Uma curta experiência de reflexão profunda

Uma Curta Experiência De Reflexão Profunda
[tempo de leitura: 4 minutos]

“Anima” tem um esplendor técnico e artístico impressionante, entregando uma experiência arrebatadora, reflexiva e acima de tudo autoral.


AA experiência de assistir Anima, curta-metragem recém-lançado na Netflix, é impactante e conflituosa. Dirigido por Paul Thomas Anderson, um dos mais interessantes diretores da atualidade, Anima é o complemento do terceiro álbum solo homônimo de Thom Yorke, vocalista do Radiohead, lançado no mesmo dia que a produção cinematográfica. A sensação de conflito parte do recorrente, mas ainda atual, debate a respeito das diferenças entre a experiência de consumo no streaming em comparação a uma sala de cinema.

 

Anima

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Poster do curta-metragem

Mesmo tendo sido exibido em algumas sessões de salas IMAX, para que o público pudesse sentir efetivamente o peso das imagens e a imersividade sonora proposta, o curta ainda assim está limitado a pequenas possibilidades de exibição. Contudo, todo o projeto arrojado de conceito que Yorke propõe é abraçado por Paul Thomas Anderson na direção, mas também por outros profissionais excepcionais na coreografia, direção de fotografia e montagem. O resultado é que Anima tem um esplendor técnico e artístico impressionante, extrapolando os limites de tela – sejam elas de um smartphone, computador ou de uma excelente televisão – em uma experiência arrebatadora, reflexiva e, acima de tudo, autoral.

Partindo de uma análise enquanto obra cinematográfica, Anima é uma deleite para os sentidos do espectador, com imagens de um apuro estético belíssimo e acompanhadas por sons que complementam a imersão e a construção de uma atmosfera futurista e distópica. Thomas Anderson cria imagens impactantes e soluções visuais ricas para filmar a incrível coreografia de Damien Jalet. O resultado é a entrega de um material altamente simbólico, interpretativo e, ao mesmo tempo, um pouco abstrato, permitindo que o espectador complemente a significação do que é expressado ali.

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Neste sentido, o curta é muito expressivo e rico em diferentes vertentes, como na fotografia de Darius Khondji, que constantemente se adapta e muda seus tons de acordo com as projeções refletidas nas diversas ambientações. A opção de cenários disformes e retorcidos agrega na construção de uma atmosfera distópica, ao passo que também assegura tons lúdicos e de um possível devaneio, tornando toda a produção mais interpretativa. Dentro de tanta riqueza visual, o trabalho de Andy Jurgensen na montagem é cirúrgico para combinar as passagens de ambientes de forma orgânica, sem uma quebra de sentido e garantindo transições que priorizam a coreografia e interpretação.

 

 

Ballet Desconjutado

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Capa do álbum de Thom, que dá som ao filme

O curta traz em seus 15 minutos uma breve história de busca por um amor, a partir do retorno de um pertence deixado por uma mulher em um metrô. Yorke é o centro desta busca, tentando ir ao encontro de uma mulher que observava dentro do vagão, que é interpretada por Dajana Roncione, namorada do músico na vida real.

Logo na primeira sequência de Anima, as imagens já mostram uma riqueza de sentidos belíssima com diversas pessoas inquietas dançando em um ballet desconjuntado, mexendo as mãos e cabeças em um mesmo ritmo destrambelhado a procura de uma posição para dormir. As vestimentas similares a roupas de trabalhadores de fábricas, a movimentação ordenada e a ambientação corriqueira, trazem uma forte carga de questionamento quanto a uma alienação, a uma existência a meio uma massa.

O próprio personagem de Yorke está inserido nisso e vê na ansiedade inerente na tentativa de caminhar até a mulher e entregar o seu pertence, o verdadeiro peso que o âncora onde está. Seria um questionamento do músico quanto o imediatismo do mundo contemporâneo ou somente a expressão de uma inquietação de um artista que enxerga no seu arredor uma constante antecipação das vivências e experiencias?

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Casal no curta e na vida real: Thom Yorke e Dajana Roncione

Para além de qualquer interpretação e de significados, a própria forma diferente com que Yorke se movimenta em relação aos outros dançarinos e a toda a coreografia geral sugerem uma atitude disruptiva, rompendo com barreiras e caminhando para frente, em direção a um encontro. Quando efetivamente temos este momento, a coreografia muda para uma bela dança cada vez mais leve e harmônica, mostrando a tranquilidade que aquele homem encontra ao vivenciar de um amor.

O que fica ao final de Anima é a riqueza reflexiva e interpretativa que Yorke e Paul Thomas Anderson entregam. Mesmo que em apenas 15 minutos, o curta-metragem provoca o suficiente para uma longa reflexão em um trajeto de metrô, seja uma viagem de inquietação ou harmonia.

joão dicker

com 23 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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