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As contradições e o cinismo no cinema de David Fincher

[tempo de leitura: 5 minutos]

Em “Mank”, David Fincher faz um filme de contradições que, em seus melhores momentos, desencanta a Hollywood dos anos 30 com cinismo.


SSe hoje a Netflix tem produções originais que concorrem a estatuetas no Oscar, parte desse reconhecimento se deve a relação construída com David Fincher. O cineasta foi o primeiro nome de peso a abraçar algum projeto da empresa ao produzir e dirigir episódios de House Of Cards. Esse movimento pavimentou as oportunidades recentes da empresa de adentrar um certo segmento de cinema de prestígio, investindo seus milhões em projetos como O Irlandês, de Martin Scorsese, e Roma, de Alfonso Cuarón. E Mank, novo filme de Fincher que retoma a parceria, faz parte deste conjunto de obras que chamam atenção pela assinatura de seu diretor – uma das características que fazem dessa obra uma película de contradições.

 

O interesse de toda a lógica comercial por trás de Mank parte da autoridade de Fincher enquanto cineasta. E se ele propõe no longa um retrato cínico da Hollywood dos anos 30, o faz porque entende sua condição dentro de um mecanismo que segue funcionando sob a mesma lógica quase 100 anos depois.

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Pôster do filme

Mank é um filme de contradições diversas. Até mesmo sua concepção pode soar incongruente para um conhecedor da filmografia e a identidade de Fincher. O longa ganha vida depois de quase 30 anos engavetado porque o diretor passou a nutrir uma relação mais pessoal com este projeto, especialmente após a morte de seu pai (Jack Fincher), o responsável pelo roteiro.

O texto de Fincher (pai) se embasa no artigo Raising Kane, escrito pela crítica Pauline Kael nos anos 70, que questiona a teoria do autor levantada pelos cineastas da Nouvelle Vague. Assim, Kael reivindica que o sucesso de Cidadão Kane, uma das obras máximas da história do cinema, estaria atrelado ao trabalho do roteiro de Herman J. Mankiewicz e não à direção de Orson Welles.

O filme, então, se apega a essa premissa e nos apresenta ao roteirista (interpretado por Gary Oldman) e nos faz acompanhar o processo de escrita do dito roteiro enquanto, entre idas e vindas de flashbacks, seguimos Mankiewicz pelos bastidores do cinema hollywoodiano.

É nesta relação que temos uma grande dissonância de Mank: o que parece ser o interesse principal da contribuição do “Fincher-pai”, é a constatação de autoria do roteirista para o sucesso de Cidadão Kane. Porém, essa prerrogativa é pouco trabalhada e desenvolvida pela narrativa que se preocupa muito mais em um retrato cínico e de desencanto das engrenagens de Hollywood – este, sim, o verdadeiro interesse do “Fincher-filho”, o diretor.

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Gary Oldman como Herman J. Mankiewicz

Desta forma, o longa ganha fôlego principalmente nas sequências dos bastidores da indústria, nos cruzamentos com a política e nas questões sindicais do meio que acabam tendo certa importância para a temática central do filme (a batalha de autoralidade entre Welles e Mankiewicz, uma espécie de personificação rasa do embate entre diretores e roteiristas).

As contradições do filme se fazem presentes, também, em um olhar amplo sobre o projeto como um todo. Possivelmente a maior delas seja como Fincher emula o próprio trabalho de Orson Welles em Cidadão Kane (na narrativa elíptica de vai e vens de flashbacks ou na maneira como trabalha a profundidade de campo e certos enquadramentos oblíquos) uma escolha que reforça a incoerência de um filme que nasce dá afirmação de que o verdadeiro grande autor de Kane não é seu diretor.

Ao mesmo tempo, é a direção de Fincher que não deixa que Mank se torne só mais uma cinebiografia convencional. O que poderia ser um retrato de um gênio incompreendido que conseguia trafegar entre os engravatados de Hollywood e os encontros sindicais que confrontavam estas mesmas figuras do auto escalão se torna uma obra focada na representação seca da terra dos sonhos ilusórios.

Essa lógica de ilusões e de toda uma afetação inerente ao meio se faz presente na encenação do diretor, que enquadra e organiza o plano com sua meticulosidade corriqueira para situar seus personagens – desde o roteirista prestigiado, ao magnata da comunicação – como meras peças de uma engrenagem maior.

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Amanda Seyfried em “Mank”

A atmosfera de desilusão e desencanto se faz presente muito em decorrência da fotografia em preto e branco que ajuda a construir um olhar de desconstrução do brilho da Hollywood dos tempos dourados, ao mesmo tempo que utiliza de uma iluminação excessiva para criar um aspecto de artificialidade em tudo.

 

Esse retrato sustentado majoritariamente pelas escolhas cinematográficas, audiovisuais em essência, reforçam a visão que David Fincher tem de Hollywood na mesma medida em que renegam o discurso do artigo de Pauline Kael e a própria tentativa do roteiro de Mank de destacar um protagonismo ao escritor. A própria opção por deixar Orson Welles (interpretado por Tom Burke) muito deslocado na trama reforçam a suposta importância do processo de escrita, mas a narrativa não consegue construir um personagem multifacetado, atrativo e, muito menos, talentoso. Se não é pelas virtudes e habilidades de Mankiewicz que somos convencidos de sua relevância para a concepção do roteiro, o longa tenta aproxima-lo de William Randolph Hearst (interpretado por Charles Dance): a figura que inspirou a criação de Charles Foster Kane, o protagonista do filme de Welles

Assim, ao acompanharmos a trajetória de Mankiewicz do começo da redação até o discurso como vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original, temos um filme que, de maneira contraditória, se torna interessante e problemático pelas próprias contradições.

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Uma noção que faz algum sentido ao considerarmos a própria relação entre David Fincher e Netflix; entre um cineasta cultuado e a própria lógica mercadológica de expectativas financeiras e, sobretudo, a contradição existente em Mank – um filme que, ao retratar a época de ouro do cinema americano com cinismo e desencanto, tenta reforçar uma descabida crítica a autoralidade. Algo que o próprio Fincher refuta com sua própria identidade e exercício fílmico.

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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