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É bom viver junto de Luedji Luna

[tempo de leitura: 5 minutos]

Provocativo, reconhecedor e sensível, o álbum visual “Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água” nos envolve na trajetória da mulher preta.


OO mar serve como ponto de partida e nos embarca em uma narrativa de afetividade, liberdade e conexões que ultrapassam o corpo. Esse é o impulso que nos guia ao longo do álbum visual Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água, da cantora e compositora baiana Luedji Luna, fruto do seu novo disco de mesmo nome lançado recentemente.

Vamos passeando pela praia, pelas ruas de Salvador e ao mesmo tempo experimentando sensações a partir das vivências de Luedji, mulher preta que resgata suas raízes e laços para tratar de questões urgentes, para as próprias ruas e nossas reflexões.

O desafio das mulheres pretas em lidar com os sentimentos, a leveza de sair por aí sem pretensão e cobrança de se defender constantemente e a sensualidade por vezes incompreendida ganha as telas e nos fazem experimentar o que é viver naqueles corpos.

 

BOM MESMO É ESTAR DEBAIXO D’ÁGUA

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Capa do álbum

As surpresas vem aos poucos e os detalhes nos provocam para o que está por vir. Imagens de peixes dentro da água nos mostram um pouco da vida líquida desses seres, mais calma e em harmonia com o meio onde vivem. Diante a imensidão do mar, Luedji Luna aparece usando apenas um vestido de tom vinho e enquanto contempla a paisagem se volta para dentro.

Seu canto é sereno, natural e tranquilo, sem muitos efeitos. Enquanto canta “Sorriso canto de boca / Olhos rasgados / Qual a cor? Qual a cor? / É mistério mesmo / Ou só tirania / Você dita silêncio / Meu corpo obedece beijo”, trecho da canção Tirania, ela se encontra consigo mesma e mantém-se firme diante as diversas possibilidades do espaço.

REFERÊNCIAS
“A água é um elemento ligado às emoções e a Oxum. O álbum visual carrega referências sobre minha religião e meu entendimento enquanto mulher negra. #BomMesmoÉEstarDebaixoDágua é uma reflexão sobre afetividade de mulheres negras, dirigido por Joyce Prado.” (Luedji Luna em publicação no Twitter no dia 14 de outubro de 2020).

A partir daí, vamos sendo conduzidos a vivenciar os caminhos de uma mulher preta a partir do seu olhar. Andamos pelas ruas de Salvador, experimentamos um arco de coroa, metáfora forte do povo preto na posição de liderança, dançamos sem muito preparo com pessoas na mesma situação carnavalesca baiana e, aos poucos, vamos sentindo os prazeres de Luna.

Autoconhecimento, confiança e exaustão assumem em diferentes momentos o foco da tela durante o visual Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água, tendo como apoio o plano detalhe da câmera para nos aproximar ainda mais. Expressões como “A mulher negra é a revolução” em uma das paredes e “acredite” na pulseira da artista também não passam despercebidas e contribuem para fortalecer a mensagem do material:a subjetividade de pessoas invisibilizadas e não vistas com toda sua potência.

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FEAT
O álbum trouxe participações de outras mulheres negras nas letras e poemas presentes nas composições, como Conceição Evaristo, Cidinha da Silva, Tatiana Nascimento, Dejanira Rainha Santos Melo e Marissol Mwaba.

Em um dos momentos, Luedji Luna entra em um banheiro, tira a máscara de carnaval e, sem adereços nenhum, contempla o espelho. As lembranças e fragilidades vem, como para todos, enquanto a voz da escritora Conceição Evaristo, que participa do projeto na música Ain’t Got No, parece a oferecer acolhimento. A dor dá lugar a consciência e uma gargalhada fecha esse ato de fortalecimento diário da mulher negra.

 

EMPATIA

Nós é para mim a maior potencialidade de Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água, tanto no aspecto musical quanto visual. Quando nos integra pelo senso de comunidade, a união que nos trouxe até aqui. Eu, você, que muitas vezes vemos nos noticiários e obras audiovisuais o discurso das dificuldades em ser preto e ainda mulher nesse contexto, sentimos o que é suportar e viver tudo isso na pele.

O corpo ali representado é de Luedji Luna, mas passa a ser de qualquer um de nós que, quando começa a ver e experimentar as sensações ao longo dos 23 minutos de exibição, compartilha com ela as angústias e satisfações de nossa trajetória. O filme, que explora cinco das 12 faixas do disco, diz muito da atual fase da artista, especialmente por ser mãe recente, e nos deixa empolgados com a força do disco em si.

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A baiana assume o auge da postura provocativa quando aparece com um conjunto vermelho, sem deixar tampar totalmente suas formas, e uma espécie de véu na mesma cor para deixar claro: Eu sou a preta que tu come e não assume / E não é questão de ciúmes / Tampouco de fé / Por acaso eu não sou uma mulher?. O trecho é repetido sem sons de fundo e compõem um manifesto de reconhecimento a humanidade das mulheres negras.

“A lógica do racismo é destituir nossa humanidade, e não tem nada mais constitutivo da nossa humanidade do que amar e ser amado. Então falar do amor enquanto mulher negra é reconstituir essa humanidade e também construir uma narrativa e um imaginário que é sistematicamente apagado”.

LUEDJI LUNA PARA O JORNAL O TEMPO.

Ainda, ]Luedji Luna busca referências na África para o novo disco, gravado no Quênia. Referências estas que vão na nova geração, não em batuques já codificados e consagrados pelo público fora do continente. “Eu já tinha diálogo com o que é feito na música africana hoje. Eu me sinto inserida numa cena de cantoras da minha geração“, diz, lembrando Sara Tavares, de Cabo Verde, e Aline Frazão, de Angola. “Pesquiso muito afrobeat da Nigéria, o afrohouse feito na África do Sul. O último disco da Beyoncé é 100% referenciado nessa música feita hoje nos países africanos”.

E se nos EUA temos Beyoncé com Black is King, em uma manifestação aberta ao povo preto, no Brasil Luedji Luna localiza a questão racial, junta toda a problemática, as diversas experiências vividas por ela própria e nos apresenta a celebração da beleza e das formas de sentir para além dos padrões.

Além disso, nos momentos finais do filme, uma nova perspectiva ganha destaque. O espelho reaparece, ora no colo da cantora, ora colocado na areia da praia, adicionando outra maneira de ver o mesmo espaço e ela mesma, além de aumentar as possibilidades de interpretação. É mais uma metáfora forte quando alcançamos o real reconhecimento, em que as diferenças aparecem como pontos fortes e nos oferecem ampla observação do cotidiano.

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A conexão sugerida por Luedji Luna no álbum visual Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água nos faz sentir satisfação por viver na mesma geração de artistas como ela e é como a fita vermelha que une os sujeitos pretos vestidos de branco, de acordo com sua cultura, e cabelos naturais que encaram a câmera com naturalidade.

Eis a oportunidade de nos conectar pelo amor e fortalecer uns aos outros pela afetividade que nos é comum. Afinal, se a vida debaixo d’água é mais tranquila, podemos seguir fazendo a vivência fora dela ser mais leve também.

Mike Faria

mike faria

Conectado com a potência das narrativas e a sensibilidade social encontrou no Jornalismo o melhor lugar para se expressar, junto a prática de natação nas horas vagas e as distopias para lidar com a realidade.

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