A horrível busca pela perfeição

A Horrível Busca Pela Perfeição

“The Perfection” é uma boa surpresa da Netflix, que se sobressai graças a personalidade de seu diretor e às boas atuações de suas atrizes.


Qual o limite para o sucesso? Existe alguma trajetória pacífica e indolor para a perfeição? Seriam justificáveis o sofrimento e a dor vivenciadas no caminho de uma conquista, caso ela se realize? Estas são as principais questões levantadas e exploradas como prerrogativas para a trama de The Perfection, novo terror de produção original da Netflix.

Tais indagações e a trama voltada para o universo da música clássica evocam quase que naturalmente o excelente Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014), de Damien Chazelle. Não só pelas similaridades temáticas e pela ambientação relacionada à música (apesar de Chazelle inserir a trama no universo do jazz), mas também pelo tom sóbrio e duro com que trabalham os assuntos propostos.

O que difere as duas obras em tom é que Chazelle opta por guiar Whiplash por uma abordagem voltada para o suspense psicológico, enquanto Richard Shepard, diretor e co-roteirista de The Perfection, escolhe por seguir o caminho do terror construído a partir da loucura e do exagero. Tal construção acontece a partir de um primeiro ato mais comedido, sugestivo e dedicado a inserir uma calmaria que já é apresentada ao espectador como uma enunciação de ruptura.

Acompanhamos Charlotte (Alisson Williams), uma ex-violoncelista talentosa que trocou a carreira para estar ao lado de sua mãe doente nos seus últimos anos de vida. Após o falecimento dela, a artista retorna ao meio da música ao reencontrar seus mestres do passado. Porém, agora existe uma nova pupilo de ouro sob a tutela dos profissionais, Elizabeth (Logan Browning), que vive os anos dourados do auge de sua carreira.

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Poster do filme

A premissa é bem apresentada e construída pelo roteiro, com traços de loucura evidentemente apresentados por flashes de memória da protagonista e também pela atmosfera tensa e apreensiva inicialmente mostrada com o retorno de Charlotte ao circuito musical. O começo de relacionamento entre a protagonista e a nova violoncelista são intrigantes e interessantes, insinuando uma possibilidade de confronto ao mesmo tempo em que emana de uma sensualidade e erotismo na relação de admiração e desejo entra as duas. Muito deste clima erótico é mérito da química entre Williams e Browning, que não só funcionam enquanto par, mas também seguram atuações que dizem muito no olhar e nos pequenos gestos, sem as cafonices e clichês de sinais de sedução comumente utilizados em filmes.

O que acaba tirando de The Perfection seu potencial como um filme de terror que edificasse um discurso mais pungente e relevante é o didatismo excessivo do roteiro, assinado por Shepard, Eric C. Charmelo e Nicole Sneyder. Ao optar explicar as resoluções e reviravoltas existentes, o texto do longa se autossabota, desarmando as insinuações tão interessantes do primeiro ato e esvaziando o desconforto criado pelo diretor. Assim, o discurso voltado para falar de uma possível relação de psicopatia e sadismo existente na vida de músicos tão devotos, na entrega obsessiva para a carreira e dos sofrimentos vividos ao longo dos anos, se torna uma contextualização para uma história de vingança mal construída.

Contudo, Shepard constrói uma ambientação de mistério e erotismo satisfatórias, capazes de manipular as percepções do espectador. Muito desse trabalho se deve também as atrizes. Alisson Williams evoca um pouco de seu trabalho em Corra! – apesar de em The Perfection dar vida a uma personagem totalmente diferente da supremacista branca que viveu no filme de Jordan Peele –, mas ainda assim entrega uma sensação de serenidade que escondem um sentimento perturbador. Contracenando com a protagonista, Logan Browning assegura a sedução e as emoções mais vivas da dupla, flertando com o exagero da atuação ao surtar na medida certa em dado momento da trama.

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Para além de qualquer comparação com Corra!, pela evidente tentativa de construção de um discurso por baixo da narrativa de terror, ou então com Whiplash, pelas semelhanças temáticas, The Perfection é uma boa surpresa da Netflix, que se sobressai das demais produções da gigante do streaming graças a personalidade de seu diretor e as boas atuações de suas atrizes.

joão dicker

com 23 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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