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“Agentes da S.H.I.E.L.D.”, Inumanos e viagens espaço-temporais

[tempo de leitura: 7 minutos]

Ao longo de sete anos, “Agentes da S.H.I.E.L.D.” entrega uma narrativa emocionante, que curiosamente começa marcada por uma série chata e batida.


Nota do Colab: este texto contém sérios spoilersl.

 

RRaras são as séries que conseguem melhorar com o tempo. Mais raro ainda são as situações em que uma série começa ruim mas consegue se sustentar por anos graças a qualidade gradativa ao longo das temporadas. É nesse cenário que Agentes da S.H.I.E.L.D. se encaixa, em uma produção que termina a sua jornada expandindo o MCU de forma divertida e zelosa.

É claro que é possível dizer que, como S.H.I.E.L.D. começou ruim (e ruim mesmo), qualquer melhora posterior já seria um ponto positivo. Mas o que a série da parceria entre a Marvel Studios e o canal ABC entrega vai além disso, se estabelecendo como um dos melhores seriados que coexistem dentro do MCU, enquanto se aventura em diversos aspectos do mundo dos quadrinhos e traz à vida narrativas inéditas – e até mesmo descartadas pelos filmes Marvel.

 

Time de Agentes

Agentes da S.H.I.E.L.D. é o primeiro spin-off da franquia cinematográfica da Marvel para fora das telonas. Usando como fio condutor Phil Coulson, que morre apunhalado por Loki (Tom Hiddleston) em Os Vingadores (2012), o personagem de Clark Gregg volta a vida após um misterioso experimento. Porém, momentaneamente sem lembranças de ter morrido, Coulson fica encarregado de liderar um equipe de agentes na fictícia organização secreta S.H.I.E.L.D., cuja finalidade é investigar pequenos casos que dificilmente levantariam o interesse d’Os Vingadores – mas que quase sempre se mostrarão conectados ao grupo de super-heróis.

Eventualmente, Phil é acompanhado da agente Melinda May (Ming-Na Wen), uma mulher durona conhecida como “A Cavalaria”, e do piloto Grant Ward (Brett Dalton), além da dupla físico-matemática FitzSimmons, formada por Leo Fitz (Iain De Caestecker) e Jemma Simmons (Elizabeth Henstridge). Por fim, o time é completado pela solitária Skye (Chloe Bennet), uma hacker de chapéu-branco.

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Da esquerda para a direita: Melinda, Coulson, Yo-Yo, Mack, Daisy, Fitz, Simmons e Deke.

Ao longo das sete temporadas que compõe a jornada de Agentes da S.H.I.E.L.D., o time sofre mutações. Grant Ward mostra-se um agente duplo, tornando-se um supervilão conhecido como Colmeia. Skye se descobre uma Inumana, adotando seu nome de batismo, Daisy Johnson, e o alter-ego heroico Tremor.

Paralelamente, novos personagens se unem limitadamente ou permanentemente aos agentes. No primeiro caso, vemos o mercenário Lance Hunter (Nick Blood), a agente Bobbi Morse/Harpia (Adrianne Palicki) e o Inumano Lincoln Campbell (Luke Mitchell). No segundo caso, temos o mecânico Alphonso “Mack” MacKenzie (Henry Simmons), a Inumana Elena “Yo-Yo” Rodriguez (Natalia Cordova-Buckley) e humano-do-futuro Deke Shaw (Jeff Ward).

 

A Queda da S.H.I.E.L.D.

Criada por Maurissa Tancharoen, Jed Whedon e Joss Whedon, a jornada de Agentes da S.H.I.E.L.D. é interessante por diferentes fatores. O mais perceptível desses é o início ruim, como citado. Assistir a primeira temporada do programa mostra-se uma tarefa árdua, com uma narrativa que parece não ir para lugar algum, cheia de história maçantes e batidas. O ponto fixo acontece, curiosamente, na reta final do ano de estreia, quando S.H.I.E.L.D. faz o seu primeiro crossover narrativo.

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Lincoln, Yo-Yo, Mack, Holden e Melinda

Em Capitão América: Soldado Invernal (2014), o mundo assistiu a derrocada da S.H.I.E.L.D., sendo destruída de dentro para fora pela H.Y.D.R.A., com agentes infiltrados que iam desde os níveis mais baixos até o topo da cadeia de comando da agência. Acontece que essa narrativa começa em Agentes da S.H.I.E.L.D. e, no programa televisivo, o público tem a oportunidade de entender melhor o que aconteceu antes, durante e depois.

A queda da S.H.I.E.L.D. é uma das principais narrativas do MCU, tendo recorrência ao longo de toda a jornada de 10 anos do Universo Cinematográfico da Marvel até o “fim” do primeiro ciclo, com Vingadores: Ultimato (2019). O fim da agência faz a opinião pública e governamental levar um tombo, causando uma queda drástica na popularidade dos Supers. Com a mudança de quadro, os governos são forçados a se unirem e tomarem decisões de níveis globais, como o Pacto de Varsóvia – que, por sua vez, puxa a Guerra Civil entre os Vingadores.

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Em pé: Coulson e Daisy. Sentados: Fitz e Simmons.

Enquanto os filmes atacam as consequência do fim da S.H.I.E.L.D. e do desaparecimento de Nick Fury (Samuel L. Jackson) em um estado mais macro/o que será do time liderado pela dupla Stark/Steve, Agentes da S.H.I.E.L.D. vai tratar isso de uma forma mais imediata e menos “política”, retratando como esse acontecimento vai afetar diretamente a vida dos agentes fiéis à organização e a reconstrução do nome S.H.I.E.L.D.. E é aqui que Agentes da S.H.I.E.L.D. encontra a sua vocação.

 

Jornada de Crescimento

A partir da queda da agência que leva o nome da série, Agentes da S.H.I.E.L.D. começa o seu percurso paralelo de reconstruir o próprio nome da série, com narrativas que exploram bastante dos quadrinhos, o drama, e o desenvolvimento de personagens – tudo equilibrado com o humor leve já estabelecido do MCU.

É visível perceber a diferença de tom da primeira para a segunda temporada, além da qualidade crescente nas seguintes. Agora, com Coulson no poder, diante do desaparecimento de Nick Fury, o agente inicia uma árdua batalha que muito remete os anos iniciais da S.H.I.E.L.D.. Assim, ele passa a opera nas sombras, reconstruindo os laços fragilizados um a um, enquanto continua correndo atrás do que sobrou da H.Y.D.R.A. e a restabelecer a confiança do governo estadunidense.

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Fitz e Enoch, respectivamente

Aos poucos, a narrativa começa a trabalhar o que seria a adaptação dos Agentes Secretos, na medida que o arco dos Inumanos começa a ganhar força dentro deste universo. Vale ressaltar que, diferente da fatídica série Inumanos, S.H.I.E.L.D. constrói esses personagens de uma forma muito superior, em histórias bem escritas e bem executadas. Ainda sobra espaço para a série beber em outras fontes da literatura da Marvel, trazendo personagens como o Motoqueiro Fantasma (Gabriel Luna), os Chronicons e os LMD, inserindo-os de forma natural à história e trazendo jornadas que irão servir de um mecanismo para deixar seus protagonistas ainda mais complexos e reais.

 

Fantasia e Emoção

Ao longo de sete anos, Agentes da S.H.I.E.L.D. brinca com a fantasia e o ficcional, explorando a Terra e o Universo ao redor – literalmente e no figurativo. Vemos humanos ganhando poderes através do processo de Terrigênese, inteligências artificiais querendo dominar o mundo, realidades digitais vazando para o mundo real, viagens ao futuro, viagens pelo espaço, viagens ao passado e bifurcações da linha temporal.

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Deke Shaw, ao centro

Vemos também o crescimento pessoal de cada um dos personagens principais dessa narrativa. Aprendemos a importância de chamar Skye de Daisy, choramos como a morte da Harpia e entramos em posição fetal com a morte do Lincoln, além de constantemente querer a morte definitiva do Ward. Nos exaltamos com Melinda mostrando porquê ela é A Cavalaria, ou quando Daisy domina a sua habilidade de vibração. Nos compadecemos com Yo-Yo perdendo os braços, e sentimento no coração todas as vezes que Coulson morre. Choramos de alegria quando Fitz chama Enoch de “melhor amigo” (e vice-versa), de raiva quando o universo continua conspirando e mantendo FitzSimmons separados, e de gargalhar quando Deke entra em cena.

Cada história é parte de um jogo de amadurecimento contínuo, com atuações que marcam o telespectador e imprimem, em seus respectivos personagens, humanidade e unidade.

 

De Volta Ao Passado

É difícil, nessa altura do campeonato, decidir qual é a melhor temporada de Agentes da S.H.I.E.L.D.. Cada uma é bastante única, com narrativas igualmente importantes para a história. Mas diante tantas coisas, os anos que atacam viagens no tempo e espaço parecem ser as mais interessantes.

Especificamente sobre o sétimo e último ano, S.H.I.E.L.D. faz um interessante trabalho técnico. Com um arco onde a equipe precisa viajar pelo passado para impedir que a história seja reescrita, a série usa deste acontecimento para fazer homenagens à própria arte.

Com treze episódios, a primeira metade do último ano é marcado por uma estética que reverencia os respectivos anos para qual o time viaja. Assim, podemos aproveitar episódios que brincam com a estética noir, a estética slash e a estética “invasão alienígena”, em atributos que vão desde a remasterilização da intro, até a montagem dos episódios, a forma de dirigir, a atuação e a fotografia.

No episódio dedicado aos filmes noir da década de 1950, Coulson assume o posto de narrador-defunto, cujo arco flerta com uma conspiração mafiosa e traz de volta o personagem Daniel Souza (Enver Gjokaj), da série Agente Carter (2015-2016). Já no episódio da década de 1980, a invasão alienígena é feita por robôs assassinos, e o futuro da Terra fica por conta de uma banda de rock sem sentido liderado por Deke Shaw, que se estabeleceu lançando clássicos dos anos 80 antes deles serem lançados.

É no mínimo prazeroso ver como Agentes da S.H.I.E.L.D. incorpora todas essas distintas estéticas à série, sem perder a própria identidade e mantendo o foco em sua própria narrativa. Mais prazeroso ainda é perceber como a série não está tão preocupada em se levar a sério, entregando uma história divertida, dando a oportunidade de seus próprios personagens poderem aproveitar ao máximo desses micro-universo de homenagem em que foram inseridos.

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No final, a última temporada do programa assume um posto leve, mas que também é circular, afim de fechar a história e esse ciclo que viagens no tempo dão às suas respectivas narrativas. Agentes da S.H.I.E.L.D. nunca perde a oportunidade de ser cômica, e a sua história de adeus entrega aos fãs o sentimento de preenchimento e realização. Mesmo que seja difícil se despedir (e eles fazem questão de dedicar um momento unicamente para tratar disso), a história, enfim, terminou aonde deveria terminar.

Vics

vics

tem 24 anos e é formado em Jornalismo pela PUC Minas, com um MBA em Comunicação e Marketing. gerencia a revista e, ainda, escreve matérias sempre que tem uma boa pauta.

ao todo, já assistiu um total de 18 meses em Séries, cinco meses em Filmes e em uma década foram cerca de 25 meses em reprodução de Música.

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