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Ampulheta / “A Aventura” (1960)

[tempo de leitura: 3 minutos]

Já que o Cinema contemporâneo tem revelado um interesse forte e constante por filmes que abordam o mal-estar social em diversas temáticas, formas e gêneros possíveis, nada mais justo que homenagear um dos mestres no trato desta temática. Em 12 de maio de 1960, estreava A Aventura, uma das obras primas de Michelangelo Antonioni que, mesmo após 60 anos, se mantém como uma obra cinematográfica atemporal e arrebatadora, imperativa a qualquer apreciador da sétima arte.

Conhecido como o primeiro filme da “trilogia da incomunicabilidade”, A Aventura é também um certo marco de um período em que o Neorrealismo Italiano ia, aos poucos, deixando seu auge. Importante movimento cinematográfico da década de 50, o Neorrealismo surge no pós-guerra com a proposta de subverter o cinema praticado na Itália até então. Fugindo da ficcionalização, a nova geração de cineastas estava preocupada com expurgar na tela a dura e triste realidade de um país assolado pela destruição, mergulhado no caos e na crise econômica.

Por mais que Antonioni seja relacionado ao movimento capitaneado por Luchino Visconti, Roberto Rosselini e Vittorio de Sica, (e de fato, O Grito é um filme que dialoga com as propostas formais do Neorrealismo), A Aventura marca sua filmografia com características essenciais de sua visão de Cinema e de mundo. Aqui, o grande impacto reside na maneira brilhante com que o diretor trabalha a temática da incomunicabilidade por meio da verborragia e dos excessos como sinais de superficialidade da burguesia italiana, ao passo que situa seus personagens em uma constante posição melancólica de incompreensão do mundo que os cerca.

É assim, em uma mistura de pessoalidade e representação social, que Antonioni arrebatava a sociedade italiana da época tão acostumada a acompanhar a pobreza e desolação por uma estética documental, mas que com A Aventura se via confrontada por uma abordagem da vida burguesa cheia de afetações, que servem apenas para esconder e reafirmar o desconforto social.

A narrativa acompanha três casais que partem em uma viagem de navio até uma ilha inabitada na costa italiana, mas que é interrompida com o abrupto e inexplicável desaparecimento de Anna (Lea Massari). Assim, a trama foca em Sandro (Gabriele Ferzetti) e Claudia (Monica Vitti), marido e melhor amiga da desaparecida, que passam o restante da projeção a procura de Anna e, neste processo, desenvolvem uma relação amorosa um tanto quanto desconfortável e desajustada.

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Em uma primeira incursão, A Aventura parece caminhar para um suspense de busca por Anna, mas o interesse de Michelangelo Antonioni não reside em uma trama investigativa e sim na tensão que a incompreensão entre Claudia e Sandro cria para os laços afetivos entre eles. Nesse sentido, há um trabalho de roteiro primoroso que equilibra diálogos por vezes desconexos e que escancaram a verborragia daquelas relações, que tanto falam e soam vazias sem propriamente conseguirem se comunicar. Por outro lado, há também uma proposta de constantes silêncios nessas conversas, que escancaram ainda mais essa distância entre as personagens e potencializa a relação afetiva estranhamente surgida para algo ainda mais artificial.

O preciosismo com que Antonioni trabalha os espaços, sejam os cenários urbanos ou as ambientações naturais, situam a atmosfera de pequenez dos casais em um vasto oceano, paisagens grandiosas e construções edificantes que são filmadas por panorâmicas amplas. É uma espacialização dessa temática de incomunicabilidade, dos desencontros e distâncias tanto no sentido físico quanto emocional, geográfico e narrativo. A não solução do desaparecimento de Anna, por exemplo, é sobretudo um marco desse efeito do distanciamento porque cria em Claudia a melancolia e o sofrimento de amar Sandro não pelo respeito à memória da amiga e a consequente culpa dessa relação, mas sim pelo receio de que com um possível retorno, ela perderia seu novo amado para a amiga ou seria julgada por se envolver com ele, mesmo com todo o contexto que os cerca.

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O encerramento do longa, em um plano esteticamente lindo, espacialmente pensado e melancolicamente impactante, arremata a experiência incrível que é assistir A Aventura. Michelangelo Antonioni abordava o mal-estar social e suas questões há 60 anos atrás em uma bela obra cinematográfica que ressoa seus temas e impacto emocional até hoje.

João Dicker

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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