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O Engraçado Guia De Desconstruir Preconceitos

O engraçado guia de desconstruir preconceitos

  • Filmes

“Green Book: O Guia” não inova, mas sustenta-se na incrível e impecável atuação de seus dois protagonistas, em uma história sobre amizade e racismo.


Green Book: O Guia (2018) é, provavelmente, a produção que menos carrega um traço autoral muito demarcado. Por outro lado, é interessante ver como o longa é o que mais se distancia dos trabalhos anteriores de seu diretor, Peter Farrelly, responsável por comandar comédias escrachadas como Débi & Loide: Dois Idiotas em Apuros (1994), Quem Vai Ficar com Mary? (1998) e Os Três Patetas (2012). Continuando na comédia, claramente seu estilo preferido, Green Book: O Guia se destaca pela forma interessante com que utilizada do humor para construir uma jornada pessoal de aceitação, de seus próprios valores, defeitos e também dos outros ao seu redor.

A trama apresenta a história real da viagem realizada por Don Shirley (Mahershala Ali), um consagrado músico erudito, e seu motorista Tony Vallelonga (Viggo Mortensen), pelo chamado deep south, os estados mais ao sul dos EUA, durante os anos de segregação racial, em que a região era justamente o epicentro do contexto. O roteiro co-escrito pelo diretor junto de Brian Hayes Currie e Nick Vallelonga (filho de Tony na vida real), combina convenções de road movies e buddy movies para entregar uma narrativa convencional e um pouco batida, mas que não se torna boba ou esquecível graças a forma perspicaz com que trabalha a desconstrução do racismo e a descoberta de si mesmo e do outro, dada a partir da relação de amizade criada entre os protagonistas. Mesmo que um pouco clichê, é interessante acompanhar como ao longo das oito semanas de turnê os dois personagens vão se aproximando, criando uma relação de confiança e quebrando barreiras culturais, étnicas, sociais e ideológicas que os separam em mundos muito opostos, principalmente graças as ótimas atuações de ambos atores.

Viggo Mortensen e Mahershala Ali

Enquanto o músico vai aprendendo com a simplicidade e com o comportamento de brucutu malandro de Tony, o motorista italo-americano se torna uma pessoa mais sensível e empática ao presenciar as inúmeras situações nojentas de racismo escancarado e velado que o artista passa na viagem. Se Shirley é um artista cultuado e aplaudido quando está no palco, fora dele é só mais um dos milhares de afro-americanos que sofreram com as leis e costumes segregacionistas vigentes no sul dos EUA na época – e essa distinção de tratamento em que os brancos dão ao músico, separando o “artista negro” do “cidadão negro”, escancara com perfeição o quão naturalizado e enraizado era (e mesmo que com algum progresso, ainda seja) o preconceito no mundo.

Desta jornada estrada a fora, ambos os personagens tem seus arcos desenvolvidos, com os atores brilhando de forma estupenda, seja na ótima e bem humorada química que criam, ou nas performances individuais. Viggo Mortensen dá doçura e compaixão para toda a ignorância e malandragem de Tony “Lip” Vallelonga, trazendo nuances de empatia e sensibilidade na medida em que o brucutu vai aprendendo com seu chefe e colega de viagem. Já Mahershala Ali entrega, mais uma vez, uma interpretação intensa e profundamente carregada de emoções. A presença de tela de Ali é magnética, seja na caracterização de um Don Sherley arrogante, erudito e virtuoso, ou na desconstrução do personagem, evidenciando os efeitos do preconceito sofrido pelo músico negro inserido em um ambiente majoritariamente branco (tanto no exercer profissional quanto no consumo de sua arte), mas também da própria repressão que o artista exercer em si mesmo, se mantendo em uma claustrofobia sentimental angustiante. A cena da chuva em que ele finalmente exala estes sentimentos é bonita e arrebatadora, impactando pela facilidade com que o ator traz uma fragilidade profunda ao pianista, desnudando seus anseios e sentimentos mais íntimos no olhar de solidão e desespero com que encara seu motorista. Outro ponto interessante da atuação de Mahershala é a forma inteligente e sensível com que o ele muda gradativamente alguns trejeitos corriqueiros e repetidos de seu personagem – note que a cada apresentação o músico não só toca seu piano com mais raiva e peso sobre seus ombros e dedos (o que torna ainda mais especial a sequência de apresentação no bar para negros), além de se dirigir a plateia sem os sorrisos de satisfação.

No que diz respeito a direção, Peter Farrelly parece ter se preocupado mais em deixar o ótimo material humano de seu longa trabalhar, do que tentar ousar em planos e enquadramentos. Sem uma proposta estética mais arrojada, o diretor acaba tornando a película em um “filme de ator”, aproveitando de duas performances impecáveis e que asseguraram virtudes capazes de sobressair ao roteiro genérico para transformar Green Book: O Guia em uma bonita e envolvente história de descoberta e crescimento pessoal. Se Tony e Don precisam acompanhar um guia de viagem para negros que pretendem passar pelo sul dos EUA, o filme se assume como um bom guia de como aprender a ter empatia ao próximo, a desconstruir seus preconceitos e, não só a respeitar as diferenças, mas também se conectar por meio delas.


OSCAR 2019

Indicações: 5.

  • Melhor Filme
  • Melhor Ator: Viggo Mortensen
  • Melhor Ator CoadjuvanteMahershala Ali
  • Melhor Roteiro OriginalNick Vallelonga, Peter Farrelly
  • Melhor MontagemPatrick J. Don Vito

joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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