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O Que Você Enxerga Quando Vê?

O que você enxerga quando vê?

  • Filmes

Apesar de não ter conquistado prêmios no Festival de Sundance, realizado em janeiro deste ano, Ponto Cego (Blindspotting, título original) deixou uma enorme expectativa não só pelos diversos elogios a Daveed Diggs e Rafael Casal, que protagonizam, roteirizam e produzem o longa, mas principalmente pelo peso de ser colocado como um dos maiores dramas sociais do ano.

O enredo nos apresenta aos amigos Collin (Diggs) e Miles (Casal), nascidos e criados em uma Oakland que, atualmente, passa por um evidente processo de gentrificação. Vivendo seus últimos três dias de liberdade condicional, Collin está a um passo de alcançar sua tão aguardada chance de um recomeço, que passa a se tornar uma possibilidade mais complicada depois que ele presencia o assassinato de um homem negro por um policial branco. Naturalmente afetado e tocado com o peso do acontecimento, Collin vê não só sua relação com seu amigo de toda vida ser transformada, mas também a própria percepção a respeito de sua identidade e da realidade social e cultural do bairro em que cresceram.

A partir do perspicaz, íntimo – os roteiristas são nascidos e criados na cidade – e profundo roteiro, Diggs e Casal nos mostram o cotidiano da Oakland que sente diariamente as mudanças na dinâmica social do bairro periférico em que habitam. As gritantes diferenças na ocupação urbana da região é muito bem capturada pelo astuto diretor Carlos López Estrada, que estreia no comando de um longa com segurança e eficácia. A forma como filma o cotidiano dos protagonistas e, principalmente, a maneira sútil com que apresenta pequenas variações em comportamentos fundamentais e essenciais dos mesmos evidenciam as transformações que ambos, principalmente Collin, passa depois de presenciar o tiroteio. O momento em que o crime acontece, inclusive, é filmado com tamanha inteligência em um jogo de visão que coloca o protagonista e o espectador enxergando pelo reflexo de um espelho retrovisor, em uma possível interpretação de que aquele cidadão negro injustamente assassinado poderia ser um reflexo, também, do protagonista sentado em seu caminhão.

Evidentemente, o racismo perdura a projeção como um tema inerente ao enredo e ao universo representado, sendo desenvolvido em diferentes etapas, além de tangenciar uma discussão a respeito da apropriação cultural e, porque não, de identidade. Seja pelo constante posicionamento de Collin, enquanto um homem negro em uma sociedade urbana marginalizada e preconceituosa, ou de um Milles que sente que precisa reafirmar e comprovar sua própria identidade em um contexto cultural urbano ao qual pertence, mas se sente deslocado. É uma relação de enxergar em si mesmo e também no outro os reflexos de um determinismo social e cultural, ao mesmo tempo que na relação antiga e íntima dos protagonistas eles enxergam um pouco de si no companheiro. A metáfora com o Vaso de Rubin é, inclusive, uma pequena metáfora didática para a relação dos protagonistas entre si e com seus próprios sentimentos, mas adiciona um quê de reflexão ao longa e ainda mais peso a jornada pessoal de Collin.

A dupla explora da química natural que possuem para trazer mais veracidade à relação dos dois, até mesmo nos diálogos que soam como improvisos de uma brincadeira de amigos que dialogam por meio de rimas do hip hop, reafirmando ainda mais o contexto urbano ao qual estão inseridos. O que não funciona organicamente, devido ao constante peso temático e de diversas ações do longa, é a mudança de tom entre o drama social e a comédia urbana mais leve, criando um ruído de ritmo em algumas sequências.

De um ponto de vista narrativo, utilizar da liberdade condicional de Collin como um artifício de tensão é uma jogada inteligente que acaba criando a constante sensação de apreensão no espectador. Assim, é aguardado que a qualquer momento um acontecimento fuja do controle do protagonista, sendo provavelmente causado por Milles, levando-o injustamente a perder tudo aquilo pelo que estava construindo no último ano. O mais impactante é perceber que o constante incômodo de Collin e o racismo latente nas pequenas atitudes do dia a dia mantém a tensão alta e enervante ao longo de toda projeção. E ainda quando a tão esperada liberdade é alcançada, o incômodo é mantido de forma pungente, causa das possibilidades de que aquele homem negro pode sofrer , única e exclusivamente, por motivações preconceituosas em relação a seu rosto, pele e etnia.

Todo essa construção de tensão e apreensão são catalisadas em um climax arrebatador, que permite um momento para Daveed Diggs brilhar ainda mais ao mostrar suas habilidades como rapper e toda sua profundidade dramática como ator. Com uma proposta íntima de dialogar a respeito de diversos temas inerentes ao contexto em que os roteiristas e protagonistas foram criados, Ponto Cego extrapola os limites da intimidade para ser um filme universal que se assume como umas das produções mais impactantes, profundas e relevantes do ano.


joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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