A inocência infantil como forma de alienação

A Inocência Infantil Como Forma De Alienação
[tempo de leitura: 4 minutos]

“Jojo Rabbit” equilibra sátira e sensibilidade para falar sobre temas contemporâneos e a necessidade de empatia no mundo atual.


AAo longo de sua filmografia, Taika Waititi tem consolidado seu nome como um cineasta autoral que gosta de equilibrar um humor ácido e satírico à sensibilidade para abordar os temas que permitem comentários políticos e sociais. Em Jojo Rabbit, seu mais novo longa, Waititi propõe um olhar inocente e pueril sobre o nazismo, sem em nenhum momento perder de vista a responsabilidade que tem em mãos para criticar e desconstruir a alienação de uma ideologia repugnante que volta a assombrar o mundo contemporâneo.

Adaptando o livro Caging Skies de Christine Leunens, Waititi assina o roteiro que apresenta na trama a vida de Jojo Betzler (Roman Griffin Davis), uma criança de 10 anos que vive na Alemanha hitlerista com sua mãe Rosie (Scarlett Johansson). Buscando seguir os passos do pai, que não está presente porque foi lutar na guerra, o pequeno Jojo participa de um acampamento infantil de escoteiros nazistas, o que continua a alimentar sua idolatria por Hitler – que não só é o Führer, mas também seu amigo imaginário. Quando o garoto descobre que sua mãe tem ajudado uma jovem sobrevivente judia, escondendo-a nas paredes de sua própria casa, a vida de Jojo se transforma em um processo de desconstrução de toda a alienação ao discurso e vivência nazista a qual sempre fez parte e que, até então, fazia parte dele próprio.

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Pôster nacional

Desta premissa, o diretor propõe inicialmente uma inocente sátira ao redor dos absurdos que a ideologia nazista prega, mostrando que para uma criança acreditar é necessário criar um verdadeiro folclore sobre como os judeus são vistos como monstros com chifres e características bestiais. Contudo, na medida em que o longa progride, Waititi aprofunda a abordagem ao colocar a inocente criança protagonista em uma espiral de situações que a fazem perceber como tudo o que conhecia como regra e visão de mundo, é totalmente deturpado.

O interessante é perceber como essa desconstrução é feita não só nas vivências de Jojo e, consequentemente, no que é apresentado na trama, mas também nos aspectos visuais de Jojo Rabbit. Começando a projeção com tons coloridos e uma estética que constrói um olhar glamourizado e lúdico para o pensamento nazista, no decorrer do filme esses tons vão se acinzentando para uma realidade mais sóbria, realista e consciente do que está acontecendo naquele contexto. É um trabalho alinhado da cinematografia de Mihai Malaimare Jr. e do design de produção de Ra Vincent, que dão vida a proposta discursiva que Waititi.

Neste retrato infantilizado e pueril da realidade, o diretor permite que seus atores abracem atuações mais afetadas e caricatas, não só exagerando em sotaques e trejeitos que também agregam a comicidade do longa, mas também na maneira como os momentos em que são mais sérios e dramáticos agregam peso a demonstração de responsabilidade que o cineasta traz a abordagem. Ele, inclusive, é quem interpreta Adolf Hitler com todas as afetações possíveis, ridicularizando a uma instância em que uma criança conseguiria imagina-lo em sua cabeça, mas que com algum olhar mais maduro e consciente, torna-se clara o quanto seus posicionamentos e comportamentos são condenáveis.

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Sam Rockwell, Scarlett Johansson e Roman Griffin Davis / (Foto: Larry Horricks)

Dentre o elenco de Jojo Rabbit, Sam Rockwell vive o carismático Capitão Klenzendorf, em outro personagem de potencial cômico e satírico, mas que ganha novas facetas com a interpretação de Rockwell – é perceptível os desvios de olhares e o peso com que o ator entrega suas falas, não só por serem coisas horrendas e sim por serem direcionadas à crianças. Scarlett Johansson vive a mãe de Jojo com ternura, carinho e preocupação com o extremismo cego que seu filho demonstra ter em admiração pelo líder nazista, ao passo que também se dedica profundamente a encontrar formas de desenvolver a sensibilidade do garoto para o mundo que o cerca e, principalmente, as diferenças existentes nele.

O grande destaque é o ator mirim que protagoniza toda essa história. Roman Griffin Davis vive um personagem dócil, ingênuo e que guarda uma raiva nutrida pela odiosa ideologia que foi alienado a acreditar. Na medida que Jojo vai se desconstruindo, o pequeno ator trabalha a mudança no olhar como algo literal, quase que de deslumbramento com um novo mundo que Jojo descobre. Se no começo seu olhar era marcado pela raiva e agressividade, ele muda para um semblante de contemplação e empatia para, no final, carregar uma marejo de quem entendeu a dor e o peso do outro e, de alguma forma, se identificou.

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Taika Waititi e Roman Griffin Davis

É verdade que a escolha por uma representação cômica, mesmo que em tom de sátira, ao nazismo e a figura de Hitler sejam abordagens perigosas no mundo extremista, polarizado e deturpador de mensagens em era da pós-verdade como o de hoje. Porém Taika Waititi controla com segurança e clareza o que se propõe a dizer e a criticar, sem dar brechas para segundas interpretações. O que fica em Jojo Rabbit é a sensação pueril de uma criança que olha o mundo ao seu redor – que nas mãos de Waititi ganham uma profundidade satírica e ácida do mundo adulto, sem perder a sensibilidade para encontrarmos a empatia pelo próximo no caminho.

João Dicker

joão dicker

com 23 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas. é o Editor de Conteúdo da ZINT, um apaixonado por Cinema, Futebol e Gastronomia. trabalha como assessor de imprensa na A Dupla Informação, especializada em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade.

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