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O cinema gameficado de Christopher Nolan

[tempo de leitura: 3 minutos]

Em narrativa gameficada, “Tenet” concentra a visão de cinema e de mundo de Christopher Nolan em um longa pretensiosamente vazio.


Em dado momento de Tenet (2020), uma personagem profere a frase “Não tente entender, apena sinta” – uma sentença que resume este mais recente filme de Christopher Nolan e, também, toda a visão de cinema e de mundo do cineasta.

Essa proposta de abdicar da compreensão lógica, narrativa ou fílmica faz com que os filmes do diretor cresçam consideravelmente e, no caso de Tenet, Nolan até dá sinais de que está se libertando de certas amarras de seu próprio exercício fílmico, sem abraçar de vez a totalidade dessas decisões.

É curioso que Tenet tem uma aura autorreferente e consciente que torna a encenação faraônica, deixando toda a história pretensiosamente complicada e vazia um pouco mais interessante. A filmografia do cineasta, até então, foi marcada por obras que se apresentam com a pompa estética e o reboco visual característico de um autor que é sim eficiente e talentoso para encenar, mas que tem dificuldades em dar um verdadeiro sentido para os seus trabalhos.

Dessa vez, a tônica do “nolanismo” se faz presente em uma narrativa gamificada que evidencia, de forma paradoxal, as maiores virtudes e defeitos do longa. Como a própria frase citada na abertura deste texto diz, tentar explicar o enredo de Tenet seria um esforço em vão porque, ao final, o que importa não é a compreensão do que está na tela, mas sim na relação entre criador e criatura que o filme demarca.

Enquanto obra pensada isoladamente (um produto cinematográfico que tem sua própria lógica interna sustentada pelas escolhas estilísticas de seu autor máximo), o filme se desmantela na própria indefinição de possibilidades. Se visto por um olhar revisionista, Tenet cresce porque ganha traços de obra metalinguística madura e autoral, mas a recorrência dos maneirismos de seu cineasta já refuta essa segunda proposta.

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Robert Pattinson e John David Washington em “Tenet” (2020)

A narrativa, por sua vez, é gamificada desde a primeira cena em que acompanhamos o protagonista vivido por John David Washington, numa ininterrupta sequência de missões secretas e encontros desconexos com personagens desinteressantes e sem carisma que permeiam o enredo como figuras de uma cut-scene prévia ao próximo embate.

O grande problema – mais uma vez na filmografia de Nolan – é a excessiva necessidade de explicações para todos os conceitos supostamente sisudos e espertinhos que o cineasta propõe no enredo.

É a partir deste ponto que o paradoxo se manifesta, já que Tenet tem uma autoconsciência metalinguística verbalizada recorrentemente, desde as incessantes explicações técnicas sobre a questão temporal central a trama, até mesmo no personagem principal que verbaliza ser o protagonista da história com uma empáfia de esperteza para revelações futuras do roteiro.

Quando esses momentos de contextualização breves e mal construídos passam, ficamos com a fisicalidade dos confrontos secos e abstraídos de engajamento emocional que só servem para deixar ainda mais evidente a encenação meticulosa e retilínea que o cineasta se dispõe como virtude. A tela fica cheia de explosões, prédios sendo destruídos, balas voando para todos os lados e confrontos físicos encenados como um ballet contemporâneo temático de Call of Duty que é interpretado por um elenco talentoso – e esse talvez seja o maior elogio que consiga fazer a encenação de Nolan.

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John David Washington em cena “Tenet”

O que falta a Tenet é a coragem de abraçar verdadeiramente a noção de “não tentar entender e apenas sentir” que está posta na estrutura do longa, mas que não consegue se dissociar dos maneirismos criativos de seu realizador. Na insistência de teorizar, racionalizar e justificar os acontecimentos fantasiosos da narrativa, o longa perde seu potencial de engajar pela incapacidade de criar alguma relação envolvente ou minimamente sólida entre as personagens (a insinuação de um desejo sexual entre o protagonista de David Washington e a versão “Bond-girl” da personagem de Elizabeth Debicki é risível) ou mesmo a possibilidade de revisitação da mitologia dos filmes de ação, da masculinidade e dos princípios morais reforçados pelo embate bélico que o protagonista parece se importar – afinal, ele é escolhido para a missão central porque se manteve fiel a seus princípios como agente.

É até simbólico que Tenet, um filme que estrutura sua trama a partir de uma relação com o tempo como um palíndromo, seja tão representativo do cinema de um diretor que se esforça tanto para soar profundo, mas que, na verdade, se repete como uma palavra que é lida da mesma forma de traz para a frente.

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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