O cinema e a guerra fazem, juntos, um espetáculo

O Cinema E A Guerra Fazem, Juntos, Um Espetáculo
[tempo de leitura: 3 minutos]

Em “1917”, Sam Mendes empresta da temática da guerra o seu potencial espetaculoso para construir filme visualmente arrebatador.


EEm um ano marcado pela discussão a respeito de como os grandes blockbusters Hollywoodianos têm funcionado como atrações de um parque de diversão, talvez seja simbólico que 1917, novo filme de Sam Mendes, seja o mais cotado a vencer o Oscar. É interessante que este novo épico de guerra soa mais como uma demonstração de virtuosidade do exercício fílmico do que propriamente como uma obra que tenha algo a dizer, convidando o espectador a uma experiência espetaculosa de pouco conteúdo.

A trama acompanha os cabos Schofield (George MacKay) e Blake (Dean Charles Cahpman), que partem das trincheiras dominadas pelo exército britânico com a missão de atravessar um território dominado pelo exército alemão para entregar uma mensagem que pode salvar a vida de mais de mil soldados, dentre os quais, o irmão mais velho de um dos jovens.

A força do filme está, acima de tudo, na proposta formal e da encenação de monta-lo como um único plano-sequência. O trágico em 1917 é que essa opção estilística essencial do longa é o que quebra a imersão no ambiente de guerra e relembra o espectador constantemente que estamos assistindo a uma película. Apesar do esmero técnico excepcional, especialmente do trabalho de cinematografia de Roger Deakins e da montagem de Lee Smith – sim, o longa parece com um plano-sequência, mas existem cortes sutis que o tornam desta maneira –, é perceptível que Sam Mendes precisa criar um malabarismo para sustentar essa proposta.

As limitações passam pela forma como captura seus atores, como os faz movimentar, como move a câmera, como explora do cenário para esconder cortes e a coordenação que precisa ser criada para extras e figurantes. O resultado, em um sentido técnico, é um primor visual incrível e um efeito que coloca o espectador em uma posição de “testemunha ocular” dos acontecimentos como um todo, desde a trama e os percalços sofridos pelos protagonistas, assim como dos desafios encarados por Mendes e os nomes envolvidos na projeção.

O problema é que este mesmo efeito pode ser alcançado por uma construção de atmosfera imersiva que seja verdadeiramente pungente e magnética, algo que 1917 não consegue fazer justamente por carregar um vislumbre para o primor técnico que constantemente quebra o potencial de imersão.

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Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George MacKay)

Nesta proposta de um voyeurismo para o espectador, o filme traz uma forte carga na linguagem visual que lembra os videogames, com novos obstáculos aparecendo a cada momento – sejam passagens escuras e caminhos ardilosos, inimigos a serem combatidos ou até mesmo aliados que trafegam o caminho dos protagonistas unicamente para força-los a seguir adiante.

Das virtudes de 1917, é necessário ressaltar como Mendes merece todos os elogios que lhe cabem por conseguir comandar esta proposta mirabolante, mesmo que ela não seja nenhuma grande novidade. Aos atores, tantos George MacKay quanto Dean Charles Chapman dão mais personalidade e carisma a personagens que não são trabalhados pelo roteiro de Krysty Wilson-Cairns, que por sua vez está muito mais preocupado com a decupagem do que propriamente com arcos dramáticos e desenvolvimento de personagens – o que não necessariamente é um ponto negativo visto que a unidade estilística do filme está muito mais voltada para a encenação do que para a uma possível dramaturgia.

Se o longa se encaixa como um “épico de guerra” é graças ao trabalho fabuloso de Roger Deakins na cinematografia e de Thomas Newman na trilha sonora. Deakins, principalmente, mostra mais uma vez porque é um dos principais nomes da história em seu ofício. É impressionante como ele consegue manter uma unidade estética visual para cenas tão distintas, ora em campos amplos com tomadas abertas e iluminação natural, outrora com um jogo de luz com uso de flares e sombras que é esplendoroso.

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Ao final, o que fica acima de tudo é o arrojo estético e o primor técnico exemplar que Sam Mendes entrega em 1917, transformando o filme em espetáculo envolvente e potente que merece ser vivido na sala de cinema.

João Dicker

joão dicker

com 23 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas. é o Editor de Conteúdo da ZINT, um apaixonado por Cinema, Futebol e Gastronomia. trabalha como assessor de imprensa na A Dupla Informação, especializada em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade.

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