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As últimas gotas de sangue?

[tempo de leitura: 7 minutos]

“Nu”, quinto álbum de Djonga, mostra o artista na posição de invulnerabilidade, após ser cortado pelas críticas e pela fama.


É“É melhor desistir ou viver humilhado? / Coisas que passam na mente de gente que vem de onde vem / Ó, Lucas Penteado, rima Djonga em Xapralá, terceira das oito melodias inéditas que compõem seu quinto álbum de estúdio, intitulado Nu. Como se estivesse “despejando” gotas de suor (ou de sangue), Gustavo Pereira Marques, o Djonga, entrega o álbum com uma perspectiva mais intensa sobre si mesmo, pautando críticas que recebe, a fama que está lidando e a sua autopercepção, que nunca o abandona.

Com isso, o rapper se demonstra, também, um artista diferente daquele que publicou Histórias da Minha Área, em 2020. Mesmo que o mineiro tenha mantido as últimas músicas os temas centrais dos quatro álbuns anteriores.

 

“O disco anterior sempre vai ser o melhor”

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Capa do álbum

Todo dia 13 de março, desde 2017, as plataformas recebem os trabalhos de Djonga. Os fãs já esperam, ansiosos, a data. E, desta vez, as críticas de alguns deles voltaram quase as mesmas. É assim que alguns recebem o artista: pontuando que as letras são o “mais do mesmo”. Desde Heresia, em 2017, até Nu, deste ano, ouvimos as mesmas histórias: genocídio da população negra, racismo e a desigualdade social.

Essa crítica não é novidade, nem para o próprio Djonga, já que ele a responde em suas próprias músicas – como fez em seu terceiro álbum, O Menino que Queria ser Deus, xingando quem disse que o segundo disco era “fraco”. Agora, em 2021, ele faz uma rima bem elaborada sobre o que já esperava que iam dizer deste quinto álbum: “o disco anterior sempre vai ser o melhor”, canta no começo de Xapralá.

O mais curioso é que mesmo mantendo a temática, o músico conseguiu um crescimento exponencial do seu trabalho. Ano passado, Djonga foi o primeiro rapper brasileiro a ser indicado a um prêmio internacional de Hip-hop. Isso revela a genialidade do mineiro, que, com muita criatividade em suas rimas e o ineditismo dos seus ritmos, mostra assuntos parecidos, sob diversas óticas poéticas e musicais.

Djonga ainda demonstra querer, também, gritar para a sociedade como nada mudou, “nem ele e nem o mundo”, como canta em Deus e o Diabo na Terra do Sol, do álbum Ladrão (2019). Até porque as pautas do artista permanecem atuais: preconceito racial e desigualdade social. E, de fato, o mundo não mudou muito desde 2017. Mas e Djonga? Não mudou também? Com o resto da rima que está no subtítulo deste texto, vem a resposta: “O Djonga de ontem era melhor também / 1% a menos humano por dia / E dias? Já vivi mais de cem”.

 

“Quanto mais sucesso, menos divertido”

Com uma obra voltada pro antirracismo, o rapper mineiro Djonga / É o único representante brasileiro no prêmio internacional de hip-hop”, trecho da última faixa, Eu, do novo álbum, em que William Bonner notícia o ocorrido no Jornal Nacional. Essa melodia começa com diversas falas de jornalista noticiando acontecimentos bons e ruins sobre o artista. Um dos mais chocantes, que os fãs criticaram muito, foi o show com aglomeração que o rapper fez em dezembro do ano passado.

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Todo o álbum possui a autopercepção acompanhada de críticas que Djonga têm sobre si mesmo. Mas, desta vez, diferente dos outros compilados, o mineiro optou por deixar uma faixa bem mais explícita sobre si mesmo e, inclusive, outra pontuando também como está lidando com a fama.

Na primeira faixa do Nu, chamada Nós, o artista passa o sentimento de desunião que ainda percebe na sociedade e, também, a sua autocrítica a respeito da fama e como ela, agora, interfere não só na sua vida e na sua relação com o seu trabalho. “Quanto mais sucesso, menos divertido / E eu não era assim, eu sou fruto do meio / Meu coração parece um balde furado /Acho que o vazio me pegou em cheio”, canta o músico.

Djonga deixa claro como está perdendo, aos poucos, a sua liberdade individual e entusiasmo pela música. Além de pontuar, com mais nervosismo, como está sendo, desde o começo do ano passado de forma mais intensa com o lançamento do quarto álbum, endeusado pelos fãs — “E eu por aqui fazendo rap pra ser imortal / Eu desisti de começar em acabar com tudo / O resultado: Djonga sensação, sensacional”.

Até porque, visto como um ídolo, ele acaba recebendo mais críticas sobre seus posicionamentos e atitudes. Algumas cabíveis, como os comentários negativos a respeito da aglomeração, outras um tanto exageradas, por ele não seguir os mesmo pensamentos políticos de alguns.

Não é difícil perceber o porquê de tantas expectativas sobre o rapper. Identificado como uma figura de representatividade dos meninos pretos da periferia e, ao mesmo tempo, como um artista militante em busca de dar voz às minorias, Djonga, ou sua música, é uma forma de luta social. Assim, sendo uma ponte para dar visibilidade para aqueles que não são vistos ou sendo um pingo de esperança para aqueles que querem mudança e continuam vivendo em um caos repleto de violência e repressão social.

 

“Humano demais, esse é seu ídolo”

Por outro lado, existe o Gustavo Pereira Marques, um ser humano com defeitos, como qualquer outro, que comete erros e possui suas particularidades. Inclusive, é essa sua subjetividade que faz ele entregar seu sangue em cada verso colocado em Nu.

Porém, mesmo deixando seus pontos frágeis à mostra com as melodias, a forma que o artista mineiro opta por fazer seu disco demonstra uma característica de invulnerabilidade. Djonga está sangrando e não está nem um pouco vulnerável ou fraco por isso.

Esse lado mais humano é encontrado em algumas letras, mas não em seus ritmos e batidas. As músicas chegam com beats mais pesados e rimas mais rápidas, passando uma sensação de rigidez interior. Isso fica mais evidente no começo de seu trabalho, com os primeiros álbuns, Heresia (2017) e O Menino que Queria ser Deus (2018). E, talvez, a recepção mais calorosa do quarto álbum, Histórias da Minha Área (2020), veja justamente a presença de uma maior vulnerabilidade na parte mais técnica de seu trabalho.

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Esse lado de sensibilidade, romantismo e vulnerabilidade foi um afronte poético que Djonga conseguiu trazer em seu trabalho com o quarto álbum, mas que optou por deixar em segundo plano com o quinto. Músicas como Procuro Alguém, de 2020, apresentam trechos mais sensíveis com rimas que tocam o ouvinte de uma outra.

Com batidas mais suaves junto de declarações sentimentais, Djonga intensifica outra temática: o amor. Como quando dedica uma música romântica inteira para a sua filha, Iolanda, mostrando um lado amoroso sem deixar de ser carregado de críticas: “Hipocrisia à parte, meu lado realista / Vou poder a primeira vez ser menos machista / Na prática, a vontade é te prender e tudo / Mas pássaro é pro vento, igual você pro mundo”.

Porém, é inquestionável que a participação da artista Budah, cantora negra, busca aproximar o público, na faixa Dá Pra Ser?, desse lado romântico e, assim, um de um conteúdo sobre relacionamentos, mais explorado em álbuns anteriores com músicas como Solto, Leal e Mania. Mas, se for parar pra pensar, apenas Dá Pra Ser? não consegue sustentar o tom de vulnerabilidade e romantismo do artista, como aconteceu de forma mais constante em vários outros álbuns.

Então, agora, com a vulnerabilidade emocional deixada em segundo plano, o novo álbum muda a perspectiva. Djonga está mais preocupado em falar sobre o seu eu, pautando a sua relação com a fama e seus erros.

 

“Vou matar esses caras da melhor forma”

É fugindo do romantismo e da vulnerabilidade que Djonga quer mostrar, com Nu, que sofreu vários cortes no ano de 2020, sem deixar de escanteio as dores que já o machucavam. É possível perceber suas feridas em todas as melodias, e cada música releva de uma forma o seu antirracismo, a sua militância contra a desigualdade social ou a sua autocrítica.

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Com a música Ó Quem Chega, Djonga dedica a faixa para aqueles que vão contra sua luta. São o ritmo e a letra que chamam a atenção no refrão, “ó, olha o vacilão, já avistei de longe / Nem viu meu passado e quer viver o agora / Disse que é relíquia, eu só não sei de onde / Vou matar esses cara da melhor forma”. Essa última parte, ouso dizer, chega a lembrar clássicos do músico como a música Olho do Tigre, que fez multidões gritar Fogo nos racistas!.

Além disso, a autocrítica e observações sobre a fama aparecem no refrão de Vírgula, quinta faixa do álbum. “É a paixão das mulher, é o terror do sistema, é o herói dos quebrada / Essa merda de Djonga é dinheiro no bolso pra quem não tem nada”. O tom sombrio da letra fica mais evidente com Ricô, faixa seguinte da trilha, onde o artista despeja seu sangue com as rimas de crítica ao sistema, se colocando como parte dele com uma batida mais frenética e letra mais marcante. Até Djonga comenta, no final da música, que o clima está “meio pesado”.

 

“Arte é pra ser combustível”

Ainda, para deixar o clima mais pesado, a pergunta que fica, após as alegações do próprio artista é: seriam essas as últimas músicas, ou gotas de sangue, de Djonga?

O rapper não esconde em entrevistas que pretende fechar seu trabalho musical com Nu. Disse que o quinto álbum deve ser o seu último. E ele não está “sem fama” ou com a sua criatividade, autonomia e genialidade esgotados, até porque tudo isso  bem explorado no último álbum. Djoga só está tentando dizer adeus. Como se um ciclo estivesse se fechando, o disco chega para ressaltar tudo que o artista vem cantando nos últimos anos, e de uma forma bem mais intensa, fugindo da vulnerabilidade.

Após uma carreira com cinco álbuns aclamados, sempre esperados em março nos últimos anos, Djonga está tentando dizer tchau dizendo ao ponto que ele tem voz, como na mensagem da rima de Ó Quem Chega: “hoje eu tô mais inteligível / Falo de um jeito que o povo entende / Arte é pra ser combustível”.

giovana silvestri

tem 18 anos. escorpiana viciada café e amante de gatos. estuda jornalismo na Unesp e escreve muito desde que se entende por gente. tem um jeito doce mas gosta de boteco e de cerveja de garrafa. escuta mais MPB e pagode do que a voz da razão.

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