Um sensual e inquietante jogo de poder

Um Sensual E Inquietante Jogo De Poder

“A Favorita” é repleto de comicidade, em um filme cínico e histórico que centraliza três poderosas mulheres como as manipuladoras de um importante jogo de poder.


Yorgos Lanthimos têm demonstrado em sua filmografia um cinema que brinca com o desconforto como meio, mas não como fim. Por mais incômodos e inquietantes que Dente Canino (2009), O Lagosta (2015) e O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017) sejam, o cineasta sempre demonstra seu olhar autoral ao explorar de tensões e sentimentos deturpados para trabalhar seus discursos e personagens. Em A Favorita, seu novo longa, o diretor entrega seu filme mais bem humorado até aqui, carregado de um cinismo latente e de uma tensão construída a partir de um interessante jogo de antecipação entre as personagens.

A cena de abertura do longa já dita a proposta da produção com sua inspiração histórica. Por mais que retrate parte do governo da Ana da Grã-Bretanha, que governou o país em um mandato conturbado entre os anos de 1702 e 1714, a película toma liberdades narrativas visíveis com relação a fidelidade histórica, fato que não diminui o filme de forma alguma. Assim, somos apresentados politicagem vivida pela Corte Inglesa, principalmente no que diz respeito as decisões tomadas pela rainha Anne (Olivia Colman), sempre aconselhada por sua fidelíssima Sarah Churchill, a Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz), que é quem verdadeiramente consegue dar algum rumo ao país por meio dos direcionamentos que dá à rainha. Com a chegada da jovem e sedutora Abigail Hill (Emma Stone), a rotina vivida na Corte se transforma completamente, resultando em um jogo de poder, sedução e favoritismo entre as duas mulheres para com a rainha Anne.

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É justamente da dinâmica entre as três mulheres que saem as maiores virtudes do longa. O roteiro de Deborah Davis e Tony McNamara dá vida a um trio de mulheres fortes e imperfeitas, cada uma a sua maneira. Cada uma delas passam por arcos dramáticos interessante ao longo da projeção, mostrando diversas nuances de suas personalidades e dominando um ambiente frequentado por homens da realeza, tão tapados quanto cegos ao controle que sofrem destas inteligentes mulheres. Olivia Colman faz uma rainha Anne frágil, insegura e aparentemente incapaz, que com o desenrolar da trama revela uma dureza e um comportamento explosivo e histérico que ao invés de transmitirem fragilidade, na verdade esconde o sofrimento de uma pessoa que aguenta não só as dores físicas, mas as críticas e questionamentos de todo um país.

Rachel Weisz se mantém firme, forte e sólida como uma pedra durante toda a projeção, ao mesmo tempo em que encontra espaços breves, sutis e humanos para transmitir o amor e o carinho que Lady Sarah tem pela Rainha. Ao passo que Abigail entra na história, torna-se um deleite observar Emma Stone crescer com a personagem, conquistando a todos com seu carisma, sua forma dócil (e porque não oposta a de Sarah) de lidar com a rainha e com as questões inerentes à política.

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Rachel Weisz e Emma Stone

Mesmo que Lanthimos não assine o roteiro, A Favorita ainda carrega muito de sua essência inquietante. Por mais que o diretor utilize muito de contra-plongées, o artifício tem o seu sentido semântico ao colocar a personagem enquadrada em uma posição de poder, sendo vista de baixo para cima e engrandecendo-a. A opção, mesmo que repetitiva, é consoante com toda a proposta do longa, que a cada sequência traz um novo acontecimento para o jogo de xadrez construído entre as personagens. Há, também, um interessante uso da câmera fisheye pelo diretor de fotografia Robbie Ryan, que alonga ainda mais os compridos corredores do castelo e cria um senso de desconexão da realidade, agregando a narrativa e seu senso de absurdo. Lanthimos traz uma proposta arrojada de movimentos de câmera e enquadramentos, em um claro objetivo de construir um filme que se não é sua obra mais autoral como um todo, é com certeza um trabalho impecável de direção.

Não menos impressionante é toda a parte técnica do longa. O design de produção, cenários, figurinos e maquiagem recriam o século XVIII e toda a pompa existente na realeza britânica com esmero, sendo elevados a níveis pitoresco que fizeram a película ser comparada à Barry Lyndon (1975), principalmente nas sequências das festas nababescas e dos jantares extravagantes da realeza, sempre filmadas por uma bonita luz de velas (mais um mérito de Robbie Ryan). A trilha sonora se adequa a cada novo capítulo do longa, se repetindo por vezes e gerando uma inquietação avassaladora, quase que enunciando uma nova ação de Sarah ou Abigail.

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Com um desfecho carregado interpretação, A Favorita se assume como um drama histórico que trata de ambição, amor e de jogos de poder, sejam eles nas relações políticas ou nos sentimentos mais pessoais. Yorgos Lanthimos entrega um trabalho que se destaca pela forma dura, crua, cínica, cômica e sensual com que retrata os desejos mais íntimos e primitivos da natureza humana. Cada uma destas sensações vem à tona com as impressionantes atuações do trio de protagonistas, que tornam muito difícil escolher verdadeiramente quem é a favorita do espectador.

 


OSCAR 2019

Indicações: 10.

  • Melhor Filme
  • Melhor Atriz: Olivia Colman
  • Melhor Atriz CoajuvanteEmma Stone
  • Melhor Atriz CoajuvanteRachel Weisz
  • Melhor DiretorYorgos Mavropsaridis
  • Melhor Roteiro OriginalDeborah Davis, Tony McNamara
  • Melhor FotografiaRobbie Ryan
  • Melhor FigurinoSandy Powell
  • Melhor MontagemYorgos Mavropsaridis
  • Melhor Direção de ArteAlice Felton, Fiona Crombie

joão dicker

com 23 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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