The USA is a dick (Cheney)

The USA Is A Dick (Cheney)

“Vice” é um filme cômico e de forte discurso político contemporâneo, se sustentando na direção de Adam McKay e na atuação de Christian Bale.


Independente de qualquer crítica ou elogio, é inegável que Vice (2018) é um filme político, politizado e autoral. Escrito e dirigido por Adam McKay, que volta a direção de um longa-metragem depois do premiado A Grande Aposta (2015), a nova película carrega a identidade cômica do diretor em sua essência, mas dessa vez com um discurso político mais articulado e crítico. Se no projeto antecessor McKay propôs uma análise cômica, ácida e didática a respeito da crise econômica de 2008, em Vice ele volta seu olhar para a história de Dick Cheney, uma das figuras políticas mais marcantes da história recente dos EUA.

De cara, o diretor dá o tom do filme ao situar o espectador de que o que estamos assistindo é inspirado por fatos reais, mas que o trabalho de adaptação da vida de Cheney para as telonas tomou liberdades criativas graças à forma sorrateira com que o político construiu sua trajetória e atuação política dentro da Casa Branca. Assim, McKay cria um roteiro que apesar de inconsistente e um pouco bagunçado, consegue propor recortes da vida do personagem – e sim, mesmo que se trate de uma cinebiografia, Vice é acima de tudo um estudo de personagem.

Dito isso, acompanhamos Cheney desde sua juventude desajustada e um pouco perdida, até seu ingresso na vida política e sua ascensão na máquina pública dos EUA. A cada cena percebemos como aquele homem vai aprendendo a jogar as regras do jogo, muitas vezes as burlando para conquistar seus objetivos e crescer dentro da Casa Branca, ao passo que também acompanhamos um pouco da sua vida pessoal. Diferente do que é feito na maioria das cinebiografias, McKay não tenta humanizar Cheney em momento algum, nem mesmo quando trabalha melhor a imagem de sua esposa (interpretada por uma excelente, carismática e intensa Amy Adams) ou quando problematiza as atitudes tomadas por ele em relação a sexualidade de uma de suas filhas. Todas as decisões do diretor estão de acordo com seu posicionamento ideológico frente ao que o político representa e a toda a máquina conservadora existente nos EUA, formada por uma mídia ideológica e por um assustado Partido Republicano pós 11 de setembro – e neste sentido ele utiliza do atentado terrorista para problematizar diversas das políticas internacionais e protecionistas adotadas pelo país nas últimas duas décadas.

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Amy Adams e Christian Bale

Este manifesto político engraçado e didático é a principal virtude do roteiro confuso e repleto de digressões narrativas. É justo dizer que McKay faz o melhor que pode ao tentar contar a história de um homem sorrateiro, cheio de segredos inimagináveis e desconhecidos, mas a forma como ele estrutura a narrativa se baseando em muitas elipses e em acontecimentos em blocos dá uma sensação de que estamos assistindo seguidos esquetes de humor. Talvez seja um resgate de quando trabalhou como roteirista do Saturday Night Live, mas a falta de uma coesão narrativa mais direta tornam os acontecimentos bagunçados. O que não funciona tão bem quanto em A Grande Aposta é o uso do narrador consciente, que apesar de brincar com a impossibilidade de completar certos diálogos e acontecimentos justamente pelo desconhecimento público do que se deu, se torna um artifício narrativo que desgasta o espectador.

Compensando a densidade de informações históricas e o roteiro inconsistente, Christian Bale carrega o filme para outro nível. Conhecido por se entregar de corpo e alma aos papéis, o ator desaparece em seu próprio corpo ao engordar e replicar os trejeitos físicos, vocais e comportamentais de Cheney. É mais uma atuação impressionante de Bale, que consegue transmitir a destreza silenciosa com que aquele homem planejou sua ascensão para o posto de Vice Presidente dos EUA, transformando o cargo, assumindo responsabilidades e um poder quase que supremo, capaz de lhe garantir meios e liberdade para cometer atos (no mínimo) questionáveis.

O restante do elenco também é muito bom. Amy Adams e Sam Rockwell garantem personalidade a personagens pouco trabalhados pelo roteiro, e no caso do George Bush Jr. vivido por Rockwell, a coragem com que McKay o constrói como um mimado inexperiente é muito interessante. Apesar de carismático e divertido, Steve Carell vive um Donald Rumsfeld caricato e muito parecido com diversos outros papéis que o ator mostrou em sua carreira.

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Assim, o que fica ao final é que mesmo que com um roteiro bagunçado e inconsistente, Vice é uma cinebiografia muito interessante. Graças a impressionante atuação de Christian Bale e a acidez que Adam McKay apresenta Dick Cheney (e tudo o que ele representa), o filme se sustenta com um divertido, engraçado e forte discurso político contemporâneo.


joão dicker

com 23 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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