O entretenimento polarizado dominando as redes e a TV

O Entretenimento Polarizado Dominando As Redes E A TV
[tempo de leitura: 9 minutos]

O “BBB 20” fez história ao se reinventar, não só voltando a ter prestígio na grade da TV Globo, mas alcançando o status de fenômeno social.


SSe pudesse escolher / Entre o bem e o mal / Ser ou não ser… / Se querer é poder / Tem que ir até o final / Se quiser vencer…“. Para muitos, quando começava essa música na televisão era sinal de trocar de canal ou começar a julgar, com um discurso elitista e “intelectualizado”, as pessoas que assistem ao Big Brother Brasil. Porém o jogo realmente virou em 2020. Após uma edição fraca e com uma campeã muito questionada, sobretudo nas redes sociais, no ano passado, o reality show da Rede Globo parecia mostrar sinais de um formato esgotado, que em quase vinte anos tinha acabado com os elementos e fórmulas de sucesso capazes de sustentar o programa.

Um ano depois, vemos uma edição, sim, histórica do reality show, que se reinventou e alcançou públicos que antes nem mesmo ligavam ou criticavam fortemente o programa. Com números que comprovam o seu sucesso, seja em audiência, quantidade de votos, engajamento nas mídias sociais ou faturamento comercial, o fato é que o BBB 20 renovou a programação da emissora, além de apontar para o fortalecimento e uma renovação do formato reality no Brasil.

 

20ª EDIÇÃO

Com a programação limitada, sem novelas, futebol, programas de auditório para exibir e reprises em diversos horários, devido a pandemia do COVID-19, a Globo viu no Big Brother Brasil sua principal aposta de entretenimento no contexto da quarentena, questão comprovada pelo adiamento da final em quatro dias, oferecendo ao telespectador alguns momentos a mais para espiar a casa que, sem dúvida, foi mesmo a mais vigiada do país nesse momento.

MARCO
O resultado se reflete na audiência, que teve média de 24 pontos no Painel Nacional de Televisão, quatro a mais que o BBB 19 (cada ponto do Kantar Ibope equivale a 260.558 domicílios).

Fato é que vários pontos explicam o sucesso do reality neste ano. Em tempos de isolamento, a casa do BBB 20 parecia ser a única onde a sociabilidade e o convívio entre as pessoas parecia ainda o mesmo, com abraços e festas a todo vapor. Com muita gente em casa e carente por aproximação, a dinâmica do programa mostrou-se adequada para suprir algumas necessidades do espectador e também usuário que, por vezes, tomou as redes para defender ou expor determinado participante.

Neste ano, a produção assumiu o risco de colocar pessoas famosas também na disputa do prêmio. A casa, que começou com um muro que dividia nove personalidades já conhecidas do público, os chamados “convidados”, e os anônimos, logo se juntou e revelou a troca de experiências entre quem já conhece a dinâmica de ser uma figura pública e quem estava experimentado tal posição a primeira vez.

Apesar de esse cenário parecer uma vantagem ao primeiro grupo, a mistura logo mostrou-se satisfatória e entregou ao público momentos marcantes, engraçados, emocionantes e até, disputas declaradas, como o desentendimento de Bianca Andrade (Boca Rosa) e Rafa Kalimann, que terminou com um “eu não consigo nem conviver muito com você” declarado por Bianca.

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Felipe Prior, Bianca “Boca Rosa” e Flayslane

A disputa contou em parte do tempo com o domínio maior do conjunto liderado pela participante Marcela, considerada referência na casa até então, principalmente para as mulheres, e pelo estrategista Pyong. A “Comunidade Hippie“, como era chamado o grupo, norteava as tomadas de decisões e caminhos do jogo até que vários acontecimentos foram apontando para a necessária separação.

Além disso, o embate entre Manu Gavassi e Felipe Prior rendeu o recorde histórico de votos – mais de um bilhão –, passando a mobilizar celebridades como Bruna Marquezine, Neymar e Gabigol que, através das redes sociais, mostravam suas preferências e movimentavam as torcidas.

 

BIG SISTER

Certamente a edição de 2020 se comprovou como “o BBB das mulheres”. Elas dominaram com atitude, ousadia e coerência o protagonismo do programa e mostraram a potência que possuem unidas. Logo no início, um grupo de homens se uniu e articulou um plano para desestabilizar algumas mulheres da casa, envolvendo relacionamentos amorosos estabelecidos fora do confinamento.

A ação foi descoberta pelas mulheres da casa, que se uniram, cobraram satisfações e logo reagiram, tirando um a um os homens da casa, principalmente os declarados machistas que organizaram o conflito determinante para o desenrolar da edição e trajetória dos participantes. O único restante foi Babu, que não se envolveu com a polêmica e teve tempo de mostrar sua relevância e destaque no programa.

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O histórico episódio em que as mulheres da casa decidem tirar satisfações com os homens pelo plano de forçar traições

Nesse contexto ganhou força o feminismo, ou seja, movimento engajado na ampliação do papel e dos direitos das mulheres na sociedade, mas no caso do programa é importante destacar o aspecto branco dessa iniciativa na dinâmica do jogo. Marcela talvez foi a maior personificação dessa tendência, chamada de “fada sensata” por muitas colegas e valorizada dentro da casa, liderou muitas discussões no começo e contribuiu fortemente para nortear outras meninas na casa. Sua atitude foi aprovada inclusive por Daniel, que ao entrar no jogo junto com Ivy, vindos da casa de vidro, informou aos participantes a aprovação do público por sua conduta, o que mais tarde tornaria-se questionável pelo relacionamento de Marcela e Daniel e os rumos tomados.

 

RESISTÊNCIA

Entre os pontos altos da edição, podemos destacar o participante Babu Santana que, mesmo já tendo interpretado Tim Maia no cinema e feito parte de novelas e séries, ficou realmente conhecido e teve sua popularidade lançada em escala nacional. Com grande apelo para ganhar o programa e faturar o prêmio de 1,5 milhão de reais, o que o ajudaria a regularizar sua vida e as dificuldades por vezes declaradas por ele ao longo dos dez paredões que enfrentou, saindo no último da edição com a trajetória marcada por nenhuma liderança, poucos parceiros ao longo do jogo e oportunidades promissoras aqui fora, levando em consideração sua conduta.

“Você já conhece minha história. Deixa o pai ficar” e “Favela” foram expressões que ficaram conhecidas na voz dele, colocadas em vários momentos de tensão pré e pós-paredão. Babu representava uma pessoa comum, com suas angústias e fragilidades expostas a cada vez que voltava de uma votação e tinha a preferência do público confirmada.

Ainda, Santana representava camadas socialmente importantes e geralmente atacadas, homem preto (e não negro como ele mesmo explicou), gordo, periférico, que muito ensinou com suas “aulas” constantes para os demais participantes na casa, mas também aprendeu a reavaliar seus conceitos e atitudes, com as mulheres e o público LGBTQIAP+ por exemplo.

O maior ganho dessa edição foi trazer as discussões sociais para o público comum que, dentro da própria casa e nas redes sociais, passaram a refletir e pensar sobre questões antes restritas ao ambiente e artigos acadêmicos, por exemplo. Temas como racismo, machismo, feminismo (branco) invadiram o debate público e conquistaram, sobretudo, quem se identifica com tais pautas identitárias e viram no programa, uma forma de fortalecer e aproximar as temáticas da família e amigos que pouco sabem sobre ou apenas classificam como “mimimi”, expressão usada na tentativa de diminuir a manifestação de ideias de uma pessoa.

Dessa forma, o BBB 20 revela uma estratégia transmídia desenvolvida ao longo dos meses de exibição, isto é, um programa feito na televisão mas também para a internet, que motivou interações capazes de ultrapassar apenas a TV e se estender ao ambiente virtual. A prova máxima dessa investida é Manu Gavassi que, além de crescer dentro do programa com sua personalidade criativa e performática, cresceu também aqui fora, tendo seu perfil abastecido com clipe e vídeos pré-gravados, interpretações de música, fotos e todo um discurso que manteve ela ativa também nas redes sociais.

DUA LIPA
Se tem uma coisa que podíamos esperar de qualquer festa do BBB 20 é Manu Gavassi se jogando na coreografia de Don’t Start Now, o mais recente hit de Dua Lipa. A música virou tema de Manu e acabou contagiando os outros participantes que aprenderam cada um dos passos de dança, até o apresentador Tiago Leifert que se rendeu ao passo do ‘tamborzinho’. O sucesso dentro da casa do BBB veio coroar Dua como o principal nome internacional nas paradas do nosso país.

Também, atividades mais rápidas e empolgantes e o clima de nostalgia, com referências em provas e castigos do monstro, por exemplo, relembrando grandes momentos das 19 edições passadas, foram outros destaques desta edição.

 

VT SOCIAL

Várias foram as problemáticas que permearam o BBB 20 e refletem a nossa sociedade. Thelma, que cresceu cercada por uma perspectiva branca, também dentro do jogo, e por isso, ao escolher manter a postura de enfrentamento baseado em raça e a consequente a lealdade a Babu, se distanciou do grupo mais próximo no primeiro momento do confinamento, sendo julgada e incompreendida em determinadas situações. O último homem a deixar a casa, por sua vez, foi de forma equivocada classificado como bruto e intolerante, enquanto Daniel juntava várias punições para a casa por comportamentos egoístas e era perdoado, o que mostra certa visão estrutural marcada por cor e classe.

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Dentro da casa, o BBB 20 é marcado, principalmente, pela pauta do feminismo e sororidade

Também Ivy com seus posicionamentos racistas, o envolvimento tóxico e abusivo de Gabi e Guilherme, a incapacidade de Gizelly em compreender o engajamento racial de Babu, enfim, os cômodos foram palco de vários casos que espelham desafios contemporâneos vividos cotidianamente e muitas vezes, analisados de forma restrita e ou invisíveis para a sociedade. Isso tudo ecoou nas mídias sociais é claro, esta que tornou-se uma extensão da casa e definiu os critérios de eliminação para além da tradicional “afinidade”, formando aqui fora tribunais e grupos de votação em massa que alimentavam o clima de competição. “O clima de Copa do Mundo, com pessoas gritando nas varandas foi algo que me surpreendeu muito”, disse o apresentador Tiago Leifert em entrevista à Folha de São Paulo.

Ainda, Babu e Thelma tiveram de lidar com o racismo velado no programa, sutil, mas que foi percebido fortemente fora da casa. Nesse sentido, para enaltecer as suas raízes, Babu passou a adotar um pente de garfo no cabelo, símbolo de libertação como ele próprio explicou em um dos momentos de esclarecimento aos demais na casa. Inclusive, o fato de não votar em Thelma, com quem se identificou por, sobretudo, serem os únicos negros entre os 20 participantes, lhe custou o desentendimento com Prior, seu único aliado declarado no jogo.

 

FINAL SIMBÓLICA

O BBB 20 prestou um grande serviço, impulsionou discussões importantes, mostrou outro lado de personalidades já reconhecidas, nos aproximou de anônimos com histórias interessantes e ainda, motivou o entretenimento em tempos de confinamento, lá dentro e aqui fora. Acredito que aprendemos, todos, o que é jogar, e isso passa por inteligência emocional.

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O Top 5 do programa foi feito pro Thelma, Babu, Rafa, Mari e Manu

E com a importância tomada por toda a edição a final não poderia ser diferente. O comando feminino manteve o espaço central com Thelma, Manu e Rafa na disputa da preferência do público para escolher a vencedora. Sem embates e com o clima de paz na casa, as três mostraram cumplicidade e comprovaram que além de persistir para estar ali e lutar pelo que acreditam, cativar o público é um elemento definidor no Big Brother Brasil, ainda mais nesta vigésima edição.

Manu mostrou que no jogo também tem lugar para o coração, para se divertir e viver todas as experiências que o confinamento pode oferecer, seja lançar tendência, fazer VT ou meditar quando preciso. Gavassi ficou em terceiro lugar, com 21,07% votos, reforçando que as vezes, viver como na Disney e ao lado do Mickey pode aliviar a tensão e trazer tranquilidade nas escolhas.

O segundo lugar com 34,81% ficou com Rafa que soube se colocar no jogo, se posicionar quando preciso, expressar suas visões da dinâmica entre os participantes, mas também se reservar quando acreditava ser necessário, o que ocorreu principalmente no início da edição. A digital influencer mostrou que é mais do que um rosto bonito e está pronta para mais do que posar para fotos bem produzidas ou divulgar dicas na internet.

Mas sem dúvida, a representatividade foi a grande campeã do BBB 20. Thelma Regina consagrou-se como a vencedora da edição histórica do reality que, mantendo o tom, não poderia entregar o prêmio a outra participante. A paulista, médica, negra e adotada ainda bebê teve que se superar desde cedo e relatou ao longo do programa desafios passados com racismo e autoaceitação. “Estava tudo contra a Thelma e ela sabe jogar assim, é assim que ela joga melhor, é assim que ela brilha, que ela samba na cara da sociedade. Que mulher corajosa”, disse Tiago Leifert, apresentador do reality, ao anunciar o resultado final.

Thelma ganhou com 44,10% dos votos como uma mulher real, inscrita como milhares de outras e não convidada, que inspira várias brasileiras e retrata o nosso país. Sua história de sucesso não é, infelizmente, comum. Ela venceu muito mais do que o BBB 20, venceu os estereótipos, a desigualdade, o preconceito, a falta de oportunidades e reforçou que “planta” também ganha o programa, né Flay. No mais, a médica deixa a porta aberta para outras milhares de Thelmas e me lembra a filosofa Angela Davis: “quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”.

Mike Faria

mike faria

Jornalista, apaixonado pela liberdade da escrita e poder da leitura. praticante de natação nas horas vagas, encontrou na Cultura o melhor lugar para se expressar.

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