A melhor má reputação

A Melhor Má Reputação
[tempo de leitura: 4 minutos]

“Taylor Swift Reputation Stadium Tour” mostra a grandiosidade da turnê mais rentável de uma artista feminina na última década, em um registro de duas horas.


“E na morte de sua reputação, ela se sentiu verdadeiramente viva”. O trecho de Why She Disappeared aparece no telão para finalizar o show de uma das turnês mais lucrativas dos últimos tempos – a mais rentável de uma artista feminina na última década. O registro de Taylor Swift Reputation Stadium Tour, que dá suporte ao álbum reputation. e foi gravado em Dallas (Texas), chegou à Netflix no último dia de 2018 e logo alcançou o topo dos assuntos mais comentados no Twitter mundial.

A frase que encerra o show representa muito bem a mensagem que a cantora norte-americana procura passar com seu mais recente trabalho. Em um momento de conversa com o público, Taylor Swift desabafa:

“Se eu tivesse que chutar e adivinhar a única coisa que todos aqui têm em comum, eu diria que todos gostamos de encontrar algo genuíno. Como uma amizade genuína, um amor genuíno ou alguém que realmente nos entenda. Acho que o que mais nos assusta é o que ameaça a nossa chance de encontrar algo genuíno. É por isso que temos tanto medo de uma má reputação. Porque tememos que um boato, uma fofoca ou um apelido maldoso nos atrapalhe nessa busca . Quando se trata desse medo e dessa ansiedade, é delicado, não é, Texas?”.

A plateia responde com enorme fervor. A câmera, nesse momento, foca no rosto de uma garota que chora. Em seguida, Taylor apresenta Delicate.

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Os comentários que aparecem para o público logo no começo da produção (“pelo menos 13 famosos não gostam dela”, “Taylor Swift guarda muito rancor”, “ela se faz de vítima o tempo inteiro”) e a presença constante de “cobras” no palco e também no figurino da artista, ilustram a maneira que a cantora abraça, ao mesmo tempo em que ironiza e critica, a sua má fama. Durante a turnê, Swift se esquivou de polêmicas e demonstrou amadurecimento quando, em Boston, convidou a cantora Hayley Kiyoko para se apresentar. Semanas antes, Kiyoko havia dado uma entrevista para a Refinery 29 em que falou sobre o preconceito que sofre na indústria por ser uma cantora lésbica.

“Muitos executivos me disseram, ‘mais uma música sobre garotas?’. Eu respondi: ‘Bom, a Taylor Swift está aí sempre compondo sobre homens e ninguém reclama que ela não é original’. Taylor replicou nas redes sociais: “Não podemos ignorar o fato de que ela enfrenta a homofobia e eu nunca me deparei com isso. Hayley tem todo o direito de fazer essa comparação”.

O que poderia ter sido mais uma das “tretas” que a internet adora, acabou se tornando uma colaboração incrível. Juntas, as duas performaram a icônica canção Curious.

2018 também foi o ano em que a artista (finalmente) se posicionou politicamente. Em um post no InstagramTaylor se manifestou contra a candidata ao Senado Marsha Blackburn, apoiada por Trump, e fez críticas ao racismo “aterrador e doentio” dos EUA. “Darei sempre o meu voto ao candidato que proteger e lutar pelos direitos humanos”, escreveu. Quem acompanha a carreira da artista sabe que o posicionamento veio em um momento importante, já que alguns membros da extrema-direita norte-americana a elegeram, sem seu aval, como uma representante do interesses conservadores. Ela chegou a ganhar o apelido horroroso de “deusa ariana”. Representantes da artista fizeram de tudo pra impedir esse meme de circular na internet – aparentemente, a “brincadeira” se iniciou quando uma adolescente começou a colocar citações de Hitler em fotografias de Swift no Pinterest. A imagem da cantora, loira de olhos claros, e sua relação com o Country foram motivos que justificaram (entre muitas aspas) essa associação que os conservadores fizeram. Sim, eles são assim em qualquer lugar do mundo.

 

Reputation em Dallas

No registro disponibilizado pela Netflix, o diretor Paul Dugdale faz um trabalho eficiente em representar a grandiosidade do show. A câmera viaja por todos os cantos do estádio e consegue capturar  a imensa empolgação do igualmente imenso público, sem deixar nenhum momento das mais de duas horas de show entediante. Dugdale foi responsável também pela filmagem da turnês The Rolling Stones Olé Olé Olé!: A Trip Across Latin America (2016) e Paul McCartney Live at The Cavern Club 2018 (2018).

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A participação de Camila Cabello e Charlie XCX em Shake it Off garante um dos melhores momentos do show. A rápida aparição das duas realmente dá um gosto de “quero mais”, mas a presença de Taylor é forte o suficiente para segurar as duas horas de apresentação. A artista faz questão de interagir com o público em diferentes momentos e se mostra lisonjeada quando a plateia canta suas letras a plenos pulmões.

Ao longo de sua trajetória musical, Taylor criou um universo de símbolos que a representam. Seu amor por gatos, sua conexão com o número 13, sua fama de “cobra”. Todos esses elementos estão presentes não só no palco, mas também na plateia. Não é difícil encontrar fãs como o número 13 pintado nas mãos ou com cartazes com fotos de Olivia, a gatinha icônica de Taylor.

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Quando, no meio do show, a cantora resolve apostar no formato voz e violão, apresentando músicas mais antigas do seu repertório, o público vai à loucura. O remember é maravilhoso, mas definitivamente não estamos vendo a Taylor daquela época. A menina de Love Story, no final das contas, está morta – e por isso ela não pode atender o telefone agora.


Carolina Cassese

carolina cassese

estudante de Jornalismo, feminista, louca dos gatos, geminiana de sol e alma. apaixonada por mudanças e pelas palavras.

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