A riqueza de Aranhaverso

A Riqueza De Aranhaverso
[tempo de leitura: 6 minutos]

“Homem-Aranha no Aranhaverso” insere o Homem-Aranha em uma novo universo, que toma decisões certeiras para entregar um filme único e visualmente polido.


Desde que a Marvel iniciou a construção de seu universo compartilhado no cinema, surgiram as dúvidas questionando a possibilidade de a empresa adaptar, para as telonas, os arcos mirabolantes e diversas linhas temporais e universos paralelos existentes nos quadrinhos. Até dado momento, com os 10 anos de MCU, a Casa das Ideias ainda não se aventurou em abrir o leque neste sentido, optando por construir uma malha de filmes que se completam, característica que também é marca de sua linha editoral nas HQs. Por outro lado, depois de diversas adaptações e reboots do Homem-Aranha no cinema, promovidas pela Sony, estúdio que detêm os direitos autorais do personagem nas telonas, o herói finalmente ganhou uma versão em desenho animado e que, curiosamente, optou por abordar o conceito de realidades paralelas da Marvel.

É dessa premissa que Homem-Aranha no Aranhaverso (2018) embasa sua narrativa. De cara, o roteiro assinado por Phil Lord (Uma Aventura LEGO) e Rodney Rothman (roteirista de Anjos da Lei 2) nos introduz brevemente ao já conhecido Peter Parker, o que inclusive é motivo de piadas bem humoradas que referenciam cenas marcantes das adaptações prévias do herói, para em seguida passar o bastão para o verdadeiro protagonista da história: Miles Morales (Shameik Moore). Apesar de ter feito sucesso nos anos recentes nos quadrinhos, quando se consagrou no Universo Ultimate e foi incorporado ao selo regular da editora, o longa apresenta Miles para uma audiência maior.

O personagem é um jovem birracial, filho de um pai negro com uma mãe hispânica, morador do bairro nova-iorquino Brooklyn e que se sente deslocado em sua nova escola para jovens prodígios. Após ser picado por uma aranha e a partir de um encontro ao acaso, em que o jovem se depara com o Peter Parker de sua realidade em conflito com Wilson Fisk/Rei do Crime (Liev Schreiber), Miles passa a contar com uma grande responsabilidade: aprender a controlar seus novos poderes como Homem-Aranha para impedir que os múltiplos universos paralelos conectados pelo vilão sejam destruídos. E é ai que residem os dois maiores acertos de Aranhaverso: o esmero com que constroem seu protagonista e com que tratam o conceito de “multiversos“, não só na trama, mas também esteticamente.

No que diz respeito ao texto, Homem-Aranha no Aranhaverso acerta ao renovar as possibilidades que envolvem a figura do herói já tão conhecido. Além de todos os easter eggs, menções e piadas que remetem as produções anteriores, o texto é muito consciente de como trazer um frescor a uma nova história e um novo protagonista, inseridos em um contexto totalmente oposto ao habitual de Parker – e, no caso de Aranhaverso, ainda mais interessante.

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Acompanhando os hobbies, gostos, anseios, rotina e relações de Miles, vamos a cada cena conhecendo profundamente o novo responsável por carregar o símbolo do Homem-Aranha – pelo menos no que cabe ao universo das animações – e, consequentemente (ou naturalmente), sendo apresentados aos novos dilemas que vão envolver a jornada de crescimento, amadurecimento e aprendizado de como ser o herói que a sua realidade precisa. É uma construção de personagem muito bem feita, com Morales trazendo toda a carga de seu contexto e essência, que também é transposta para o visual: vemos um Brooklyn multicultural, multirracial e plural, colorido e estilizado de uma forma única, com um riquíssimo detalhamento técnico de grafites e intervenções artísticas. O texto ainda encontra espaço para fazer uma sútil e engraçada piada – que brinca com uma marca de cafeteria meio hipster – capaz de contextualizar toda a construção de um bairro gentrificado e diverso.

Falando em diversidade, quando o filme coloca Miles de frente para o Peter Parker de outra dimensão (vivido por Jake Johnson), a trama engata em uma aventura crescente que, em momento algum, nos permite tirar os olhos da tela, seja pela jornada tão bem construída e envolvida devida ao personagem ou pelo impressionante trabalho estético e de design. O que os diretores Bob Persichetti, Peter Rmasey e Rodney Rothman entregam em Homem-Aranha no Aranhaverso é de uma riqueza de detalhes, texturas quase que palpáveis, cores vibrantes, formas e movimentos nunca antes vista em uma animação. Esse trabalho é ainda mais esplendoroso quando somos apresentados as outras versões paralelas de aranhas-poderosos: Gwen-Aranha/Gwen Stacey (Hailee Steinfeld), Homem-Aranha Noir (Nicolas Cage), Porco-Aranha (John Mulaney) e Peni Parker, a versão em anime do herói, transformada em uma garota (vivida por Kimiko Gleen) e um robô.

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O que destaca aos olhos é a maneira orgânica com que cada uma das personagens, em seus próprios designs, traços e cores particulares, conversam entre si e tornam toda a experiência de assistir a película ainda mais especial. O Aranha-Noir tem soluções visuais (e também ótimas piadas) que brincam com as convenções do gênero; Peni Parker é uma homenagem digna e bem feita aos animes japoneses, tanto em traço quanto no comportamento; e o Porco-Aranha traz um desenho bidimensional cartunesco que lembra desenhos consagrados, como o próprio Looney Tunes. Toda essa beleza vale também para as sequências de ação, sempre coloridas, envolventes e claras, e para as formas como o filme utiliza de convenções de linguagem dos quadrinhos com naturalidade, explorando de caixas de pensamentos e balões de sons, o que dá ainda mais um gostinho especial ao filme enquanto uma adaptação de uma mídia para outra. Todas essas qualidades, juntamente da clareza com que os combates são dirigidos, permitem que o espectador não só compreenda o que acontece, mas aprecie o deleite visual que o filme proporciona. É uma verdadeira obra prima pop e psicodélica, apresentada como uma animação que tem uma narrativa com um ritmo fluido, um humor muito divertido e inserções de drama que equilibram bem toda a obra.

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Outro grande mérito são as atuações: sim, apesar de se tratar de uma animação, o trabalho que cada um dos atores selecionados para dublarem seus personagens é impecável, merecendo ser exaltados não como um mero empréstimo da voz, mas uma verdadeira compreensão de como dar vida e compor a existência de cada um deles. O principal destaque é a maneira irreverente, largada e quase que descrente com que Jake Johnson faz o seu Peter Parker, que tem em seu visual acima do peso e a barba de fim de tarde mal feita, uma ótima colocação de que ele está cansado de ser o Homem-Aranha. Hailee Steinfeld traz muito carisma, segurança e um senso autoconfiança para a Gwen-Aranha/Gwen Stacey, que encerra sua passagem no filme como uma excelente personagem para uma possível aventura solo. John Mulaney e Nicolas Cage estão ambos impagáveis em seus papéis, com suas vozes combinando perfeitamente com os estilos adotados pela estética dos personagens: o primeiro dá um tom lúdico e sarcástico ao Porco-Aranha, enquanto o segundo traz uma carga satírica para a construção do Aranha-Noir. Fechando os heróis, Kimiko Gleen assegura uma doçura, sensibilidade e ternura para Peni Parker, passando todo o afeto existente entre a garota e o robô que pilota. Saindo um pouco do espectro dos heróis, Mahershala Ali traz profundidade, imponência e presença de tela para Aron Davis, o tio descolado de Miles, que funciona como um importante personagem para o crescimento pessoal do protagonista, além de contribuir para a conexão do público com o garoto.

O filme ganha ainda mais criatividade quando adicionado os seus inúmeros easter eggs. Estes, por sua vez, vão desde a aparição de Stan Lee e homenagens/piadas autorreferentes com cenas e momentos marcantes do herói nos quadrinhos e nos filmes live action, até a lista telefônica com nomes de diversos artistas envolvidos na criação do Homem-Aranha, de Miles Morales e do conceito do Aranhaverso nos quadrinhos – dentre várias outras brincadeiras colocadas para os fãs perceberam.

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Homem-Aranha no Aranhaverso é a incrível refrescante história de um dos mais queridos e famosos heróis de todos. Com um trabalho técnico irrefutável e um protagonista que ganhará um espaço no coração de qualquer fã de super-heróis, somos convidados a presenciar a riqueza de criatividade e sensações que o filme proporciona. E se existem muitos Aranhas pelo universos, que eles continuem ganhando as telonas, sejam eles Peter Parker, Miles Morales, Gwen Stacey, ou qualquer um digno de vestir a roupa do eterno Amigão da Vizinhança.


OSCAR 2019

Indicações: 1.

  • Melhor Animação

João Dicker

joão dicker

com 23 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas. é o Editor de Conteúdo da ZINT, um apaixonado por Cinema, Futebol e Gastronomia. trabalha como assessor de imprensa na A Dupla Informação, especializada em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade.

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