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Povos e territórios em cena

[tempo de leitura: 6 minutos]

Disponível online e gratuitamente até 20 de setembro, a nona edição da mostra Ecofalante reúne diversos títulos que abordam as dificuldades enfrentadas por indígenas e outros grupos minoritários.


T“Temos que aprender a ser índios antes que seja tarde. O encontro com o mundo indígena nos leva para o futuro, não para o passado”. A frase de Eduardo Viveiros de Castro, renomado antropólogo brasileiro, foi dita em 2017, na Flip. Desde então, a situação dos povos indígenas no Brasil se tornou ainda mais crítica.

Com a agenda do atual governo federal, as invasões de terras por garimpeiros e madeireiros se intensificaram, enquanto órgãos como a Funai e o IBAMA, que deveriam garantir a proteção dos índios e do meio ambiente, estão sendo desmontados. Nos primeiros quatro meses de 2020, o desmatamento na Amazônia brasileira atingiu um novo recorde – dado extremamente preocupante considerando que em 2019 diversos incêndios se proliferaram na região.

Diante deste contexto, agravado por uma pandemia que escancarou as desigualdades e colocou em xeque o sistema predatório em que estamos inseridos, a mostra online Mostra Ecofalante de Cinema apresenta sua 9ª (nona) edição, reunindo títulos que abordam não apenas as questões indígenas e ambientais, mas também a luta pelo direito dos negros, das mulheres e dos LGBTQIAP+.

A seguir, confira um pouquinho sobre três filmes do catálogo que tratam sobre a causa indígena e o meio ambiente -– além de abordarem muitas outras pautas caras à sociedade contemporânea.

 

ACQUA MOVIE

Dirigido por Lírio Ferreira, o longa acompanha a viagem realizada por Duda (Alessandra Negrini) e seu filho, Cícero (Antonio Haddad Aguerre). O percurso é proposto pelo garoto, que quer levar as cinzas do pai, Jonas (Guilherme Weber), falecido recentemente, para o sertão de pernambuco, sua terra natal. Além de ser um road movie que explora a relação entre os dois, Acqua Movie é um retrato importante do Brasil contemporâneo.

Duda é uma documentarista etnográfica, que trabalha especialmente filmando a floresta amazônica. Ela precisa dar uma pausa nas filmagens para realizar a viagem com seu filho. Durante o trajeto (de São Paulo até Pernambuco), Duda para na estrada para falar com alguns moradores da região e procura Zé Caboclo (Aury Porto), um índio que ela quer entrevistar. Em seguida, Cícero comenta: “Não sei o que você vê nos índios. Eles vivem pedindo esmola, atrapalhando a vida dos outros”. A protagonista replica: “Onde você aprendeu esse absurdo? Espero que não tenha sido na escola, né?”.

Na sequencia, a câmera se direciona para um animal que está comendo um caderno. O diretor de Acqua Movie, assim como outros filmes da Ecofalantecoloca em questão um ensino que, muitas vezes, conta a história a partir do ponto de vista hegemônico, sem abordar o fato de que tribos indígenas precisam atualmente resistir, com bastante dificuldade, a uma matança provocada pelos poderosos. Pouco se aprende ainda sobre as funções da Funai e a importância do processo de demarcação de  terras.

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“Acqua Movie”

Ao chegarem no sertão, Duda e Cícero se reencontram com a família de Jonas, que comanda a região. O tio, Múcio (Augusto Madeira), é o prefeito de Nova Rocha. Ele, que defende uma política assassina contra os índios da região, logo presenteia Cícero com um canivete (que ainda tem um adesivo verde e amarelo colado). Considerando a força do discurso do “patriota cidadão de bem”, que precisa se defender dos “bandidos” com armas,  o objeto é extremamente simbólico.

É preciso destacar a primorosa direção de fotografia, realizada por Gustavo Hadba, que dialoga muito bem com a narrativa. A água é um elemento presente desde a primeira cena do filme e é consideravelmente impactante quando vemos que a antiga cidade de Rocha atualmente se encontra submersa.

Ao longo da produção, parte da programação da Mostra Ecofalante de Cinema, é possível notar processos violentos em diferentes dimensões. Assustada depois de alguns acontecimentos, Duda precisa urgentemente ir embora de Nova Rocha. Do meio para o final, a produção de Acqua Movie ganha fôlego e ficamos apreensivos, torcendo pela personagem principal. Quando a documentarista e seu filho finalmente encontram Zé Caboclo, o índio profere uma frase emblemática: “Quando perceberem que não se come petróleo e não há mais ar puro para respirar, talvez seja tarde”.

Do começo ao fim, o longa comove, prende a atenção e consegue, ao mesmo tempo, ser sutil e passar a importância do tema. Há ainda, reflexões sobre o luto, o lugar da família e os diferentes tipos de conhecimento existentes. Longe de querer apresentar uma solução única para tantos problemas, Acqua Movie coloca questões – de maneira poética e sensível.

 

AMAZÔNIA E TERRITÓRIO

Enquanto Acqua Movie é uma ficção, o curta Território: Nosso Corpo, Nosso Espírito e o longa Amazônia Sociedade Anônima se debruçam sobre a causa indígena a partir de um olhar documental. O primeiro, dirigido por Clea Torres e João Paulo Fernandes, acompanha principalmente a luta das mulheres A’uwe Xavante, enquanto o segundo, de Estevão Ciavatta, apresenta um panorama mais geral da questão.

 

Território: Nosso Corpo, Nosso Espírito

Logo no início do curta, apresentado na Mostra Ecofalante de Cinema, escutamos falas de jornalistas e também do atual presidente do Brasil. O contexto, portanto, é bem atual: a produção mostra imagens  do Acampamento Terra Livre 2019, que teve como lema “Sangue indígena. Nas veias, a luta pela terra e pelo território”. As cenas que mostram debates entre mulheres indígenas e homens brancos de terno em assembleias são bastante impactantes – muitos dos políticos parecem não prestar atenção no que está sendo dito. No acampamento, as mulheres indígenas entoam o lema: “território, nosso corpo, nosso espírito”. Uma delas explica: “Quando falamos de espírito, estamos falando também de ancestralidade. Quando nós, mulheres, gritamos essa frases, estamos falando do nosso corpo como tomada de decisão. O nosso corpo também é uma defesa da nossa cultura e da nossa sociedade”.

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“Território: Nosso Corpo, Nosso Espírito”

Ao longo de Território: Nosso Corpo, Nosso Espírito, são exibidos diversos depoimentos de representantes dos coletivos. Há uma clara preocupação em retratar a diversidade de línguas que existem nessas comunidades, assim como os diferentes pontos de vista. Não há uma fala que abarque todas as demandas das tribos indígenas, já que em cada uma delas há especificidades. Há as que não falam português, há as que estudam, as que se dedicam especialmente a trabalhos manuais, as que cuidam dos filhos quase o tempo inteiro. O que une a maior parte das falas é de fato o desejo das mulheres em terem suas vozes legitimadas, suas forças reconhecidas.

 

 Amazônia Sociedade Anônima

Amazônia Sociedade Anônima, por sua vez, é muito eficiente em mostrar como o processo de grilagem acontece. São tocados diversos áudios de escutas telefônicas, com conversas que revelam o caráter predatório dessas ações. Há frases absurdas ditas com a maior naturalidade, como: “Aí, você faz um rodízio de gado no pasto e toca fogo quando é época. No outro ano, toca fogo de novo. Então, uma área boa lá é onde já passaram uns três fogos” e “faz isso quando você for resolver o negócio lá do trabalho escravo”.

Os tenebrosos áudios são intercalados com lindas imagens (do que ainda resiste) da Amazônia, além de falas de índios e especialistas em questões ambientais. Muitos momentos exibidos no longa apresentado na Mostra Ecofalante de Cinema são fortes e bonitos, como a cena em que alguns índios conseguem realizar o processo de autodemarcação de terras. Diante da ausência do Estado, os próprios grupos precisam lutar bravamente pelos direitos mais básicos.

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“Amazônia: Sociedade Anônima”

Em um dos depoimentos para o longa, o antropólogo Viveiros de Castro declara: “Os índios podem nos ensinar muito. A terra não é dos grileiros, mas também não é deles. Eles é que são da terra. Nós somos da terra. A terra pode viver sem nós. Como planeta, existe sem nós. Por outro lado, nós não podemos existir sem a terra”. Está claro que existe uma urgência: em buscarmos outros modos de vida, maneiras que não sejam destrutivas – e, especialmente, que não enxerguem a natureza como mercadoria. Ideias, como defende Ailton Krenak, para adiarmos o fim do mundo.

Carolina Cassese

carolina cassese

estudante de Jornalismo, feminista, louca dos gatos, geminiana de sol e alma. apaixonada por mudanças e pelas palavras.

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