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“A Lenda de Candyman” e as lendas urbanas como símbolos de opressão

[tempo de leitura: 3 minutos]

“A Lenda de Candyman” triunfa pela direção de Nia DaCosta, mas se perde no meio dos questionamentos e fim abrupto.


Fica bem claro que a mão do Jordan Peele na produção e no roteiro fazem desse novo A Lenda de Candyman uma atualização do filme do Bernard Rose, reconfigurando a estrutura como um todo. Se no primeiro é a protagonista branca que passeia por um bairro marginalizado negro e se sente desconfortável por habitar o local, neste novo longa a ideia é mostrar a opressão sofrida pela comunidade negra até mesmo na urbanização.

Existem alguns filmes que me o questionamento frente uitas das vezes que escrevo sobre um filme, acabo falando sobre como sinto falta de um arrojo visual e cinematográfico (no sentido de que a história e tudo o que é mais de “dramaturgia” são bem trabalhados, mas que falta força audiovisual pra como contar a história – em certo sentido, que o filme acaba sendo mal decupado). Esse Candyman é o contrário.

Que direção foda da Nia DaCosta! A ideia de espelhamento que a diretora leva para encenação é muito massa e isso acaba criando uma dinâmica muito interessante pro retrato da violência em A Lenda de Candyman. Tirando uma sequência específica (a morte que se passa na galeria de arte – apesar de ser bem performática e até cômica) tudo de mais brutal não é mostrado pela frontalidade ou de forma direta. Tem mesmo um compromisso com a violência sugerida por reflexos, pela incompletude e distanciamento da imagem que funciona muito bem.

A Nia DaCosta alcança um equilíbrio entre cenas mais gráficas e passagens mais cleans; entre os ambientes urbanos grafitados e os prédios de interior minimalista e de iluminação chapada, que acaba criando mesmo uma construção de mundo e espaços quase que irreais. Existe a violência do mundo das ruas e a opressão institucionalizada dos ambientes internos.

No fim das contas é até mesmo um posicionamento sobre a violência e os horrores da vida real como algo maior, já que não tem tanto sangue ou gore para impactar e o que choca mesmo está na relação como espaço urbano (os planos de prédios invertidos oprimindo as personagens, a sobreposição de imagens refletidas no vidro do apartamento enquanto o protagonista pinta).

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O que mais me soa problemático em A Lenda de Candyman é justamente a dificuldade em dar conta de tantos temas e histórias que se cruzam. A gentrificação é sugerida no primeiro ato e esquecida por completo a partir da metade do longa. A temática artística é permeia a narrativa a todo momento, mas sem de fato ser trabalhada a um nível minimamente intrigante. E os backgrounds das personagens (especialmente do casal protagonista) são completamente jogados e aleatorios.

Acaba que o encerramento do filme deixa três sentimentos muito fortes. O primeiro é a surpresa pelo desfecho abrupto que me faz questionar algumas passagens desnecessárias e aleatórias no meio da narrativa (os flashbacks, a sequência do banheiro na escola – que é muito boa, mas bem gratuita pra narrativa – e a cena do irmão do lado de fora do banheiro).

O segundo sentimento, ao final, é de que esse encerramento abrupto também prejudica a completude da proposta de retomada e reconfiguração da lenda. A ideia era tornar o Candyman uma figura sobrenatural vingativa e de comportamento “social-corretor”, mas a jornada do Anthony (Yahya Abdul-Mateen II) acaba sendo tão picotada por cruzamentos aleatorios que essa premissa me soa mais como uma ideia de correção da visão que se tinha da lenda no 1o longa.

Por fim, a cena final traz o impacto discursivo que reforça o tema do impacto da violência sem a necessidade de escatologia. E esse de fato é o momento mais forte do filme porque, apesar de bem dramático com o slow, arremata toda a ideia de opressão e o discurso frente a violência policial com uma imagem visualmente pitoresca e muito artística. O uso das luzes da sirene e a não-necessidade de mostrar um rosto para o policial dizem muito, afinal.

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O positivo é que de todos os sentimentos possíveis, o que sobressai é a empolgação com a direção da Nia DaCosta e o interesse pel’A Lenda de Candyman como uma evidencia de que, assim como o cinema, a força de uma boa história passa pela impacto que causa no mundo.

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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