Narrado Para Você: As Histórias De Alec Benjamin

Narrado para você: as histórias de Alec Benjamin

Alec Benjamin lança seu primeiro álbum narrando pequenas histórias que se relacionam à sua vida – e a de todo mundo.


Assumindo que você já tenha parado de fazer algo para escutar um álbum, alguma vez você já parou para processar o conteúdo lírico das músicas? Seja sim ou seja não, este é, eu diria, o principal bônus ao se aventurar nas produções de Alec Benjamin.

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Alec Benjamin é um cantor de 24 anos de Phoenix, Arizona, nos Estados Unidos. Apostando em uma estética meio anos 90 e dono de uma cara de neném e um timbre de voz peculiar (ele já tuitou uma vez que “sim, a voz dele é fina” mas que “não, ele não é uma mulher”), o artista é relativamente novo na indústria. Em 2014, aos 20 anos, Alec tinha um contrato com a Columbia Records, mas acabou sendo dispensado pela gravadora em 2016, antes mesmo que pudesse lançar um álbum. O infortúnio, embora desencorajador, apenas acabou levando-o a voltar a fazer shows nas ruas (ele conta que foram cerca de 165 em seis meses) e distribuir cartões de visitas nas portas de grandes shows de outros artistas, como Troye SivanShawn Mendes, em busca de um público disposto a ouvi-lo. Foi apenas em 2018 que Benjamin conseguiu uma outra oportunidade, dessa vez assinando com a Atlantic Records. Sob o novo selo, o cantor lançou um novo single, que logo tranformou-se no carro-chefe de seu primeiro álbum – ou mixtape, como ele chama.

Embora Alec não possa ser encaixado perfeitamente em um gênero musical específico, ele nasce de uma ideia objetiva: Benjamin não se considera um artista, mas sim um narrador. Compositor de suas próprias faixas, ele tem muito bem lapidado o conceito de que as pessoas possuem pelo menos uma música que elas rotulam como a sua música, ao que atribuem a memórias e sentimentos positivos ou negativos ligados diretamente à momentos de suas respectivas vidas. Assim, cada uma de suas composições parecem terem sido escritas para se encaixarem perfeitamente nessa ideia, mas de uma forma muito natural e íntima.

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Imagem promocional do álbum “Narrated For You”, clicada por Alex Currie

Tendo isto em mente, Narrated For You é este projeto. Traduzindo-se literalmente para “Narrado Para Você“, o álbum de estreia de Alec Benjamin entrega exatamente o que propõe seu título. Cada um das doze faixas contam pequenas historinhas, que ganham vida narradas na melodiosa voz do cantor. Com início, meio, fim e uma moral, elas funcionam sozinhas, para contar rápidos contos, e também em um quadro maior, se conectando a determinados aspectos da vida pessoal de Alec.

Narrado Para Você

Por vezes gravitando em um espectro melancólico e até obscuro, embora realísticas, o disco é aberto por If We Have Each Other. A música, decidada a sua irmã, é separada em três partes. A primeira, conta a história de uma garota que engravida aos 19 anos. Na segunda, ele fala sobre a família, para então entrar na terceira parte, em que ele fala que seus pais estão ficando velho, mas ele é grato pela irmã ainda estar lá (“Eu tenho 23 e meus pais estão ficando velhos / Eu sei que eles não tem para sempre e eu tenho medo de ficar sozinho / Então eu sou agradecido pela minha irmã, mesmo que a gente brigue as vezes / Quando o colegial não foi fácil, ela é a razão de eu ter sobrevivido / Eu sei que ela nunca me deixaria, e eu odeio ver ela chorando / Então eu escrevi esse verso para dizer a ela que eu estou sempre do lado dela“).

Water Fountain é sobre um garoto que se apaixona por uma garota e tem seus sentimentos correspondidos, mas não se sente pronto para um relacionamento. Com o passar do tempo, ele continua apaixonado por ela, mas ela já seguiu em frente e está namorando outros caras (“Eu deveria ter construído uma casa com uma fonte para nós / Naquele momento em que ela me disse estar apaixonada / Tão jovem, eu era tão jovem“).

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Annabelle’s Homework trabalha a narrativa de um garoto que é apaixonado por uma menina chamada Annabelle, fazendo tudo por ela (até seu dever de casa) em busca de ser correspondido. Eventualmente, ele percebe que nunca terá uma chance e tem seu coração partido (“Não importa quantos trabalhos eu escreva / O final da equação não será você e eu / E agora eu sou apenas outro que foi ferido / Fazendo o dever da Annabelle“). A música ganhou um leve buzz ao ser reconhecida por John Mayer em seu story do Instagram, onde ele elogia a letra (“Assim que é feito!“) e o talento de Alec como liricista (“Isso é escrever músicas. Isso é arte“), logo em seguida dizendo que compôr não consiste em apenas transmitir seus sentimentos para uma música, mas possibilitar àquele que houve se colocar como o personagem, sentindo não só o que o compositor sentiu naquela hora mas também atribuindo sua própria carga e história emocional para a faixa.

Na quarta faixa da mixtape, o artista canta sobre um término. Let Me Down Slowly é a primeira faixa lançada sob o contrato com a Atlantic, sendo o primeiro single do Narrated For You. A letra, baseada no primeiro relacionamento de Benjamin, quando o cantor foi pra faculdade, narra a história de um homem que sente sua amada se distanciando dele (“Esta noite está fria no reino / Eu posso sentir você desaparecer“). Sentindo que isso resultará no fim do relacionamento, o narrador pede à sua amada que ela não seja tão cruel na hora de terminar as coisas: “Você poderia encontrar um jeito de terminar comigo aos poucos? / Espero que você possa ter um pouco de simpatia“. Para o site Genius, o cantor explica que escreveu a música não só tendo em vista sua fragilidade, mas também pensando o quanto é ruim ser dispensado e não entender o que levou a pessoa a tomar essa decisão, sendo bastante consumidor ficar remoendo tentando descobrir quais teriam sido esses motivos.

Falando sobre se apaixonar perdidamente por alguém, em Swin ele canta “Eu vou nadar até você me amar / Esperar que seu coração me resgate“, uma música escrita ao lado de uma de suas melhores amigas. Boy in the Bubble é sobre um garoto que sofre de bullying, cantada a partir da observação da pessoa que pratica o bullying. Alec conta para a Billboard que a ideia veio da possibilidade de enxergar isso de outra forma, já que muitas vezes a gente não entende o que pode estar acontecendo na vida dessa pessoa. Assim, no terceiro verso ele canta “São 6h48, ele está indo pra casa / Com sangue nas mãos do meu nariz quebrado / Mas como todos os outros dias, ele estava com medo / De voltar para sua casa porque seu pai estava lá / Enterrando seus problemas no whiskey / Procurando por problema / Não há desculpa para o que ele fez / Mas ele estava lidando com muito / Porque seu pai estava bêbado desde que ele era uma criança / E eu espero que um dia ele tenha coragem de dizer a ele / ‘Abaixe o copo de whiskey e a fivela do cinto nessa bolha quebrada’“.

Steve, atual faixa favorita do que vos escreve, toma liberdade poética sobre a história bíblica do Jardim Éden, colocando um quarto personagem no mix. Steve é um cara que “estava passando” pelo Jardim quando viu a Cobra oferecer à Adão o Fruto Proíbido. Vendo a cena, ele interfere, dizendo “Adão, não seja enganado pela Cobra / Não arrisque tudo pelo sabor / Que desperdício / Ter tudo e entregar de mão beijada“. Gotta Be a Reason contempla o universo (“Precisa ter um motivo para o quão eu estou na Terra / Precisa ter um motivo para a poeira e a sujeira / A mudança das estações nunca mudaram minha dor / Qual é o ponto?“), mostrando que mesmo que envelheçamos, continuamos a nos questionar sobre coisas da vida.

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Para o Genius, site de data-base musical, Alec Benjamin desmembra o single “Let Me Down Slowly”, explicando o processo e conteúdo lírico da música

Preocupado com a vida que um amigo estava tomando, Alec escreve Outrunning Karma sobre um garoto que está duelando contra o universo, tendo dobrar as coisas ao seu favor (“Ele nunca vai conseguir / Todas as pessoas que ele abandonou / O karma sempre vai chegar para suas mentiras“). If I Killed Someone For You, outra favorita pessoal, mergulha em uma realidade obscura, narrando os eventos de um cara que está fugindo da polícia por ter matado alguém. Tentando se esconder, ele pede a ajuda de sua amada e questiona se ela continuaria amando ele se ele tiver feito essas atrocidades. No final da música, em um plot twist, ele revela “Você precisa entender que eu matei a eu mesmo / Mudando o que eu era por aquilo que você queria que eu fosse / Eu segui suas direções, fiz tudo que você pediu / Espero que isso te faça feliz, porque não há volta“.

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Death of a Hero (também elogiada por Mayer) é sobre crescer, perceber que não somos mais crianças. Usando a imagem de um Super Homem memorizando linhas e fazendo coisas questionáveis com seus poderes, ele percebe que virou um adulto (“Naquela noite eu coloquei a minha infância em um túmulo / E enterrei tudo dentro de mim / Naquela noite eu vi tudo além da magia / Agora eu testemunhei a morte de um herói“). O álbum então é fechado com 1994, uma música correspondente àquele período de coming out of age, em que determinados eventos acontecem que o transformam no que ele é hoje (“Eu vi no noticiário um dia quando as Torres caíram / Setembro não é mais aquele lugar / Agora me diga o que você quer ser quando crescer porque você cresce muito rápido / Eu vou cortar meu cabelo e colocar meus jeans e nunca mais aparecer na aula / Esteja pronto porque é hora de partir, então faça as malas / E seja aquilo que você quer ser“).

Ao longo de toda a mixtape, o violão é o principal companheiro de Benjamin, que com uma voz leve conquista seu público facilmente logo em uma primeira reprodução. A produção de suas músicas são simples, mas eficazes, e ainda traz de forma perceptível, em duas vertentes, a influência e admiração que o cantor tem com o rapper Eminem.

Na primeira, é possivel ouvir ao longo do álbum Alec cantando versos rápidos (como em Boy in the Bubble), embora nunca pise propriamente nos gêneros de rap e hip-hop. Na segunda, o rapper funciona como o ponto em que o cantor decide escrever suas próprias músicas (também influenciado por Mayer), por admirar a capacidade que Marshall tem em contar histórias em seus raps – Stan é a faixa favorita de Benjamin, ao qual ele atribui como “a melhor história já contada em uma música“.

Como um primeiro álbum, que debutou em #20 na Billboard Heatseekers Albums (parada musical só com artistas novos e/ou em ascensão), Narrated For You já deixa muito claro e lapidado quem é Alec Benjamin. Ele é exatamente aquilo que John Mayer diz que compositores são, também sendo aquilo que ele diz ser: um narrador que usa da música para dar vida a contos sobre suas histórias pessoais, mas que podem ser sobre qualquer pessoa que se aventure no álbum.

vics

tem 22 anos e é formado em Jornalismo pela PUC Minas. é o Diretor de Arte da revista, sendo o responsável pela criação da identidade visual da zine. ainda, escreve matérias sempre que tem uma boa pauta. ao todo, já assistiu o correspondente a 13 meses em Séries, três meses em Filmes e em 2017 foram dois meses em reprodução de Música.

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