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Conflitos e angústias adolescentes em tons de neon

[tempo de leitura: 6 minutos]

“Euphoria” faz um retrato vibrante, energético, profundo e preciso da vivência estimulante da juventude contemporânea.


Nota da Colab: este texto contém spoilers.

 

CConflitos e situações vividas por adolescentes no Ensino Médio são temas que aparecem com frequência nas séries de televisão. As angústias, descobertas, experiências sexuais e o uso de álcool e drogas não são novidade. O seriado Skins, por exemplo, foi lançado em 2007, e retratou tudo isso seguindo os aspectos sociais e culturais de sua época e de sua sociedade britânica.

Dentre as produções do gênero, não se pode contar com novos assuntos. Por isso, o que consegue chamar a atenção é a maneira de abordar e o quê de diferente a série terá. Euphoria (2019–), da HBO, traz esse retrato da juventude e incrementa com uma trilha sonora vibrante, construção da narrativa e maquiagens lúdicas e chamativas. Até mesmo quem não assistiu a série entendeu o conceito das “maquiagens de Euphoria”, que lançou tendências no universo da beleza.

 

pontapé narrativo

A protagonista de Euphoria é Rue (Zendaya), uma adolescente recém saída da reabilitação e que não tem o menor interesse em largar os vícios. Desde pequena, foi considerada como uma “criança problemática” e diagnosticada com uma série de transtornos mentais. A adolescente leva uma vida relativamente solitária, sem ter intimidade com ninguém – dinâmica que muda com a chegada de Jules (Hunter Schafer), uma garota nova da escola. A personagem é transexual e, ainda bem, uma atriz trans foi escalada para interpretá-la. Para conseguir criar uma personagem real e com a profundidade e delicadeza certas, o criador, Sam Levinson, contou com a ajuda de Hunter para compor o roteiro com experiências pessoais.

Outros personagens do convívio de Rue e Jules também ganham destaque ao longo da narrativa. Nate (Jacob Elordi), pela influência dos filmes pornográficos que encontra no escritório de seu pai, enxerga o sexo como algo extremamente violento e direciona isso ao seu relacionamento com Maddy (Alexa Demie), que não consegue enxergar o namorado como abusivo e agressivo.

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Rue, personagem de Zendaya

Cassie (Sydney Sweeney) é constantemente julgada na escola pelas relações sexuais que teve no passado. Sua imagem é socialmente difamada pela divulgação de fotos e vídeos sexuais dela, mas nota-se que nenhum dos responsáveis por isso sofre qualquer consequência.

Kat (Barbie Ferreira) é famosa na internet pelas suas fanfics eróticas, mas não tem a mesma popularidade na sua “vida real”, onde é excluída e ridicularizada pelo seu peso. Para mudar a reputação, Kat embarca em uma jornada de construir uma nova imagem. Ela muda o visual e se torna uma pessoa mais autoconfiante, passando a atrair atenção masculina e iniciando suas descobertas sexuais.

 

estreia neon

Ao longo dos episódios, a narrativa de Euphoria não se mantém cronológica, alternando entre a linha temporal atual e a infância de seus personagens. Isso permite que o espectador consiga compreender melhor o que aconteceu no passado que moldou quem cada um deles é hoje. Toda a história tem um grande aprofundamento e traz uma carga emocional pesada, mostrando traumas e conflitos. Certamente não é para quem gosta de assistir séries leves.

Euphoria é uma série intensa. O roteiro prende o público com temas sérios, porém abordados com a delicadeza necessária, sem que nada seja romantizado. Os detalhes sonoros e visuais complementam a história e combinam com cada momento, dando a carga emocional que cada cena pede.

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Jules, personagem de Hunter Schafer, e Rue

Por ser narrada majoritariamente por Rue, que raramente está sóbria, não sabemos ao certo a veracidade dos fatos ou a ordem dos acontecimentos. A perspectiva da protagonista não garante que a história tenha sido daquela forma, então é interessante ter isso em mente ao assistir. O último episódio da primeira temporada tem seu final incerto e não é possível descobrir qual futuro que a personagem de Zendaya aguarda.

Embora a segunda temporada tenha sido confirmada, suas gravações foram adiadas pela pandemia. Para conseguir diminuir um pouco a ansiedade do público, foram lançados dois episódios especiais que mostram um possível caminho em que a série seguirá no novo ano.

 

episódios especiais

o lado de RUE

 O primeiro episódio especial de Euphoria, intitulado Trouble Don’t Last Always (“Os Problemas Não Duram Para Sempre”, em tradução livre) foi lançado no início de dezembro e traz apenas dois personagens: Rue e seu padrinho de reabilitação, Ali (Colman Domingo).

A trama é uma sequência do que aconteceu ao final do último episódio, quando Rue tem uma recaída e Jules vai embora. É véspera de Natal e a protagonista se encontra com Ali em um restaurante. Mesmo antes da conversa iniciar, percebe-se que Rue está fragilizada e cheia de medos.

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O episódio de Euphoria tem mais de 50 minutos só de diálogo entre Rue e Ali. As cores vibrantes, trilha sonora envolvente e transições rápidas são deixadas de lado e o ambiente muda completamente. Bem mais sombrio, triste e melancólico, ele mostra o vício em outra perspectiva. Enquanto a primeira temporada era marcada pelo agito e tons coloridos, neste capítulo não vemos um narrador principal e enxergamos melhor os impactos emocionais causados pela dependência química.

A conversa dos personagens é bem honesta, com ambos se abrindo e falando verdades sem hesitar. Ali conta todo o caminho que percorreu, entre reabilitações e recaídas, e como suas escolhas do passado ainda afetam sua vida, por mais que esteja sóbrio. Em contrapartida, Rue admite que não quer ficar sóbria e que não pode culpar sua mãe, Jules ou qualquer outra pessoa pelo seu vício, pois percebeu que a responsabilidade é toda dela.

A dupla discute religião, luto, inseguranças, medos e questões sociais. Em nenhum momento Ali julga Rue pelas suas escolhas e posicionamentos, e ainda afirma para a protagonista que ela não é uma má pessoa e que o vício é algo maior do que ela pode controlar.

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Por mais que eles tenham opiniões diferentes sobre vários assuntos, principalmente pela existência ou não de Deus, toda a conversa é de muito respeito e, mesmo que intensa, não soa como uma briga. Os discursos de Ali são muito fortes e necessários, principalmente quando ele fala que o vício é uma doença, mas as pessoas não o tratam como se fosse.

Ao final, vemos uma protagonista que ainda tem medo do futuro e carrega muitas dores consigo. Não é necessário que ela diga nada, pois seu semblante e corpo encolhido conseguem expressar sua dor bem mais que palavras. São cenas assim que deixam mais do que claro como o Emmy de Melhor Atriz de Série Dramática, em 2020, foi um prêmio mais do que merecido para Zendaya.

 

o lado de jules

Em janeiro de 2021, Euphoria apresentou ao mundo a versão de Jules sobre a separação, também na forma de um longo diálogo – aqui, da personagem com sua terapeuta (interpretada por Lauren Weedman). O episódio Fuck Anyone Who’s Not a Sea Blob (“Foda-se Quem Não é Uma Bolha do Mar“, em tradução livre) foi escrito por Hunter e o produtor Levinson, e tem seu título inspirado em um poema escrito pela atriz.

Durante a conversa, Jules mostra um lado bem mais frágil e vulnerável. Ela se despe de todas as camadas e barreiras que construiu para se proteger, e consegue perceber a origem de vários conflitos internos.

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O episódio tem flashbacks de sua infância, quando ficou internada em uma clínica psiquiátrica, além das conversas que tinha em aplicativos de relacionamento, experiências sexuais e os momentos que passou com Rue.

Ela demora muito a querer falar sobre seu relacionamento com a personagem de Zendaya, principalmente por ter ficado como a vilã que a abandonou ao final da temporada. Aos poucos, ela consegue contar sua versão da história e descrever tudo o que sentia por Rue. Sua relação com a mãe também entra na trama e, com a ajuda da terapeuta, ela consegue se abrir e compreender vários sentimentos.

Enquanto Trouble Don’t Last Always mostra raiva, a cerne de Fuck Anyone Who’s Not a Sea Blob é a agonia. Os diálogos desde episódio especial de Euphoria são carregados de muita angústia e retratam o desejo por uma performance feminina para atrair homens e conseguir a aprovação das mulheres, medos sobre o futuro, responsabilidades, projeções e paixões. Com a voz extremamente carregada de agonia, os relatos são doloridos e conseguem aprofundar na personagem e entender alguns comportamentos.

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PRÉ-SEGUNDA TEMPORADA

Mesmo com dois novos episódios, não é possível prever como o relacionamento das duas protagonistas de Euphoria estará na próxima temporada.

Porém, um capítulo de cada lado da história demonstra que não há vítimas e vilões, e não é necessário partir para extremismos e definir quem está certo e quem está errado. As vivências, personalidades e sentimentos de cada uma afetaram suas atitudes e revelam que nem sempre é possível agir com razão.

deborah almeida

mineira, jornalista e feminista. viciada em filmes adolescentes e de terror, amante de seriados e enaltecedora das divas pop. tanto 8 quanto 80, apaixonada por palavras, colecionadora de cartão postal e louca dos tsurus de origami.

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