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Ampulheta / “O Bandido da Luz Vermelha”

[tempo de leitura: 4 minutos]

Qualquer pessoa que goste do cinema brasileiro ou tenha interesse de conhecer melhor a produção nacional precisa assistir a O Bandido da Luz Vermelha. O filme de Rogério Sganzerla é o marco inicial do movimento conhecido como Cinema Marginal e, não à toa, é memorável e virtuoso justamente por ter a marginalização como cerne, tanto para a temática abordada quanto para a relação com a linguagem proposta. Mergulhar nesse filme é mais do que buscar entender a base do Cinema Marginal, mas abranger o olhar para o contexto do Brasil, para a produção artística guiada pelo movimento de contracultura e para estabelecer um paralelo com o Cinema Novo.

A década de 60 marca um período de grande transformação na história do Cinema e no desenvolvimento da linguagem pelo mundo. No Brasil, não foi diferente. Os protestos ecoados pelos produtores culturais e pela militância juvenil ganham forma em diversas expressões: a Tropicália na música tem como seu par o Cinema Novo, que surgiu inspirado também na Nouvelle Vague francesa e no Neorrealismo Italiano. Um respiro de originalidade à produção da época, pautado na brasilidade e no questionamento do contexto político e social.

Com o início da ditadura militar e a absurda imposição da censura, criavam-se dificuldades ainda maiores para a produção tanto no sentido criativo (encontrar maneiras de burlar e esconder os discursos politizados nos filmes e nas obras em geral) quanto na parte econômica e técnica. Deste cenário, nasce o Cinema Marginal não como resposta ao movimento capitaneado por Glauber Rocha – por mais que os novos realizadores tenham críticas ao que era praticado – mas como uma “nova etapa” da produção cinematográfica nas terras tupiniquins.

Essa contextualização é crucial para compreender a marginalização como cerne do movimento, uma premissa que Rogério Sganzerla trabalha em O Bandido da Luz Vermelha. A principal “diferença”, por assim dizer, desta nova empreitada perante aos cinemanovistas era a tentativa de se articular a linguagem em prol de uma cosmologia essencialmente brasileira, adaptada ao contexto do país e o que se via na sociedade.

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Pôster

Assim, há um distanciamento da “estética da fome”; enquanto Glauber Rocha e seus contemporâneos praticavam uma conversão da linguagem europeia para o imaginário do sertão árido e as questões do país, o que o Cinema Marginal entende como a essência brasileira é transposta na “estética do grotesco”. O Bandido da Luz Vermelha é um dos principais filmes do movimento porque traz elementos intrínsecos aos costumes sociais e aos valores culturais do país para uma narrativa que exalta o “terceiro-mundismo” do Brasil e, ao mesmo tempo, retrata a sua realidade violenta.

Por isto, a proposta da trama é esquecer qualquer abordagem biográfica e abraçar a figura folclórica do “Zorro dos pobres” que, de fato, existiu na sociedade brasileira. Sganzerla trabalha um roteiro preocupado com a representação de comportamentos do cidadão brasileiro por meio da violência, já que, fora da tela, este vivia um mal-estar justamente pela conjuntura igualmente violenta.

Assim, o diretor usa da “estética do grotesco” para articular seu filme em relações anárquicas, renegando convenções narrativas e propondo um transe estético que choca com o impacto temático e discursivo. Ao mesmo tempo, o cineasta é objetivo na forma com que faz esse diálogo em meios “brasileiros”. Se a principal crítica ao Cinema Novo recaía sobre o uso de uma abordagem europeia incapaz de dar conta das questões do “terceiro mundo”, Sganzerla recorre a expressões cotidianas da realidade brasileira para usa-las como elementos da linguagem.

Desta forma, ao invés de usar narrações em off comuns, o diretor aposta num tom expressivo e típico do rádio, uma das mais populares expressões midiáticas do país. Mais uma vez, o grotesco retorna como mote central da articulação dos elementos, com entonações caricatas dos locutores e frases sensacionalistas, assim como a atuação afetada por parte do elenco. Paulo Villaça e Helena Ignez abraçam a veia satírica do longa para interpretarem seus personagens repletos de cinismo e intensidade. Já Pagano Sobrinho vive um secretário oficial da forma mais canastrona possível, personificando a canalhice e o nojo da classe política brasileira.

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Alinhado à proposta, o trabalho de câmera de Sganzerla é fenomenal. Sua movimentação sempre inquieta e abrupta dá o tom perturbador ao protagonista na mesma medida em que retrata a atmosfera caótica do país – algo potencializado também pela montagem, que assume papel fundamental no dinamismo frenético da narrativa.

Sobretudo, O Bandido da Luz Vermelha é um filme gigante realizado por um dos principais cineastas da história do Brasil. Rogerio Sganzerla escolhe um bandido como protagonista pelo simbolismo que o papel assegura à unidade geral do filme: um recorte sobre a sociedade brasileira sem medo de colocar um de seus personagens para dizer a verdade, sempre atual, sobre o país – “um lixo sem limites, senhoras e senhores”.

ASSISTA
O Bandido da Luz Vermelha está disponível no catálogo do Spcine Play.
João Dicker

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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