo nome estreou em 2016 e é transmitido até hoje pelo Cartoon Network – e as duas versões estão disponíveis na Netflix. Ainda, a franquia conta com dois curtas, um longa-metragem, um especial de Natal e outro comemorando a primeira década, além de um anime e uma série de jogos, sem mencionar os diversos produtos e brinquedos licenciados.

O desenho conseguiu, nestes últimos anos, direcionar seu conteúdo para temas de problemáticas sociais, como transgeneridade e racismo. A história e as personagens mantiveram suas ideias progressistas de 1998, quando começaram a consolidar seu conteúdo feminista com a quebra de padrões de gêneros.

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Logo em sua criação, As Meninas Superpoderosas apresentava um teor inovador. O idealizador, Craig McCracken, pensou em um desenho para o público adulto chamado Whoopass Stew, estrelado pelas Whoopass Girls, que em vez de possuírem o ingrediente extra Elemento X, teriam uma lata de whoop-ass (substância perigosa encontrada embalada dentro das latas). Mas, nos anos 90, a ideia não foi aceita e posteriormente adaptada para o público infantil, não perdendo sua inovação. A quebra dos padrões de gêneros é desenvolvida sutilmente durante os diálogos e também nas características e histórias dos personagens.

Em um determinado episódio da série, um personagem vestido de super-herói tenta ensinar os papeis de cada gênero. Tentando dizer que lugar de mulher é na cozinha e de homem é trabalhando, ele tenta exemplificar seu ponto de vista com uma série de perguntas, mas apenas acaba irritado por sua visão ser completamente destruída pela existência de uma família do século 21 – mesmo a série tendo início em 1998. O mais interessante do diálogo é ver, ao final, que a Lindinha, a Superpoderosa mais feminina das três garotas, é a responsável por fazer os trabalhos manuais e pesados da casa.

– “Existem algumas funções desempenhadas só por homens ou por mulheres, certo? Vejam sua família, por exemplo. Quem trabalha fora e sustenta a casa?”, ele questiona.

– “Nosso pai”, respondem as meninas.

– “Exato! E quem cozinha?

– “Papai!

– “Quem lava as roupas? Quem lava a louça? Quem faz bolo?

– “Papai”, respondem novamente.

– “Então quem corta a grama do quintal e lava o carro?”, ele pergunta, irritado.

– “A Lindinha!”, elas respondem em um satisfatório unissom.

 

Subvertendo Gêneros

Os personagens principais de As Meninas Superpoderosas também moldam quebras de padrões de gênero enquanto explicitam o forte teor feminismo do programa. Docinho representa as “garotas molecas” (tomboy), meninas que não seguem os padrões e tem gostos geralmente ligados ao gênero masculino, enquanto Florzinha e Lindinhas gostam de seguir mais o “padrão feminino”, sendo delicadas, gentis e meigas. O Professor é um dedicado e carinhoso pai solteiro, mas quebra a estrutura tradicional com a qual a sociedade está acostumada, não só por fazer o papel de pai e mãe (provedor da casa e dono de casa), mas diversas vezes se transvertindo e usando maquiagem – mesmo que em algumas dessas vezes seja apenas para a felicidade de suas meninas.

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Ainda, em vários episódios, as Superpoderosas se disfarçam de homens, enquanto os homens da série usam roupas femininas. Lindinha é uma das personagens que adora se vestir de garoto, fazendo diversos cosplay do Prefeito (Tom Kenny). Em suas aventuras em roupas de mulher, o Professor era constantemente visto imitando a senhorita Sara Belo (Jennifer Hale), esposa do Prefeito e uma mulher que era apresentada como dona de uma beleza sem igual, embora sua personagem seja sempre mostrada em tela cortada na altura do pescoço, nunca tendo seu rosto revelado (só uma vez, brevemente) – apenas seu grande cabelão ruivo.

Na mesma linha estão os vilões. Um ícone de representatividade, quebra de padrões e crítica social é o vilão Ele (Tom Kane), uma versão animada de Lúcifer, o próprio Demônio, deus do inferno, o capiroto. O maior e mais poderosos vilão do desenho é um diabo crossdresser com uma voz andrógena, cujo figurino consiste em uma saia de balé, bota salto-alto até as coxas e maquiagem. A Femme Fatale (Grey Griffin), por sua vez, é uma personagem criada dentro do imaginário da “mulher dos sonhos”, com seus longos cabelos loiros lisos e seios fartos – mas, ainda sim, uma vilã, cuja arma toma o formato do símbolo do gênero feminino.

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Questionando o sistema patriarcal que molda os super-heróis, em uma cena ela conversa com as meninas declarando que as super-heroínas não recebem tanta visibilidade quanto as suas contra-partes masculinas, com Lindinha tentando contra-argumentar falando sobre a Supergirl e a Batgirl. A Femme Fatale, no entanto, problematiza a justificativa ainda mais: “Elas não passam de uma versão feminina dos super-heróis. Além de você mesma, quem você conhece que é uma super-heroína por esforço próprio?”.

Outro exemplo de progressividade em ideias é a história d’Os Meninos Desordeiros (Durão, Fortão e Explosão), uma versão masculina e maligna das Superpoderosas. No desenho, os meninos possuem dois pais, que são os vilões centrais da trama: o Macaco Louco (Roger Jackson) e o Ele – e nenhum personagem vê estranheza ou tem problema com isso.

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Todo o contexto criado pel’As Meninas Superpoderosas subverte e insere uma nova perspectiva social: os homens como o “sexo frágil”. As garotas descobrem durante a série que os homens são preocupados demais com sua masculinidade.  “Toda vez que a masculinidade deles é ameaçada, eles se encolhem em tamanho”, comenta Florzinha. Essa “masculinidade” é representada com os Meninos Desordeiros literalmente encolhendo toda vez que eles faziam algo afeminado.

No final do dia, toda a cidade (e principalmente os homens) precisavam e dependia das Meninas Superpoderosas para praticamente tudo. E é um “tudo” quase que literalmente, com inúmeras cenas em que as garotas são chamadas pelo Prefeito para abrir um pote de pickles, ou por outros personagens para realizar tarefas ridiculamente fáceis do cotidiano, como conseguir abrir a porta do banheiro, alcançar o papel higiênico ou o controle remoto.

 

Nova Versão

O reboot da série, criado também por Craig McCracken, mantem todo o conteúdo social-política da série, apenas embalada em uma nova abertura e visual gráfico. Empolgada, Daniela Vieira, diretora de Conteúdo do Cartoon Network, comenta: “O traço está mais leve e a animação mais moderna. As histórias estão superatuais e representam as meninas de hoje, que são conectadas, informadas e independentes.”

Em 2016, o episódio Chifre, doce chifre (S01E05) retrata a questão da identidade de gênero com um personagem novo: um pônei que sente ser, no fundo, um unicórnio. Durante a narrativa, Lindinha conhece Donny, um cavalo falante que usa um chifre de unicórnio falso na cabeça, relatando que embora não possa ter um chife “no meu coração eu sei que eu sou um lindo unicórnio!”. Para ser aquilo que sempre se identificou, o unicórnio recebe a ajuda de Lindinha.

O personagem passa, então, por um procedimento de “transmogrificador”, para que seu corpo possa corresponder a sua identidade. Mas as coisas não saem como o esperado e Donny se transforma em um monstro vermelho com dois chifres, ficando aterrorizado. Para tudo acabar bem, As Meninas Superpoderosas conseguem a ajuda do chamado Quartel General do Pelotão da Aliança da Coalizão dos Unicórnios e descobrem que Donny sempre foi um unicórnio por dentro e não importa qual seja a sua aparência exterior. O episódio termina com um coração animado com unicórnios e um arco-íris.

O episódio foi criticado por trazer um tema muito complexo para um público tão jovem, mas desde quando a série já não faz isso? Em entrevista ao jornal LA Times, o produtor executivo do programa, Nick Jennings, comenta:

Basicamente, quando tudo começa, ele é um pônei, mas quer ser um unicórnio. Ele tem que passar por uma transformação para se tornar um unicórnio, então passamos todo um episódio perguntando “O quê você é por dentro? O quê você é por fora? Como você se identifica? Como as pessoas veem você?”. Há muito subtexto nisso. Eu não acho que ninguém é jovem demais para começar a discutir essas questões, pensar sobre essas coisas.

Em 2017, foi a hora d’As Meninas Superpoderosas combaterem o preconceito. Durante As Meninas Superpoderosas: O Poder das Quatro (S02E24), um especial dividido em cinco episódio, conhecemos Estrelinha, a quarta Superpoderosa e a primeira integrante negra do grupo. No episódio, o Professor conta as meninas que elas têm uma irmã mais velha, criada com o Elemento W, mais instável e anterior ao Elemento X. A história explica que Utônio pensou ter perdido Estrelinha em uma explosão, mas na verdade ela estava invisível em outra dimensão e conseguiu sair dela neste episódio, quando Lindinha corria risco de vida. Assim, as garotas saem na aventura para reaver a irmã perdida.

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É incrível perceber como um desenho descontraído e infantil consegue atribuir em sua narrativa novas perspectivas de mundo que combatem tanto o patriarcado, quanto as questões de gênero e o preconceito. Sem contar como essas questões, desde 1998, não causaram terror nas crianças de todo o mundo, não fizeram ninguém “virar” LGBTQ+ e nem deu fim aos homens cis héteros, mas apenas teve o efeito contrário ao encantar com seus personagens e histórias tão únicos dentro do universo da animação. As Meninas Superpoderosas começaram no final da década de 1990 com uma narrativa simples: três meninas com superpoderes que combateriam o crime e as forças do mal, mas atravessaram os anos 2000 entrando pra história ao marcar uma geração e criticar padrões, preconceitos e estruturas sociais.


giovana silvestri

tem 18 anos. escorpiana viciada café e amante de gatos. estuda jornalismo na Unesp e escreve muito desde que se entende por gente. tem um jeito doce mas gosta de boteco e de cerveja de garrafa. escuta mais MPB e pagode do que a voz da razão.

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