O lado industrial da moda

O Lado Industrial Da Moda
[tempo de leitura: 7 minutos]

“Making the Cut” tenta inovar no formato estabelecido pelo trabalho de seus próprios criadores, mas parece nem mesmo entender a sua proposta.


DA corrida para inovação nem sempre é uma situação de vitória. As vezes, você pode se deparar com algo como Making the Cut, reality de competição de moda criado para o Prime Video, serviço de streaming da gigante Amazon.

É engraçado pensar que este é o programa desenvolvido por Heidi Klum e Tim Gunn, que saíram do bem estabelecido Project Runway, reality criado por eles, para poderem entregar esta… peculiaridade. E devido ao peso do nome “Amazon” ao lado deles, eles chamaram nomes de peso para juntar-se à Heidi no banco de jurados. Assim, temos a titã das passarelas Naomi Campbell, a socialite, atriz e empresária Nicole Richie, a supermodelo e influencer Chiara Ferragni, o estilista Joseph Altuzarra e a editora-chefe da Vogue França, Carine Roitfeld.

Making the Cut, que viaja por três capitais da moda (Paris, Tóquio e Nova Iorque), se constrói a partir da ideia de um grupo de estilistas já muito bem estabelecidos, cuja carreira apenas ainda não foi capaz de se consagrar globalmente. Assim, vemos designers com 10, 20, 30 anos de carreira, batalhando por um prêmio de 1 milhão de dólares e uma mentoria com a Amazon, que ainda fará do nome deles uma marca global.

A verdade é que Making the Cut é extremamente confuso e, ao longo dos 10 episódios que compõe a primeira temporada, vemos que por muitas vezes nem mesmo Heidi e Tim entendem o conceito criado por eles. O que acaba levando a modelo e apresentadora e seu painel de talentosos jurados muitas vezes tomarem decisões que parecem não fazer nenhum sentido.

 

O Prêmio

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Heidi Klum e Tim Gunn

O reality já começa se destacando por um ponto: o prêmio é, possivelmente, o maior já dado por um programa do ramo. Nos Estados Unidos, prêmios de um milhão são raros, e ganhadores de reality de competição costumam levar para casa apenas uma fração disso – Project Runway, que está há 18 temporadas no ar, “só” dá 250 milhões de dólares. Porém, ao mesmo tempo em que isso serve como um incentivador ainda maior, esta quantia também já marca um dos problemas com a competição.

Já é perfeitamente compreensível que US$ 1 milhão seja muito dinheiro, mas Heidi e Tim simplesmente não conseguem esquecer isso, fazendo com que este detalhe se torne o detalhe mais importante de todo o Making the Cut. Ficar o tempo inteiro lembrando do prêmio e usando a quantia como instrumento de feedback para todas as críticas torna-se cansativo e desgastante muito rápido, ainda mais quando somos lembrados disso pelo menos 20x ao longo de um único episódio.

Muitas vezes, este detalhe acaba causando que os competidores fiquem mais focados nisso do que em qualquer outra coisa, como o processo de aprendizado que isso pode gerar pra eles e até mesmo a visibilidade que eles estão tendo ao estarem ali. E não só isso, mas ao final de cada episódio, o melhor look ganha a oportunidade de ser vendido globalmente através da loja virtual da Amazon! Então mesmo que apenas um deles vá ganhar o programa, ainda sim todos tem a oportunidade única de terem suas criações sendo vendidas para todo o mundo.

 

Competição de Design ou de Costura?

Ainda que eu, particularmente, não goste de colocar frente a frente dois programas que são claramente diferentes, é impossível não comparar Making the Cut com Project Runway. Primeiro porque seus criadores são responsáveis pelos dois, e segundo porque Heidi e Tim fizeram do PR um programa extremamente influente e de peso para o mundo da moda. E ao tentar repetir isso, eles acabam se perdendo.

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Os jurados, da esquerda pra direita: Naomi, Nicole, Chiara, Joseph e Heidi

Se você não assiste ao Project Runway, vou resumir o ponto a ser feito: os competidores do programa sempre foram estilistas em ascensão ou iniciantes, com eles competindo em tarefas que demandam de suas habilidades com costura – são eles os responsáveis por cada linha e fio da roupa. Em Making the Cut, a produção exclui parcialmente essa necessidade.

O maior problema é que isso só faz sentido em uma perspectiva: os competidores do programa são estilistas já consagrados, com ateliês e costureiras profissionais que são responsáveis pela confecção da roupa. Assim, uma boa parcela deles nem mesmo sabe usar a máquina de costura ou fazer moldes. Mas tudo bem, certo? Errado.

Apesar de Heidi constantemente falar que “este não é um reality de costura”, ela e os jurados nunca deixam para lá a eficiência e capacidade de costura dos competidores, constantemente encontrando problemas e até mesmo eliminando participantes por conta disso.

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Os competidores

 

A Sombra da Desumanidade

Paralelamente a questão da costura, entramos em um outro problema: a lembrança do trabalho-escravo que acontece em toda a indústria da moda. Ao falar para seus participantes que eles não precisam saber costurar, Making the Cut adiciona costureiras profissionais para preencher essa lacuna. Acontece que, a não ser na reta final, o público nunca vê essas costureiras.

No fim do dia de trabalho, os competidores guardam suas roupas junto com instruções detalhadas. A equipe do programa vem, entrega essas roupas para as costureiras e elas então trabalham noite afora até o dia seguinte, quando os designers voltam para mais um dia de trabalho e precisam de suas peças o mais finalizadas possível. Eles ficam apenas responsáveis por costuras elementares e pequenos ajustes de última hora.

 

Feedback Invisível

Para piorar todo o novo formato, o telespectador não pode ver a deliberação dos jurados. A edição apenas se limita a mostrar as rápidas reações dos jurados durante a passarela e algumas conversas individuais, cortando para o momento de feedback e eliminação.

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O momento da deliberação e eliminação

Nesse momento, é o competidor que fala. Ele precisa defender sua visão, em uma conversa que pode “mudar tudo”. O problema é que nós não sabemos qual é o tudo, uma vez que não temos acesso ao que os jurados realmente acham sobre cada participante chamado à frente. Assim, não sabemos a efetividade do discurso de defesa.

Ao fim, Heidi se limita a perguntar aos jurados se eles mudaram ou não de opinião. E spoiler: 99% das vezes eles dizem um sonoro e monossilábico “Não”. E assim, Heidi avisa ao jogador: “desculpa, mas você não sobreviveu ao corte“.

 

Industrialização e Perda de Identidade

Por ser uma reality focado na construção da “próxima marca global”, Making the Cut mostra um lado da indústria da moda que vem sendo debatido e desconstruído muito nos últimos anos: o consumismo e desperdício. Diferente das temporadas recentes de Project Runway e o ano de estreia de Next In Fashion, o programa da Amazon mostra-se uma onda contra este movimento.

Heidi e seus jurados não parecem muito preocupados com essas questões e demonstram isso de forma indireta, quando, por exemplo, discutem com os competidores se eles estão dispostos a perder parte de suas identidades afim de atender um mercado global. Se eles estariam dispostos a produzir roupas em larga escala, invés de algo mais sob-demanda. Isso acaba chegando no ponto do consumismo, na criação industrial de roupas e acessórios, que entra em embate até mesmo com estes designers, que até então atuavam com demandas menores e linhas mais exclusivas.

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A cada episódio os designers enfrentam um desafio temático diferente

O único momento em que vemos o programa tratar do problema do desperdício é em um desafio “improvisado”, em que os participantes precisam criar peças com os tecidos usados até então. Mas por ser supostamente “improvisado”, a ideia de “zero lixo” vem apenas como uma feliz coinscidência.

 

Há Luz no Fim do Túnel?

Making the Cut não consegue ser um destaque tão grande quanto tenta ser, mesmo com a dupla Heidi e Tim, ou titãs como Naomi. Até mesmo a tentativa de “humanizar” a dupla de criadores, com curtos VTs desconstraídos de passeios e jogos na cidade, não funciona direito e fica maio dessonante de toda a edição.

O que pode ser considerado um positivo é ver um pouco da cultura das três cidades que o reality usa de pano de fundos, e ver como os designers incorporam isso aos seus designs. Ao mesmo tempo, alguns desses competidores se mostram interessantes e podemos ir construindo certos laços de simpatia e amizade com eles – dois ou três em especial, mas principalmente o carismático Sander Bos –, ainda que muitas vezes vemos roupas que trazem apatia e uma simplicidade exagerada.

Também, particularmente sou um fã do nome do programa. Making the Cut é um título muito inteligente, por brincar com seus significado. Literalmente, a frase significa Fazendo o Corte. Assim, ela se diverte com a ideia de cortar e costurar roupas, com a ideia do “conseguir fazer parte do corte de selecionados” e até mesmo com “sobreviver aos cortes e vencer o programa”. Mas obviamente só isso não é o suficiente para salvar o show.

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É realmente triste ver que, ao final, Making the Cut está mais interessada na sua megalomaníaca grandiosidade do que em qualquer outra coisa. A parceria com a Amazon, as viagens ao redor do mundo, os titãs da moda, a marca global, o prêmio de um milhão. Tudo isso, adicionado à mesma dose, incapacita o programa de estabelecer um vínculo real e humano com o telespectador e acaba tomando decisões precipitadas e incoerentes – como a primeira vitória da franquia. Não foi dessa vez. Vocês não sobreviveram ao corte.

Vics

vics

tem 24 anos e é formado em Jornalismo pela PUC Minas, com um MBA em Comunicação e Marketing. gerencia a revista e, ainda, escreve matérias sempre que tem uma boa pauta.

ao todo, já assistiu um total de 18 meses em Séries, cinco meses em Filmes e em uma década foram cerca de 25 meses em reprodução de Música.

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