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O balanço final da saga “365 dias”

[tempo de leitura: 4 minutos]

Com o encerramento da franquia na Netflix, o universo de “365 Dias” tem um desfecho tão horroroso quanto o atraso da sociedade que retrata.


Nota do Colab: este texto contém spoilers.

 

AA obra de Blanka Lipinska ganhou adaptação dos livros para as telas e muito me questionei sobre quem é esse público de 365 Dias. O primeiro filme, lançado em 2012, fez sucesso pelas grandes coreografias de sexo, drones e uma trilha sonora fina e rebuscada — ingredientes que fazem o longa ser o delírio dos assinantes da Netflix.

 

Capítulo 1

Na primeira parte da obra, conhecemos Laura (Anna-Maria Sieklucka), uma mulher que vive um casamento infeliz sem prazer e com um marido que pouco dá atenção. Do outro lado, temos Massimo (Michele Morrone), um traficante que tem seu pai assassinado e que, em uma visão, vê Laura. O ponto de partida se dá quando Massimo manda sequestrar Laura em outro país e a obriga a se apaixonar por ela .

Tudo aqui é bem questionável. O fato de Massimo cismar com Laura e a obrigar já caracteriza isso como um relacionamento abusivo, controlando ela desde suas roupas até a forma de andar. No primeiro momento, a mulher parece assustada mas depois ela consegue se soltar e acaba cedendo aos encantos de Massimo. O mais louco disso tudo é que Laura, ao se apaixonar, ignora todo o perigo que corre  — inclusive, no final do primeiro longa fica em aberto que ela pode ter morrido.

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Capítulo 2

Já na segunda parte, 365 Dias: Hoje, o longa ignora tudo o que foi feito no primeiro filme e Laura já está vestida de noiva pronta para casar com Massimo. Agora, a protagonista começa a pensar em trabalhar com algo, como um ateliê, e desenvolver suas próprias roupas. Mas o protagonista masculino é tão abusivo que não concorda com isso e, para compensar, usa o sexo como moeda de troca para controlar a personagem de Anna-Maria Sieklucka e colocá-la em papel de submissão.

Como se não bastasse as dificuldades do casamento, o roteiro (ou falta dele) faz com que um irmão gêmeo do mal de Massimo, Adriano, vá para a cama com uma mulher, fazendo com que Laura entenda como um flagrante de traição do seu marido. Isso é motivo para ela afastar dele, levando-a a conhecer Nacho, um jardineiro que também é traficante. Mais cenas de sexo são colocadas e uma música aleatória para preencher o vazio da relação.

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Nessa segunda parte da franquia de 365 Dias tudo é muito vazio. Os textos são rasos e as cenas de sexo são apenas por colocar. Destaco, por exemplo, a cena do campo de golfe: tudo é um estilo erótico quase pornográfico, em que subjulga-se o papel da mulher, hipersexualizando a figura feminina. E, para variar, Laura entra em uma briga de gangue com Mássimo Nacho contra Adriano. Mas quem sai ferida é Laura e mais uma vez “morre” — só que não.

 

Capítulo 3

365 Dias: Finais continua não respondendo como Laura saiu viva da briga de gangue. A tentativa de desenvolver o relacionamento conturbado de Laura e Massimo continua em baixa, agora com o famoso traficante descobrindo que ela perdeu o filho e a culpando. Além disso, Laura agora vive um conflito entre escolher o homem com quem casou ou Nacho, o jardineiro que parece ser compreensivo e “do bem”.

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O terceiro longa consegue maneirar nas cenas de sexo mas ainda coloca a personagem de Sieklucka como a ninfomaníaca da história, dando uma falsa ideia de seu “emponderamento” e habilidade de tomar as rédeas da própria vida, de trabalhar com o que gosta e conseguir contratos com sua loja de vestidos. Mas tudo ainda continua na esfera superficial. No grosso de todo conteúdo, só temos cenas de sexo que tentam ser inovadoras, trilha sonora e cenas de drone no meio de muito luxo — mas que, no fundo, tudo se faz mais raso que um pires.

 

365 Problemas

O mais grave da trilogia 365 Dias é que faz todo o público assumir uma cara de palhaço. O final que esperamos é Laura decidir com quem vai ficar (apesar de não ser homens que valham alguma coisa) e o que acontece na prática é apenas Laura e Nacho se olhando em um texto bonito — mas não há tomada de decisões.

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Posso afirmar com toda certeza que a direção de duas pessoas (Barbara Bialowas e Tomasz Mandes) são completamente covarde com o público. Se até em Crepúsculo a escritora e os roteiristas deram um fim e uma escolha para Bella, que estava no impasse entre Edward ou Jacob, aqui não há preocupação em fechar o ciclo. Pelo contrário: abre mais questões na cabeça do telespectador, sendo vergonhoso e de extremo mal gosto para o telespectador. Dentro de um filme, o mínimo que esperamos é que os personagens evoluam e passem de um ponto A ao B, e aqui tudo é muito desconexo e nada evolui ou sai do lugar.

A franquia 365 Dias é um completo atentado ao “fazer cinema” e principalmente ao público que o consomem. No geral, vemos uma grande passada de pano em relacionamentos abusivos em homens sem moral ou caráter e mulheres extremamente subjugadas e hipersexualizadas. No resumo, tudo é como um: “Tudo bem se você tiver um relacionamento abusivo com um homem gato, afinal ele te dá TUDO mesmo“. Sendo uma visão muito tóxica, isso só reforça que estamos em uma sociedade machista e muito atrasada. Fica a reflexão a quem consome de fato e o que absorve desse tipo de conteúdo.

É Fotógrafo freelancer, formado em Jornalismo pela PUC Minas e se descobriu Crítico no meio de uma pandemia. Apaixonado por animações Disney, sonha em ir para os parques de Orlando.

Ainda, é noveleiro de tramas boas enquanto tenta se redescobrir no mundo do Cinema e da TV — e como o audiovisual pode proporcionar a experiência humana.

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