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Mostra Curta-Circuito 2020 / “Espelho de Carne” (1985)

[tempo de leitura: 4 minutos]

Dentre diversas considerações que se pode fazer a respeito do cinema ocidental produzido nos anos 80 – por mais generalista que seja essa proposição – é justo apontar como o sexo se tornou um dos principais temas da época. Tal fenômeno, motivado pelo movimento de contracultura, pela atuação dos jovens transgressores do “amor livre” e pela globalização em processo de expansão, resultou em uma exploração do sexo como tema artístico, meio e fim de artes e mercados variados.

Espelho da Carne (1985), filme de Antonio Carlos da Fontoura é uma das obras brasileiras originadas deste contexto, mesmo que chegando as telas em uma etapa já tardia da sexualização cultural. Fontoura faz um filme que assimila muito bem a erotização da burguesia brasileira ao mesmo tempo em que retrata, por meio do sexo e das experimentações carnais, o estado social de um país que começava a se soltar das amarras da ditadura.

A trama – baseada na peça homônima de Vicente Pereira – se inicia quando com o executivo Álvaro Cardoso (Dennis Carvalho) compra em um leilão o espelho de cristal que decorava o quarto principal de um antigo bordel, o Palácio dos Prazeres de Madame Solange. Uma vez instalado no luxuoso apartamento de Álvaro e sua esposa Helena (Hileana Menezes), o espelho passa a emanar uma aura que instiga os desejos carnais mais intensos de todos personagens que passam próximo ao objeto, criando um frenesi erótico que rompe com todas as barreiras morais e psicológicas desses personagens.

Dessa premissa, Antonio Carlos da Fontoura desenvolve um filme denso e intrigante que se sustenta em um retrato crítico, caricato e erótico de uma burguesia brasileira embebida em seu próprio tesão. É interessante como o cineasta cria uma ambiguidade na dinâmica criada entre os personagens e o espelho – afinal, um objeto que mostra nosso próprio reflexo – é o catalisador do fervor carnal presente dentro do condomínio de luxo da Barra de Tijuca. Ao invés de as personagens adentrarem em uma espiral reflexiva ou em um processo de questionamento interior ao se observarem na peça ornamental, o que vemos é a liberação dos desejos, do tesão e de comportamentos moralmente conflitantes que são encobertos pela máscara social.

Assim, Fontoura faz um retrato simbólico do Brasil oitentista: um país que voltava a ter contato com a democracia e se livrava das amarras da Ditadura, mas que, ao mesmo tempo, tem tamanha discrepância social que em momento algum do filme sentimos o contexto sócio-cultural presente na rotina dos personagens endinheirados – justamente porque parece que a realidade do país não os acomete.

Com o desenrolar da trama, acompanhamos as experimentações das fantasias sexuais, dos ménages à trois, dos swings e outras experimentações que denotam um tom de comédia que é reforçado pelas atuações performáticas dos atores. Porém, Fontoura sabe o caminho que busca para seu filme e o percorre criando com delicadeza ao transformar atividades outrora corriqueiras e comuns ao ciclo de amizade em situações que emanam uma latente tensão sexual. Conversas triviais, encontros repentinos de vizinhos, confissões de amigos e saídas de amigas se tornam, instantaneamente, ocasiões de uma potencial erupção de libidinosa.

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cena do filme “Espelho de Carne”. Crédito: Reprodução;

Há um trabalho muito consciente na direção de fotografia e design de produção, que se complementam ao capturar o interior moderno, claro, iluminado e minimalista do apartamento do casal e tranforma-lo, gradativamente, em um ambiente mais degradado, preenchido por uma imagem granulada e por cores que confirmam a tomada daquele espaço por uma entidade.

Inclusive, Espelho de Carne evoca uma atmosfera de terror um pouco despretensiosa na relação do artefato com os efeitos sensoriais causados nas personagens. O cheiro de perfume que ele emana, as vozes que falam com Helena durante o sono, as luzes que brilham do objeto durante a noite, são todas sugestões de uma presença sobrenatural que é mais sugerida ao final do longa, em uma sequência que não garante certeza alguma, apenas que o grupo de amigos está bêbado em seu próprio êxtase.

Novamente, Fontoura tem bom controle de todos os elementos cinematográficos a sua mercê, combinando-os em prol de uma atmosfera unitária (a penumbra sexual que paira sobre o apartamento com o espelho) e que se desenvolve em situações de gêneros variados (momentos de comédia, de traços de um terror, de drama de costumes).

Sobretudo, Espelho de Carne tem como maior virtude o aspecto ambíguo e sinuoso de sua narrativa. Um drama que é sustentado na interessante dinâmica que Antonio Carlos de Fontoura propõe com o sexo como força motriz de uma desconstrução da classe média brasileira e, também, de um retrato erótico da cultural de nosso país na década de 80.

MOSTRA CURTA CIRCUITO 2020
O filme Espelho de Carne faz parte da programação da Mostra Curta Circuito 2020, realizada entre os dias 10 e 16 de outubro. Com o tema Fé, Magia e Mistério no Cinema Brasileiro, a curadoria selecionou sete filmes que ilustram o rico diálogo humano com o inexplicável e o sobrenatural. Os filmes estarão durante 24h pela plataforma de streaming da Looke.

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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