Um Oscar bait bem intencionado

Um Oscar Bait Bem Intencionado
[tempo de leitura: 3 minutos]

“O Escândalo” peca ao dramatizar sem personalidade e de forma contraditória uma história real que trata de um tema contemporâneo relevante.


ÉÉ curioso que, na época que se discute uma suposta falta de criatividade em Hollywood, assim como a predominância de filmes pouco autorais, assistir à O Escândalo é uma experiência que mostra como essa premissa – se é que verdadeira – também se aplica aos “filmes de prestígio”. Seguindo a pegada de filmes como A Grande Aposta, Vice e até um pouco de O Lobo De Wall Street, o longa dirigido por Jay Roach emula as virtudes das produções que lhe inspiram, mas com uma enorme falta de personalidade.

O paralelo com os filmes dirigidos por Adam McKay é ainda mais forte pelo envolvimento de Charles Randolph como roteirista. Em A Grande Aposta e Vice, as propostas de dramatizar acontecimentos históricos por meio da sátira, quebra da quarta parede e tom descontraído, enfocaram respectivamente o fenômeno econômico da Quebra da Bolsa de Valores em 2008 e a ascensão de uma das figuras mais polêmicas da política estadunidense nos anos 2000. O problema é que o tema central de O Escândalo – o machismo e a cultura de assédios imposta às mulheres em diversas esferas da sociedade, aqui representado dentro da Fox News – não é um tema cômico em potencial.

  • Save
Pôster nacional

Desta vez, o foco é apresentar a história da queda do poderoso Roger Ailes (Jon Lithgow), então presidente da FOX News, denunciado por assédio sexual e símbolo de todo conservadorismo presente não só na linha editorial do programa, mas também nas estruturas nocivas com que a cultura da empresa se mantinham. O estranho é que O Escândalo soa como um filme sobre assédio sexual e abuso de poder que se estrutura a partir da perspectiva do agressor e não das vítimas.

Aqui, a escolha de como construir a narrativa se dá por apresentar três personagens femininas centrais a trama que trafegam o dia a dia de Ailes, para mostrar os entremeios de todo o ambiente do canal televisivo, ao mesmo tempo que consegue demonstrar como os comportamentos ácidos e problemáticos dentro da empresa são reflexos de uma estrutura que começa de cima.

Assim, somos guiados por uma montagem que fragmenta os acontecimentos em três núcleos amarrados pela figura de Ailes: as trajetórias das apresentadoras Megyn Kelly (Charlize Theron) e Gretchen Carlson (Nicole Kidman) já no alto-escalão do canal, além da ascensão da estagiária Kayla (Margot Robbie) – personagem fictícia criada para o filme que funciona como o artifício narrativo para evidenciar as ramificações da presença amedrontadora e silenciadora do presidente da FOX News.

  • Save
Nicole Kidman como Gretchen Carlson

É justamente desse descompasso entre a seriedade do tema e a abordagem beirando a sátira que O Escândalo sucumbe. Tanto no deslize de como equilibrar o humor ao peso temático, quanto na falta de uma unidade estilística para a película que sofre com o desequilíbrio dos inúmeros zooms aleatórios e da estética documental estilo The Office.

No meio deste turbilhão, sobressaem o trabalho do elenco que dá sobriedade para seus personagens. Sem cair na caricatura que poderiam ser representados – não só pelo claro viés de Roach e Randolph, mas também pelo próprio comportamento afetado que os apresentadores da FOX News assumem ao vivo – Charlize Theron, Nicole Kidman e John Lithgow seguram a narrativa com performances fortes e seguras. O principal ponto fora da curva é para Margot Robbie, em parte prejudicada pelo roteiro, que acaba vivendo uma personagem mais enquadrada em caixas e com menos conteúdo para dar vida – apesar de seu envolvimento direto com o tema e com o antagonista da história.

  • Save
Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie

Com o encerramento da história, os créditos apresentam fatos sobre o desfecho do caso envolvendo Roger Ailes, a família Murdoch (dona do conglomerado Fox) e as vítimas de toda cultura nojento criada pelo presidente do estúdio. O que fica destas informações é mais uma confirmação de como O Escândalo é um filme incoerente e contraditório que, mesmo com atuações fortes do elenco, se perde ao não conseguir equilibrar humor e sátira ao peso de uma conversa muito importante e necessária.

João Dicker

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

Back To Top
Share via
Copy link
Powered by Social Snap