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A ficção científica natalina de George Clooney

[tempo de leitura: 3 minutos]

Com mensagem esperançosa para a humanidade, “O Céu da Meia-Noite” é uma inconsistente ficção científica de bons momentos isolados.


DDesde que assumiu o posto de diretor a mais de uma década, George Clooney tem dedicado sua filmografia como realizador a obras de cunho político. Para além de um interesse social e de denúncia, essas obras acabam sendo boas opções porque ele – enquanto cineasta – ainda tem dificuldades para criar dramas edificantes sem a relação pareada a um contexto forte já existente. O Céu da Meia-Noite, sua aposta em uma ficção-científica distópica lançada pela Netflix, reforça essa dificuldade de Clooney em um longa de bons momentos isolados.

Inspirado no livro homônimo de Lily Brooks-Dalton, o longa acompanha Augustine (George Clooney), um cientista com doença terminal que opta por ficar na Terra, isolado no Ártico, após os sobreviventes da humanidade abandonarem o planeta, que se encontra com alto teor de radioatividade. Ao mesmo tempo, temos uma trama simultânea envolvendo uma tripulação espacial em uma jornada intergaláctica de regresso ao planeta, após descobrirem uma lua próxima a Júpiter capaz de ser habitada por humanos. Contudo, a nave capitaneada pela Comandante Sully (Felicity Jones) não sabe que as tentativas frustradas de contato com bases militares terráqueas se dão porque o planeta está devastado e abandonado.

Destes dois núcleos, o roteiro de Mark L. Smith evoca temas centrais e corriqueiros das ficções científicas espaciais (a incomunicabilidade, o isolamento, a busca esperançosa por um futuro prolífico na imensidão do espaço), porém falta qualquer profundidade textual aos diálogos e até uma construção de drama potente nas situações que as personagens de O Céu da Meia-Noite estão inseridas.

Neste sentido, a direção de Clooney também não agrega na articulação de todos os elementos do filme que, tragicamente, acaba com uma narrativa desconjuntada de bons momentos a deriva de coesão. A jornada do protagonista vivido pelo diretor, por exemplo, é a parte mais interessante de todo o longa porque Clooney consegue uma dinâmica coesa entre a beleza estética, a força visual e o impacto dramático das sequências no Ártico entre Augustine e a criança deixada para trás.

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A jornada de travessia das planícies geladas e abandonadas, mescladas aos flashbacks de memórias do cientista – que agregam um sentido maior ao porque ele insiste em ajudar a criança mesmo que ele próprio e o planeta como um todo estejam destinados a um fim trágico – garantem os melhores momentos de O Céu da Meia-Noite, mas acabam sendo situações isoladas dentro de uma trama que se alterna entre um segundo foco desinteressante.

Essa parte da narrativa focada nos empecilhos espaciais vividos pela tripulação da nave capitaneada pela personagem de Felicity Jones acaba soando descartável e inócua ao restante do filme. Mesmo que se utilizando de batidas tradicionais do gênero (a chuva de meteoros, a saída da rota programada, a necessidade de reparos na nave ou os embates entre a tripulação) essa parte do enredo é dispensável porque os acontecimentos e os possíveis discursos presentes ali não tem qualquer força – uma crítica que se estende novamente a um roteiro fraco e a uma direção pouco inspirada.

Se o diretor e o roteirista tem dificuldade em articular a força dramática, a excelente trilha sonora de Alexandre Desplat toma essa responsabilidade para si, assumindo uma posição invasiva com a mise-en-scene de Clooney. O próprio filme flerta com uma deriva espacial e é trágico que a narrativa fica, justamente, a deriva ao longo de toda a projeção. Com alguns acontecimentos específicos no clímax, a trama envolvendo a tripulação da nave até se justifica e acaba revelando um sentido maior para o longa como um todo, mas ainda assim é não há uma relação de causa e efeito consistente para ressignificar essa dinâmica vazia.

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Embora O Céu da Meia-Noite tenha esses elementos um tanto quando desconjuntados, George Clooney encontra um caminho de harmonia e delicadeza para fazer seu filme, trazendo uma aura de fabula esperançosa que toma o fim da projeção. A conexão entre a película e todo o contexto da pandemia vivido em 2020 acaba dando um folego a mensagem positiva do desfecho e, mesmo que a posição mais política quanto a relação da humanidade com o planeta se faça presente sem pungência, a produção acaba tomando para si um retrato tanto das preocupações e anseios do isolamento, quanto do vislumbre de um futuro possível.

Pode até ser arbitraria ou não intencional a escolha de Netflix de lançar o filme em dezembro, já no apagar das luzes de 2020, mas o fato é que por todos esses motivos O Céu da Meia-Noite acaba como uma ficção científica pouco inspirada que cresce se for vista como um filme esperançoso de Natal.

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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