Os 40 anos do ícone slasher

Os 40 Anos Do ícone Slasher

No aniversário de 40 anos de “Halloween: A Noite do Terror”, o famoso filme slasher ganha uma sequência direta do original com o retorno de Jamie Lee Curtis.


Nota do Colab: este texto teve colaboração do colaborador Adan.


No dia 25 de outubro de 1978 chegava aos cinemas Halloween: A Noite do Terror, uma das obras mais cultuadas do cinema de terror e responsável consolidar o subgênero slasher como fenômeno de público e ciclo produtivo em Hollywood. Dirigido por John Carpenter, o longa se consagrou como o “primeiro filme do ciclo slasher” por ter lapidado e estabelecido convenções narrativas e de linguagem para filmes que beberiam de sua fonte, mesmo que ele próprio não tenha sido o pioneiro nestes elementos. O longa não só criou uma tendência a ser seguida quanto a estilo, estética e narrativa, mas também foi seguido por diversos cineastas e estúdios que enxergaram no enorme sucesso de bilheteria, que ultrapassou US$ 70 milhões na arrecadação mundial, um sinal lucrativo para um filme com pouco mais de US$300 mil de orçamento.

Mesmo que poucos anos antes de sua estreia, alguns filmes já haviam introduzido certos elementos presentes em Halloween, como Noite do Terror ou o próprio O Massacre da Serra Elétrica, ambos de 1974, foi a obra de Carpenter que conseguiu com muito esmero entregar um filme memorável, influente e atemporal.

 

Por Trás da Máscara

Uma das principais virtudes de Halloween – A Noite do Terror, que talvez só tenha sido percebida com o passar dos anos, é justamente a carga cultural e simbólica que o longa carrega. A virada para o ciclo slasher é, talvez, um dos marcos mais interessantes dentro da trajetória histórica do cinema de horror, já que na década de 70 existe uma ruptura com os temas góticos que perduravam as produções do gênero desde os sucessos de filmes de monstros e criaturas dos anos 30 e 40. É justamente a partir do sucesso de Halloween que a indústria volta seus olhos para toda a conjuntura social, política e cultural em que os Estados Unidos estavam mergulhados naquela época.

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Desta forma, a noite de terror protagonizada por Michael Myers surge como um produto de um país com orgulho ferido e tensões sociais elevadas. Recém saído de uma derrota na Guerra do Vietnã, governado por um presidente evangélico que falhava no comando de seu governo democrata (Jimmy Carter), além de passar por transformações sociais intensas devido ao movimento hippie e o fenômeno da contra-cultura, os EUA viviam dias de uma constante angústia e insegurança, projetadas na tela e sentidas pelo espectador.

No que diz respeito aos elementos cinematográficos, Halloween: A Noite do Terror é muitíssimo inspirado nos giallos, filmes italianos que apresentavam assassinatos sangrentos, compridas cenas de perseguição antes de uma morte de fato e mulheres sensuais, tudo com uma estética mais estilizada e exagerada, beirando até mesmo o gore. Assim, na virada da década, toda a simbologia que tratava das mudanças socioculturais promovidas pelos movimentos sociais ganharam representações por meio da juventude transgressora da década de 60. Com isso, após o impacto de Michael Myers, o Ciclo Slasher traz inúmeros maníacos e assassinos que representavam a figura patriarcal conservadora e responsável por punir os jovens. Não é atoa que a grande maioria dos longas consagrados nos anos 80, como Sexta-feira 13 (1980) e A Hora do Pesadelo (1984), reinterpretam as personagens femininas sexualizadas dos giallos para casais de jovens que cedem aos valores carnais, como o sexo e o uso de drogas, sendo eles os escolhidos a morrerem primeiro nas mãos de seus assassinos.

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Como resultado, o slasher se tornou a grande tendência da época e conseguiu revigorar o gênero em Hollywood, principalmente devido ao baixo custo de produção, o que garantia lucros exorbitantes para o estúdio e possibilidades de sequências da franquia (o que infelizmente, em sua maioria, se comprovaram desnecessárias). Assim como todos os ciclos bem demarcados do gênero de terror, o slasher também foi explorado até seus desgaste temático, narrativo e mercadológico, perdurando na memória dos aficionados por filmes de terror como um dos períodos mais produtivos do gênero no cinema e que, até hoje, influencia produções contemporâneas.

 

A Obra Prima de John Carpenter

Além de ser um marco na história do cinema e na cultura pop, Halloween também foi responsável pelo debut no cinema de Jamie Lee Curtis, que após o sucesso vivendo Laurie Strodes, iria se aventurar ainda em outros filmes do gênero como A Bruma Assassina, Baile de Formatura, O Trem do Terror, todos de 1980, e algumas das sequencias do filme que lhe deu o estrelado como Halloween II – O Pesadelo Continua (1981), Halloween H20: 20 Anos Depois (1998) e Halloween – Ressurreição (2002). Devido ao sucesso do personagem interpretado por ela na franquia Halloween e seus diversos papeis na área do terror, Jamie Lee Curtis acabou recebendo o título de “ultimate scream queen”, sendo homenageada e referenciada em outro filme do gênero, Pânico (1996), idealizado por Wes Craven.

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O diretor John Carpenter e a atriz Jamie Lee Curtis no set de filmagem de “Halloween”

Apresentando uma trama sinistra, que conseguia mesclar veracidade com uma angustiante sensação de sobrenatural, somos apresentados ao nosso vilão ainda bem pequeno, no ano de 1963. Já em um marcante plano sequência, o filme nos coloca na posição de testemunha ocular de um casal que se entrelaça de forma quente e intensa. Essa figura misteriosa, envolta na escuridão, vai até a cozinha, pega uma enorme faca, sobe as escadas e assassina uma garota. Ao final da cena, descobrimos que a vítima é Judith Myers – e o seu algoz era ninguém menos que seu irmão de seis anos de idade fantasiado de palhaço, Michael Myers.

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Passados 15 anos, na véspera de Halloween, nosso então vilão, já crescido e agora com 21 anos de idade, escapa do hospício que estava aprisionado desde aquela fatídica noite para retornar a Haddonfield e instaurar o terror naquela noite. Assim, acompanhamos o maníaco cometendo uma série de assassinatos que o estabelecem como a mítica figura que representa o “mais puro mal em sua forma”, em uma aparente construção de personagem que mata pelo prazer ou por um chamado oculto. Só em seguida que começa a perseguir a virgem pura Laurie Strode (Curtis) e suas amigas de comportamentos desviantes, carregando em seu encalço o Dr. Sam Loomis (Donald Pleasence), que enxerga no assassino a figura do próprio demônio e fará de tudo para prender o psicopata ou dar um fim de uma vez por todas nele.

O longa original se torna tão atemporal por diversos motivos e por vários méritos em sua produção. Primeiramente, a direção de John Carpenter é cirúrgica em como construir a atmosfera a partir do famoso feriado dos Estados Unidos, criando um clima de apreensão e potencialidade para o sobrenatural. O uso de planos mais longos e contínuos tornou a experiência em filmes de terror ainda mais amedrontadora, potencializando e estendendo a duração do anseio e do temor do espectador perante o que está por vir, ao mesmo tempo que constrói com perfeição a composição de cena e o que está por vir. Tais elementos são amplificados pela ótima montagem de Charles Bornstein e Tommy Lee Wallace, que ao mesmo tempo que brincam com a potencialidade enervante da sugestão, do jogo de antecipação, permitem que os planos longos e mais contemplativos tornem o clima da cidade de Haddonfield pacato e pacífico. Um palco perfeito para a hedionda presença de Michael Myers e seus atos nefastos.

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A construção de Myers é também impecável, não só pelo visual amedrontador com a máscara e pelo comportamento visceral do assassino, mas também pela ótima trilha sonora do filme que pela primeira vez assegurava uma canção tema para uma figura como o antagonista, e pelo ótimo trabalho de captação sonora da respiração de Nick Castle, responsável por uma atuação que exige muito da postura e de um gestual corporal imponente. É um trabalho coeso que vai desde a criação de um personagem antológico no roteiro, assinado por Carpenter em colaboração com Debra Hill, combinado a todos os outros elementos já citados, que fazem de Halloween: A Noite do Terror um marco tão importante na história do cinema e do gênero de terror.

 

40 Anos Cultivando o Mal

Passados 40 anos desde a estreia do clássico slasher, era de se esperar que a franquia ganharia uma sobrevida no atual contexto de uma Hollywood nostálgica e impulsionada por diversos remakes e reboots de sucesso. Apesar de o universo criado por Carpenter já ter sido explorado de diversas maneiras, nenhuma delas teve sucesso em alcançar um patamar minimamente próximo do que foi o longa original. Agora, sob o comando de David Gordon Green, Halloween retorna as telonas propondo um anunciado – até mesmo no roteiro do novo filme – descarte de todas as películas lançadas entre o filme original e essa atualização da história terrível de Laurie e Michael Myers.

A primeira vista já é possível perceber a consciência do roteiro de que, passados 40 anos desde o último encontro com aqueles personagens, existe toda uma carga emocional e um peso consequente dos acontecimentos na fatídica noite de assassinatos. Assim, somos apresentados a uma Laurie traumatizada, sofrida e que devido as profundas consequências psicológicas e emocionais que sofreu enquanto vítima, passa a viver uma vida reclusa e solitária de constante preparo para uma possível repetição daquela noite de terror. Quando Myers escapa de uma transferência de unidades de instalações criminais e volta a ficar livre, somos introduzidos a uma interessante possibilidade narrativa: o reencontro de uma Laurie, agora preparada e motivada por traumas e ódio, com a figura mítica, horripilante e agora potencializada depois de 40 anos sem matar, que o maníaco de Haddonfield se tornou.

O principal problema do novo Halloween é, ironicamente, a inconsistência de um roteiro que de forma contraditória sabe como explorar das suas maiores virtudes, mas ao mesmo tempo insiste em desenvolver elementos narrativos que não são interessantes e não agregam a construção de universo da produção. Os dois supostos jornalistas investigativos/produtores de podcasts, vividos por Rhian Rees e Jefferson Hall, não só são personagens irritantes que caem no clichê vazio de “personagens burros dos filmes de terror (ruins)”, mas também são claramente criados como meros artifícios narrativos preguiçosos para justificar como Michael Myers retoma sua máscara.

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O que garante fôlego à narrativa em seu primeiro ato é, justamente, a boa direção e domínio da câmera que David Gordon Green e o diretor de fotografia Michael Simmonds proporcionam. A forma como trabalham a figura do assassino nos espaços vazios e na profundidade de campo, ao mesmo tempo que quando o personagem entra no plano aparece sempre desfocado, recria o senso de perigo e misticismo envolta do assassino, ao mesmo tempo que agrega tons poéticos para a interpretação de que sem a sua máscara o próprio assassino ainda não está completo.

A partir do momento em que o roteiro decide focar a história na construção do reencontro entre Laurie e Myers, o longa cresce exponencialmente e passa a permitir que a carga dramática previamente existente entre essas personagens seja intensificada. Se por um lado acompanhamos o caminho sangrento e violento do assassino que o levarão ao clímax no terceiro ato, vemos o contraponto da relação “bicho-papão e vítima” que o filme constrói, acompanhando os efeitos emocionais e pessoais que a protagonista tem em seu dia a dia.

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Apesar de não ser bem desenvolvida, a dinâmica existente na família Strode acaba funcionando graças uma interessante atualização das representações de cada personagem. Enquanto Laurie é o resultado extremo dos efeitos amargos de uma vítima traumatizada, sua filha Karen (Judy Greer) é o produto de uma criação problemática e de uma relação materna pautada pelo medo, violência e métodos deturpados de demonstração de afeto. Por outro lado, a neta Alysson (Andi Matichak) é o contraponto de pureza que remete aos traços virginais da protagonista do longa de 78, funcionando como um elo com a avó não só pelas tentativas de um relacionamento propriamente conhecido, mas também como homenagem aos elementos narrativos cunhados no gênero pelo clássico de Carpenter.

É até mesmo curioso que durante o clímax a participação de Alysson seja tão marcante e participativa de uma forma em que a personagem não é desvirtuada ao papel de donzela em perigo ou de alvo de valor da protagonista. Ao não optar por transformar a neta em um meio de Myers tirar de Laurie tudo que lhe resta, o texto do longa solidifica as motivações da protagonista como as memórias passadas dos horrores vividos quarenta anos atrás, assegurando o verdadeiro peso a jornada da personagem. Todo esse amargor, raiva, tristeza e diversos outros sentimentos negativos que consomem a humanidade de Laurie são transmitidos com perfeição por Jamie Lee Curtis, que retorna para seu principal papel em sua carreira com autoridade. A atriz é imponente e um fenômeno natural em tela, assegurando toda a força, destemor e impetuosidade a avó.

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Como seu contraponto, Myers também é um fenômeno demoníaco em uma missão sangrenta pelas ruas da pacata Haddonfield, que não tem sua misteriosa e mística áurea atrapalhadas pelo irritante e descartável Dr. Sartain (Haluk Bilginer), graças ao ótimo trabalho de direção de arte e design de produção na recriação da máscara macabra do assassino, e também da direção de Gordon Green. Green é astuto e consciente na forma como trabalha a junção de planos longos, de mortes grotescas e também à sugestão de outros assassinatos que não são mostrados como marcadores da brutalidade de Michael. O comando da direção no clímax também precisa ser elogiado, devido à astúcia do diretor em subverter a posição Laurie e Myers de presa e caçador, fazendo jus à construção da personagem feminina, ao mesmo tempo que demonstra de novas maneiras à monstruosidade e esperteza do assassino para cometer suas atrocidades.

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Apesar de alguns deslizes de roteiro, principalmente nos excessos narrativos em cenas de humor desconsoantes com o tom geral adotado pela produção e em personagens facilmente descartáveis, que funcionam meramente como artifícios para mover a trama, Halloween não perde o seu impacto enquanto filme de terror que atualiza uma obra marcante. Apesar de não alcançar o sucesso do clássico de 78, o que de forma alguma é uma crítica a nova película, essa sequência na história de Laurie Strodes e Michael Myers traz novos conceitos e homenagens interessantes, que contribuem para tornar o legado de Halloween ainda mais marcante.


joão dicker

com 23 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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