Crítica / “Adoráveis Mulheres”

Crítica / “Adoráveis Mulheres”
[tempo de leitura: 4 minutos]

“Existem algumas naturezas muito nobres para serem contidas e muito elevadas para serem curvadas” diz Mary March, matriarca vivida por Laura Dern em um momento terno e muito tocante dividido com sua filha Jo, protagonista vivida por Saoirse Ronan em Adoráveis Mulheres, nova obra da grande diretora Greta Gerwig. Escolho esta frase como ponto de partida para este texto porque, para mim, trata-se de um filme sobre a recusa de ser outra coisa além do que se é, em essência. Uma ode ao compromisso com a sua própria verdade e aspirações, apesar das pressões sociais, familiares, profissionais e matrimoniais que sofria uma mulher na sociedade americana pós Primeira Guerra (naquela época e nessa, também).

O filme começa acompanhando Jo March em uma tentativa de vender um conto de sua autoria para ser publicado na coluna de um jornal da cidade de Nova York. O editor, homem, folheia os papéis entregues pela jovem com certo desdém, corta páginas inteiras com sua caneta e ao fim da leitura, implica diversas mudanças na narrativa para que seja mais comercial. A cena funciona como um prelúdio para o que está por vir – o retrato de um contexto social no qual homens estabelecem as regras, determinam o certo e o errado e cabe às figuras femininas a obrigação da obediência e do enquadramento em tais imposições.

Sob a luz (ou a sombra) desse cenário, somos gradativamente apresentados às outras três irmãs – Meg (Emma Watson), Amy (Florence Pugh) e Beth (Eliza Scanlen). Apesar da nítida relação de proximidade entre as jovens, é interessante ver o trabalho de Gerwig como roteirista e diretora para criar um universo ímpar para cada uma, traçando por meio de nuances e sutilezas a personalidade forte e diferente de cada uma, ainda que doces e ingênuas. No recorte destinado à personagem de Florence Pugh, somos introduzidos também a Laurie, vivido por Timothée Chalamet, jovem rapaz que viveu a infância na casa à frente da família March e nutriu uma relação próxima com as irmãs.

A partir da aparição da figura de Laurie, que representa uma ligação direta com a história dessas moças, é que o grande feito da obra começa a se desenrolar – amparado por uma elegante montagem executada por Nick Houy, editor que também trabalhou com Greta Gerwig em Lady Bird (2017), o filme se desenvolve a partir de paralelos entre o passado, retratando a infância das irmãs, a vida doméstica sob os cuidados da mãe e o presente, após a vida de cada jovem tomar outros rumos.

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As sinalizações gráficas indicativas de passagem de tempo se tornam totalmente dispensáveis diante da brilhante aliança entre montagem e design de produção: os espaços ocupados pela família March são ressignificados através do uso marcante de paletas de cores e composição de cena distintas para indicar essa elipse narrativa. O tratamento quente que traz sensação de aconchego e acolhimento aos ambientes e as cores vibrantes dos figurinos que retratam o passado dão lugar a um espaço esvaziado, quase frívolo, permeado por tons dessaturados e frios no presente. Destaca-se aqui também o trabalho excepcional e extremamente seguro da diretora, que transforma incrivelmente a energia das personagens e o tom das cenas no trânsito entre as linhas temporais retratadas.

Adoráveis Mulheres é um filme que acontece nas entrelinhas e sutilezas. Apesar de toda submissão imposta às mulheres da época e das muitas regras a serem seguidas para serem socialmente aceitas e bem vistas, é lindo ver o que acontece em cenas que as figuras femininas da família March estão reunidas. Existe uma energia borbulhante e efusiva quando as cinco personagens estão em cena, nada comedida, numa dinâmica eletrizante e um intenso senso de cuidado e amor. Além disso, é no lugar seguro da convivência entre elas que essas mulheres se revelam verdadeiramente, para além daquilo que elas precisam aparentar ser – sonham alto, sentem raiva, ira, se divertem com brincadeiras tidas como pouco femininas, perdem a compostura doce e delicada que as era imposta e sentem que podem, finalmente, imaginar qualquer destino possível.

Apesar disso, o roteiro fortemente amparado por nuances acaba pecando em alguns momentos, perdendo a oportunidade de explorar de maneira mais profunda ramificações fundamentais da narrativa para o ponto central do filme. Isso, no entanto, não é grande problema diante do trabalho majestoso dos aspectos técnicos de fotografia, direção de arte, direção, do trabalho de adaptação tão cuidadoso e atualizado e da belíssima entrega de atuações maravilhosas do elenco.

Ainda sobre atuação, destaco a deliciosa, carismática e espirituosa performance de Saoirse Ronan. A protagonista possui uma energia pulsante e os olhos do espectador são, inevitavelmente, hipnotizados pela perspicácia, bom humor, honestidade, rebeldia, inteligência e audácia da personagem. Uma das maiores marcas da elipse narrativa que esqueleta a obra é, inclusive, o comportamento de Jo – antes, ingênua, sonhadora, temperamental e depois, madura, zelosa, com um grande senso de responsabilidade. Ainda que o discernimento e a prudência a tenham alcançado na vida adulta, as entrelinhas muito bem escritas não deixam mentir – a essência irreverente permanece.

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Apesar de alguns poucos deslizes, Adoráveis Mulheres é a consagração de um cinema de autoria de alto nível, assinado por uma artista absolutamente sensível, de forte personalidade e disposta a discutir questões incômodas porém fundamentais à existência e resistência feminina nos tempos atuais (e em outros também). É que, de fato, existem mesmo algumas naturezas muito nobres para serem contidas. Greta Gerwig é absolutamente necessária.

Raquel Almeida

raquel almeida

sempre atenta aos pequenos detalhes de todas as coisas. mineira, 24 anos, formada em Comunicação e fã de Cinema pop.

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