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“Black Is King”: Quando a identidade assume o poder

[tempo de leitura: 5 minutos]

Ancestralidade, poder e busca por identidade convivem juntos em “Black is King”, o manifesto sonorizado de Beyoncé.


SSe você se sentir insignificante, é melhor pensar novamente / É melhor acordar / Porque você é parte de algo muito maior / Você é parte de algo muito maior”, assim começa o trecho inicial do novo álbum visual de Beyoncé. Nomeado Black is King, o material explora um experimento social, a partir da releitura da história de Simba, personagem central de O Rei Leão, baseado no exercício da imaginação que, com bases na diáspora do povo preto e de raízes africanas, os coloca em destaque para resgatar sua própria identidade e suas origens.

Ao longo dos 85 minutos, vários elementos compõem a narrativa do filme. Beyoncé vai da ancestralidade à moda, passando ainda pela arquitetura e, acima de tudo, a relação com o corpo – tudo isso a partir da perspectiva (e refletindo sobre a falta dela) do indivíduo africano e de raça negra.

A ideia de passado, presente e a representação do futuro ganham contornos políticos e revelam ao público de Black is King que além do poder estes sujeitos podem assumir o controle de suas trajetórias, mesmo que ainda totalmente apenas no material audiovisual.

 

BLACK IS KING

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Pôster do filme

Preto é rei”, o que te vem à cabeça ao se deparar com essa expressão? Conquista? Exagero? O novo álbum visual de Beyoncé, dirigido pela própria cantora e disponibilizado em formato de filme na plataforma Disney+, pode te provar que não. Usando a imaginação como ferramenta a artista projeta, a partir da jornada de Simba, um menino negro que parte em busca de sua identidade após a morte do pai, a necessidade de todo um povo que chega ao século XXI com a sua individualidade ainda forjada e banalizada por outros que insistem em tentar desconstruí-la.

Ao assistir Black is King, as pessoas negras são levadas, junto de Simba e como ele, a enfrentarem as adversidades e recuperarem também suas identidades e tradições, fortalecendo a ligação com o próprio corpo, considerado meio de conexão, os rituais e manifestações culturais próprios de seus semelhantes. Ainda, visitam um futuro em que estão, finalmente, em evidência, ocupando espaços de liderança enquanto levam consigo seus valores e modos de viver para assumir a história tantas vezes contada por outros, isto é, pessoas brancas que não entendem suas vivências.

A investida audiovisual é ousada, importante e necessária para o momento em que a causa racial vem ultrapassando a discussão de cor apenas, e abre possibilidades de ver o mundo, as representações ficcionais de futuro e a expressão do eu a partir de perspectivas até então repreendidas, invisibilizadas e pouco compreendidas efetivamente.

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AFROFUTURISMO
Afrofuturismo é a estética que questiona o presente e projeta o futuro a partir da perspectiva negra africana e diaspórica.

Black is King conta ainda com artistas negros influentes como Pharrell Williams,Naomi Campbell, Kelly Rowland e Lupita Nyong’o que, com seus corpos e mostrando suas habilidades, contribuem para compor um manifesto à beleza negra, seja em forma de debutantes, dançarinos e até mesmo um coral negro que canta a plenos pulmões, como se finalmente tivessem alcançado sua plenitude: “Seu destino está chegando / Levante-se e lute / Então, vá para aquela terra distante / E seja aquele com o grande “eu sou”, “eu sou” / Um menino se torna um homem”.

O filme é forte e, enquanto dedicado à ancestralidade e aos filhos da cantora, lida com os desafios da população negra-africana de forma tocante, trazendo para o vasto público da cultura pop o ambiente onde suas manifestações culturais, corporais, sociais, emocionais e políticas são valorizadas e legítimas.

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Na imagem é possível ver personalidades como Kelly Rowland e Lupita Nyong’o, além de Beyoncé e Blue Ivy

Fato é que o começo e o fim da obra são marcados pelo nascimento, reforçando a ideia do ciclo da vida abordada inicialmente em O Rei Leão e a esperança de um recomeço. Assim, evidencia-se a percepção de que somos meio e não início e final de uma caminhada em constante movimento e transformação, agentes em um mundo onde os verdadeiros líderes são reis e rainhas negros africanos. Eis a reinvenção da história.

 

EXPERIÊNCIA VISUAL

Tudo em Black is King tem um significado e com a estética não seria diferente. Beyoncé coloca corpos negros em mansões, salões projetados a partir do ideal europeu de organização e exibe durante as quase 1h30 de vídeo diversos elementos visuais que ajudam a contar a história e transmitir a mensagem.

Símbolos étnicos, referências à animais e natureza, materiais artesanais e até a estampa de onça, apropriada para o popular como animal print, ganham visibilidade e assumem o plano, ora na própria Beyoncé, ora nos dançarinos e demais profissionais que estruturam as cenas e trechos de videoclipes.

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A artista, de certa forma, subverte o conceito ocidental de beleza e elegância e traz aspectos da cultura negra africana junto ao brilho, óculos e itens comumente usados pela classe alta e branca. Nesse ponto há uma glamourização dessa cultura, mas que revela uma questão interessante: Beyoncé aproveita de sua influência como personalidade global para tocar na questão racial através da ancestralidade, aspecto ausente no imaginário coletivo e discurso popular.

Dessa forma, com Black is King, atinge-se um público diverso e mais, ela toma essa atitude tendo consciência do seu atual lugar de fala, ou seja, uma mulher negra pertencente a classe alta com acesso a certos privilégios que muitas e muitos como ela não tem e por isso é uma oportunidade de levar conhecimento em maior projeção.

Nesse contexto, a obra faz sentido com todo o trabalho feito por Beyoncé até aqui que, após falar sobre o corpo, a beleza, o casamento em álbuns anteriores e abordar a questão racial mais fortemente no último disco lançado, Lemonade (2016), dá mais um passo nessa direção ao relançar o álbum The Lion King: The Gift, divulgado junto ao live-action de O Rei Leão (2019) com ainda mais camadas de significado, fazendo até mesmo o que o lançamento do ano passado prometeu, mas não entregou.

Black is King é um convite a repensar o passado, refletir o presente e imaginar um novo futuro em que o povo preto são seja apenas visto pela cor mas sim por toda a construção simbólica e humana que tem muito a nos ensinar. Ao terminar sabemos que rei não é sobre poder apenas, mas sim sobre reconhecimento e o prazer de ser por completo, mesmo que para isso o presente não dê conta de tamanha potência.

Mike Faria

mike faria

Conectado com a potência das narrativas e a sensibilidade social encontrou no Jornalismo o melhor lugar para se expressar, junto a prática de natação nas horas vagas e as distopias para lidar com a realidade.

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