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As dores e a beleza do pertencimento

[tempo de leitura: 2 minutos]

Em relato parcialmente autobiográfico, “Minari” retrata a imigração como um ato de busca pelo pertencimento e de identificação cultural.


EEm dada cena de Minari – Em Busca da Felicidade (2020), Soonja (Yuh-Jung Youn), está desarrumando sua bagagem após chegar ao trailer da família de sua filha, Monica (Han Ye-ri), localizado no Arkansas. Ela a entrega um vidro com tempero de pimentas coreanas e outro com anchovas – dois ingredientes básicos da culinária do país de origem – que a levam a chorar. A mãe então pergunta “Você está chorando por anchovas? ”. É de cenas como esta, momentos delicados capazes de revelar a força de gestos singulares, que Minari tira sua força.

A dita cena é um destes bons momentos de intimidade e acalento que revelam muito: Monica chora porque tem em mãos os sabores de sua terra natal, uma forma sensorial de se conectar com a Coreia em meio a uma vida de imigração para os EUA. E assim surgem os três principais temas de Minari, que são articulados delicadamente por Lee Isaac Chung: a família, a imigração e o pertencimento.

O primeiro deles se faz presente logo de cara com a chegada da família Yi a sua nova casa: um trailer em uma fazenda no estado do Arkansas, região em que Jacob, o pai (interpretado por Steven Yeun), acredita conseguir edificar o sonho americano da “terra da oportunidade” de forma literal: plantando e cultivando em seu pedaço de terra. Juntos do casal estão seus dois filhos Anne (Noel Kate Cho) e David (Alan S. Kim), além da avó da família Soonja (a citada na abertura do texto).

Inclusive, a chegada de Soonja ao núcleo familiar já instável cria uma nova dinâmica: a presença da avó evidencia a cultural coreana, os costumes, sabores e aromas no cotidiano da família de tal forma que os esforços de Jacob para firmar raízes (literalmente) nas terras estadunidenses vão se tornando um exercício cada vez mais difícil.

O mais interessante nesta visão é que o diretor Lee Isaac Chung faz um retrato do estranhamento e desencaixe que a família tem ao se inserir na região sem adotar o tom caricato. Os moradores do Arkansas, por exemplo, não são apresentados como os brucutus preconceituosos que muitas vezes vemos. Pelo contrário, são acolhedores à família mesmo que com um constante olhar de estranhamento para sua cultura e costumes.

Essa relação de estranheza se faz presente durante toda a projeção, até mesmo em como Isaac Chung retrata a vida no campo. A sequência de abertura do longa com a família chegando a nova casa e os momentos em que Jacob e o filho David caminham pelo terreno tem um desconforto na imagem pela maneira como ele desfoca o cenário e os arredores criando uma atmosfera bucólica, quase que idílica.

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A família Yi

Porém, essa proposta vai sendo desgastada com o desenrolar da narrativa e passa a depender muito da trilha sonora evocativa e etérea, dando a sensação da falta de um controle maior do diretor. Destas contradições, Minari se assume, ao mesmo tempo, como um filme interessante, inconsistente, tocante e delicadamente íntimo.

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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