Um país em vertigem

Um País Em Vertigem

“Democracia em Vertigem” faz um esclarecedor recorte visual da história recente do Brasil, acompanhando impeachment, protestos e a política brasileira.


Hoje, enquanto sinto o chão se abrir debaixo dos meus pés, temo que a nossa democracia tenha sido apenas um sonho efêmero”. As palavras da diretora Petra Costa ilustram uma das principais reflexões de seu filme, Democracia em Vertigem, que chegou ao catálogo da Netflix em 19 de junho. O documentário retoma os principais acontecimentos da política brasileira nos últimos anos, como o impeachment de Dilma Rousseff, o governo provisório de Michel Temer e a prisão do ex-Presidente Lula.

A narração, realizada pela própria Petra, não tem a pretensão de ser neutra: é íntima e honesta. Ela traz relatos pessoais e relaciona os acontecimentos recentes da política com a história de sua família. Ao mostrar imagens do muro que dividia manifestantes contra e a favor do impeachment em um protesto, a cineasta mineira conta que a maior parte da sua família estaria do lado direito, de verde e amarelo, enquanto seus pais (que foram, inclusive, perseguidos pela Ditadura Militar) estariam do lado esquerdo, com bandeiras vermelhas.

Um dos maiores acertos de Costa é trazer imagens e informações sobre o golpe de 1964. Naquela época, se dizia que só os militares poderiam salvar o Brasil de uma suposta “ameaça comunista”. Naquela época, buscava-se eliminar a diferença a todo custo. Se, como afirmou Karl Marx, a história se repete (“a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”), qualquer semelhança da atualidade com aqueles tempos não é mera coincidência.

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Petra Costa, a diretora do documentário (Crédtio: Diego Bresani/Divulgação)

A direção de Democracia em Vertigem utiliza recursos interessantes e explicita sua inventividade ao mostrar, por exemplos, os áudios vazados de uma conversa entre Romero Jucá (ex-Ministro do Planejamento) e Sérgio Machado (ex-Presidente Transpetro), enquanto a câmera desce em linha reta pelos prédios de Brasília. No ápice da conversa (“é um grande acordo nacional. Com o Supremo, com tudo. Aí parava tudo”), Petra pausa os áudios e diz: “De novo”.

Voltamos a ouvir as falas emblemáticas de Jucá e Machado.

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O impeachment de Dilma, o governo de Temer e a prisão de Lula são temas do documentário

Cerca de meia hora depois, é a vez de ouvirmos a conversa entre Aécio Neves e Joesley Batista, que também foi vazada. Dessa vez, o documentário mostra duas vezes a frase dita por Aécio: “Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer a delação”.

Petra foge do óbvio quando decide entrevistar faxineiras do Planalto sobre o impeachment de Dilma Rousseff. A fala de uma delas é uma das mais marcantes do documentário:

Seria fácil que a gente pudesse limpar toda essa sujeira com pano, com balde de água. Mas infelizmente não tem como. É muita sujeira. Mas não sei ela foi tirada pelo povo, né? Não foi uma escolha do voto, não foi uma democracia. Na verdade, aqui não existe democracia. Nosso direito de realmente escolher… Acho que não existe, não”.

O depoimento de Gilberto Carvalho, ex-secretário geral da Presidência (PT), traz uma autocrítica ao Partido dos Trabalhadores. Ele pontua que, em nome da governabilidade, o partido se afastou da base militante e acabou se aliando a um fazer político vertical e burocrático, tão criticado inicialmente pelo PT. Democracia em Vertigem também explicita como o partido muitas vezes atuou mais ao centro do que verdadeiramente à esquerda, fazendo alianças com grandes empresas e empreiteiras.

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A diretora não deixa de fazer esses contrapontos, mas assume o seu posicionamento, deixando claro que apoiou candidatos petistas nos últimos anos e que se opôs ao impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. A versão do lado direito do muro não chega a ficar seriamente comprometida, considerando que Petra foi em manifestações antipetistas e gravou falas dos manifestantes. A cineasta recolheu ainda depoimentos de políticos que se opunham aos ex-Presidentes Dilma RousseffLula, além de mostrar discursos de figuras emblemáticas, como Jair Bolsonaro, Janaína Paschoal, Sérgio Moro e Aécio Neves. Costa registra, inclusive, o momento em que pede uma entrevista para Aécio. Ele não demonstra muito interesse e desconversa.

Para quem ainda acredita em valores democráticos, assistir à Democracia em Vertigem após a eleição de Jair Bolsonaro é doloroso e esclarecedor ao mesmo tempo. É mostrado todo o caminho que foi percorrido até aqui: a apropriação do verde e amarelo para manifestação conservadoras, a ascensão de uma narrativa contra a educação, contra às mulheres, os homossexuais, os negros e os direitos humanos como um todo. Fica claro que uma autocrítica não deve ser cobrada apenas do Partido dos Trabalhadores, mas também da grande mídia que convocava para manifestações a favor do impeachment e até mesmo dos que se mantiveram neutros nesses momentos tão emblemáticos que o Brasil atravessou nesses últimos anos.

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Analisando todo esse percurso, não causa espanto que hoje sejamos governados pela extrema-direita. Nas palavras da diretora Petra COsta: “Bolsonaro é a cara de um país que nunca puniu os crimes cometidos pela Ditadura Militar. Um país moldado pela escravidão, por privilégios e por golpes. Uma democracia fundada no esquecimento”.  O começo e o fim do documentário Democracia em Vertigem dialogam inteligentemente e, como não há respostas prontas, Petra finaliza com uma pergunta: “De onde tirar forças para andar entre as ruínas e recomeçar?”. Essa vertigem, afinal de contas, não deve cessar tão cedo – mas não pode nos impedir de caminhar.

carolina cassese

estudante de Jornalismo, feminista, louca dos gatos, geminiana de sol e alma. apaixonada por mudanças e pelas palavras.

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