fbpx

“Shazam!” é um divertido filme de super-herói de fórmula mais refrescante, cuja trama foca na ideia de estarmos sempre em um processo de aprendizagem.


Você se transforma ao dizer “Shazam!”

 

O que é a dignidade humana? Pensar que há um único exemplo de ser humano ideal é tão antiquado quanto limitado. As grandes mitologias que criamos, no entanto, sempre buscaram expandir a concepção idealizada da dignidade humana por meio de virtudes e qualidades inerentes ao ser. Essa reflexão me tomou por completo logo no começo da projeção de Shazam!, quando presenciamos o encontro sobrenatural do jovem Thaddeus Sivana (Mark Strong) com um mago ancião. “Você é digno?”, a pergunta emblemática feita pelo mago, estabelece um dos principais temas da trama, que ousa em apresentar uma resposta contemporânea e relevante.

https://www.youtube.com/watch?v=Ptq-Xr7ipM8

Com direção de David F. Sandberg, a adaptação da herói dos quadrinhos, criado em 1940 por Bill Parker e C. C. Beck, mescla tradição com quebra de padrões para contar uma história de origem pouco pedante e que trabalha a construção do herói de maneira lúdica e extravagante. Diferente do óbvio clichê de “não se levar a sério” frequente nas adaptações recentes de Deadpool (2016) e Guardiões da Galáxia (2014), percebemos que a provocação feita pelo mago no começo do filme é levada para frente não em tom de deboche, mas sim a partir do ponto de vista de um adolescente.

Sendo assim, não é errado rotular Shazam! como uma história sobre amadurecimento. Na sequência inicial, observamos um jovem e frágil Sivana lidar com a aceitação do pai e do irmão durante uma viagem de carro quando, de repente, o garoto é transportado para um lugar sombrio e misterioso. Lá, o mago ancião (Djimon Hounsou), de aparência exausta e decrépita, confronta o garoto de maneira semelhante, porém com outro intuito: encontrar um herdeiro para os seus poderes. Um herdeiro que seja digno o bastante para não cair nas tentações dos sete pecados capitais e sirva de modelo de exemplo para a humanidade. Ao perceber que Thaddeus Sivana não era digno, o mago, em tom de rejeição, o envia de volta para a realidade e, assustado, o garoto acaba provocando um acidente do qual, de início, não sabemos exatamente as consequências além do desprezo imediato de seus familiares.

Após a breve introdução, somos apresentados a Billy Batson (Asher Angel), em uma sequência que visualmente já diz bastante sobre o menino de 14 anos enquanto ele prepara uma emboscada para os policiais com o objetivo de encontrar um endereço no banco de dados com base no sobrenome de sua mãe. Com o uso de flashbacks, conhecemos o passado do garoto e o que o motiva: aos três anos de idade, se perdeu da mãe em um parque de diversões e nunca mais a encontrou. Notamos que a busca é frequente e, novamente, o endereço encontrado não o levava até sua verdadeira mãe. Abordado pela polícia, o garoto é informado a respeito do interesse de uma nova família adotiva.

Com dois núcleos narrativos estabelecidos, o roteirista Harry Gayden não inova radicalmente a estrutura de filmes de origem, mas consegue explorar bem os temas que movimentam a história. Há um desenvolvimento realmente especial no relacionamento de Billy com a nova família adotiva que define muito bem a progressão dramática do personagem.

À medida que os núcleos se convergem de maneira cômica no momento em que o mago acaba convocando Batson como última esperança para assumir os seus poderes, acompanhamos a constante transformação e descoberta do garoto em sua “melhor versão possível”. Ao proferir “Shazam”, as perspectivas mudam e Zachary Levi dá vida a um protagonista heroico e musculoso transformado pelos poderes do Mago. A dinâmica entre Angel e Levi tinha que estar extremamente bem alinhada para que as alternâncias entre Batson/Shazam estivessem perfeitas. E, com méritos, é exatamente o que acontece aqui.

Ainda sobre o elenco, Jack Dylan Grazer entrega uma ótima e difícil atuação, bastante cômica, dando vida a Freddy Freeman, irmão de Batson na família adotiva. Freddy, que representa a figura do nerd franzino, também entra na divertida jornada de compreender e descobrir os poderes do Batson/Shazam com referências ao universo da DC Comics e a filmes dos anos 70 e 80.

Além de Freddy, a família que abriga o protagonista é integrada pelos parentes adotivos Victor e Rosa Vasquez (Cooper Andrews e Marta Milans, respectivamente), a dedicada Mary (Grace Fulton), o caladão Pedro (Jovan Armand), o pequeno gamer Eugene (Ian Chen) e a hiperativa Darla (Faithe Herman). Apesar da quantidade de integrantes, o filme consegue enaltecer a importância dessa família para a trama central. Billy, sempre em busca da mãe e de sua família de sangue, acaba encontrando na família adotiva carinho, amor, amizade e novas motivações.

O avanço da narrativa resgata a figura de Thaddeus Sivana como o vilão do filme: uma vez rejeitado pelo Mago e por sua família, ele viveu uma vida amarga em busca de vingança. Apesar da boa interpretação de Mark Strong, a construção de Sivana como vilão chega a ser problemática e óbvia demais.

Ainda sobre a questão da dignidade, o filme trabalha um conceito frequente de que a realidade não é, de maneira alguma, somente bem e mal ou preto e branco. Fugindo, então, deste maniqueísmo, e trazendo a figura acinzentada e jovial de Billy Batson como última opção ao Mago, que por muitos anos buscou um sucessor iluminado, ideal e digno, Shazam! nos lembra que, assim como Batson, também estamos em constante desenvolvimento, aprendendo, descobrindo e encontrando o nosso lugar de dignidade no mundo.


Compartilhe

Twitter
Facebook
WhatsApp
Telegram
LinkedIn
Pocket
relacionados

outras matérias da revista

Televisão
Deborah Almeida

Kanpai, Queer Eye!

“Queer Eye” vai ao Japão para episódios especiais, unindo suas histórias fortes e bonitas conexões com uma ótima mudança de ares e culturas.

Leia a matéria »
Pesadelo na Rua Z
Deborah Almeida

Pesadelo na Rua Z / “Não Olhe” (2018)

Já imaginou se o seu reflexo no espelho fosse uma espécie de “gêmeo do mal’? Essa é a premissa de Não Olhe, filme de terror que explora a temática do próprio reflexo como motivador do horror presente na relação entre nossa imagem (o que projetamos) e o de fato somos. A trama tem como protagonista Maria (India Eisley), uma jovem insegura e solitária que sofre bullying dos colegas de escola e tem em sua única amiga, na verdade, uma potencial grande inimiga. Em casa, seu pai (Jason Isaacs) só se importa com sua aparência física e sua mãe é extremamente indiferente.
Leia a matéria »
Back To Top