Um olhar crítico e atual para o exercício jornalístico

Um Olhar Crítico E Atual Para O Exercício Jornalístico

“The Newsroom” é um importante ensaio mostrando o funcionamento das instituições jornalisticas, em uma série crítica, dinâmica e direta.


O Jornalismo, provavelmente, é um dos campos mais romantizados na história da teledramaturgia. São muitos filmes, documentários, seriados e minisséries que o tema central envolve alguma ramificação da prática. Seja nos recentes Spotlight: Segredos Revelados (2015) e The Post: A Guerra Secreta (2017), ou no icônico Todos Os Homens do Presidente (1976), o exercício jornalístico sempre foi apresentado como uma possibilidade de justiça social e mudança no mundo, mas sem ser necessariamente problematizado. Atualmente, com o crescimento das ideologias e governos de tendências autoritárias, a popularização das mídias sociais e o desmantelamento de diversas instituições de poder, a imprensa tem encarado dificuldades não só na relação com as esferas políticas, públicas e sociais da contemporaneidade, mas também em sua própria existência.

O seriado The Newsroom, idealizado e criado por Aaron Sorkin, mente responsável por obras como Steve Jobs (2015), A Rede Social (2010), O Homem Que Mudou O Jogo (2011) e The West Wing (1999), é uma das produções audiovisuais que trata do jornalismo não só como meio, mas também como fim. Assim, a série mostra a cobertura jornalística de situações reais no fictício programa The Newsnight, da também fictícia rede Atlantis Cable News (ACN).  Em suas três temporadas, totalizando 25 episódios, Sorkin imprime sua identidade questionadora, ácida e irreverente para problematizar o exercício jornalístico, mostrando as virtudes e a importância de um jornalismo bem feito, questionando as escolhas anti-éticas do dia-a-dia da profissão e seus efeitos perante a sociedade, ao passo que também propõe uma análise crítica perante os EUA enquanto a dita nação da “líder do mundo livre e democrático”.

 

Good evening, this is Newsnight

Centrada em Will McAvoy (Jeff Daniels), a série acomoanh o âncora do programa The Newsnight, líder de audiência do seu horário e que, reconhecidamente, apresenta um conteúdo jornalístico leve, que evita polêmicas e busca sempre não confrontar, deixando a imagem do apresentador intacta com os telespectadores e diretores da ACN. Conhecido por ser o “Jay Leno dos programas de notícias“, Will tem sua personalidade transformada em poucos minutos de série, quando, em uma palestra universitária, ele foge completamente dos próprios padrões e dá uma resposta sobre o porquê os Estados Unidos não pode mais ser considerado como o melhor país para se viver no mundo. Após a resposta arrebatadora, Will é afastado temporariamente do programa, tendo uma grande surpresa quando retorna ao posto: o seu chefe, presidente da divisão de notícias da ACN, Charlie Skinner (Sam Waterston) contrata uma nova produtora para o seu programa sem o seu consentimento, a jornalista MacKenzie McHale (Emily Mortimer).

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A tensão entre Will e Mac aumentam quando a nova produtora traz consigo uma nova visão para o noticiário. O programa agora tinha como objetivo sair do lugar comum, não ser mais tão “café com leite” e apresentar um produto que, nas palavras de McHale “seja algo que faça diferença na vida do espectador”. A mudança, bancada pelo chefe Charlie, incomoda e tira Will da própria zona de conforto, sendo o fio condutor principal da primeira temporada. A nova maneira de fazer o programa movimenta a redação e traz críticas ao modo como os noticiários reportam os fatos.

Ao longo dos episódios de The Newsroom, o roteiro desvenda sua nuances ao se aprofundar em polêmicas e mostrar alguns processos de apuração de situações reais, como a explosão da plataforma de petróleo da BP no Golfo do México, a captura e assassinato de Osama Bin Laden e o atentado contra a então deputada democrata Gabby Giffords. É justamente a veracidade dos acontecimentos retratados na série que o texto de Sorkin encontra a acidez necessária para expor suas críticas, tanto no sentido jornalístico quanto na esfera da sociedade civil. Os episódios trazem à tona dilemas envolvendo a rapidez para divulgar a notícia, a necessidade de ser o mais assistido para ser o primeiro veículo a informar o fato ou então demorar um pouco mais no processo de apuração para ser mais certeiro no que se informa. O ponto alto desse dilema é no quinto episódio, quando o jornal passa pelo processo de verificação de informações se o atentado matou ou não a deputada Giffords, abrindo espaços para a interpretação do espectador até mesmo quanto a invasão da sociedade do espetáculo e do sensacionalismo dentro do jornalismo factual.

Os episódios carregam o espectador para a rotina da produção de um noticiário, mostrando as situações de traquejo com as fontes, respeitar o que é dito nas entrevistas e o que é dito em off — e como tudo precisa ser bem encaixado para que não aconteça nenhum tipo de erro ou ruído na transmissão da informação. Além disso, mostra também como situações pessoais podem influenciar no trabalho, caso que acontece com boa parte das pessoas, e como isso pode refletir em erros que se tornam gigantes quando o assunto é Jornalismo, além das consequências que uma notícia erroneamente divulgada pode trazer.

Seguindo a veia crítica de Sorkin, The Newsroom aborda as questões políticas, econômicas e administrativas que envolvem toda a cadeia produtiva de material, conteúdo e informação veiculado por um meio de comunicação, evidenciando como os interesses de seus donos e empresários perpassam pela decisões editoriais dos jornalistas. Descontando os contornos dramáticos, próprios da ficção, essa situação faz o espectador refletir sobre como e quais fatos são abordados para a realização de um telejornal. Cada temporada é centrada num dilema envolvendo a maneira como o jornalismo é praticado, refletindo uma situação real.

O segundo ano se desenvolve ao redor de dois temas: as Eleições americanas e uma investigação sobre a atuação do exército norte-americano. Quando o assunto são eleições, a série problematiza a ética jornalística e os limites da liberdade editorial, sempre tendo o propósito de informar o que o telespectador precisa saber para influenciar o voto. A questão debatida volta sempre para uma das bases instituídas pela produtora Mackenzie McHale, ainda no primeiro ano da série: “qual é o tipo de informação necessária para formar o voto de um cidadão?” e “O programa está sendo parcial ou apenas estão reportando os fatos?. Essas questões se desenvolvem paralelamente com o único tema fictício tratado nas notícias: a Operação Gênova (que é inspirada na cobertura jornalística feita pela CNN da Operação Tailwind). Nela, são questionados, além dos métodos jornalísticos, a credibilidade dos profissionais que delatam e que apuram as notícias envolvendo um possível crime de guerra do exército estadunidense. Há de se pontuar que na 2ª temporada, Sorkin não economiza na romantização das situações, mas ainda sem perder a sua essência, sustentada pelos diálogos longos, dinâmicos e diretos, marca registrada do roteirista.

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A atuação do elenco principal, que além dos já citados conta com Jim Harper (John Gallagher Jr.), Maggie Jordan (Alison Pill), Don Keefer (Thomas Sadoski), Neal Sampat (Dev Patel) e Sloan Sabbith (Olivia Munn), dão outro patamar para The Newsroom. Não só nas composições de personagens e na transmissão de uma realidade para pessoas que se entregam a profissão, mas a própria participação nos intensos e complicados diálogos de Sorkin exigem um trabalho preciso do elenco, que em momento algum deixa por desejar. Os alívios cômicos e o desenvolvimento das histórias pessoais dos jornalistas é usado com frequência, mas sem que haja um esgotamento ou que atrapalhe a dinâmica da série. O êxito reside na forma como que o texto da série permite que os personagens sejam bem trabalhados, com espaços para os seus dilemas pessoais e cada um com sua singularidade respeitada.

 

Novos Tempos, Novo Mundo

A terceira temporada levanta o debate sobre o “Jornalismo Cidadão” , isto é, quando pessoas sem a formação jornalística também reportam notícias. No mundo contemporâneo em que a produção e reprodução de imagens, conteúdo e informação está cada vez mais acessível e disponível a todo momento. Um “cidadão comum”, sem a formação especializada, pode apurar, entrevistar, escrever e informar os desdobramentos de qualquer acontecimento. Além disso, há o desenvolvimento de um caso de espionagem quando uma fonte anônima entrega a Neal documentos secretos do governo norte-americano, situação que remete a vivida por Edward Snowden. A última temporada, que conta apenas com seis episódios, é também o desfecho da trama que amarra o final da série, com os personagens completando seus respectivos arcos.

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No fim das contas, The Newsroom se assume como uma dramatização diferente das já propostas para o Jornalismo. Todas as questões levantadas pela série, sobre apuração de notícias, dilemas éticos e morais, limites editoriais e interesses mercadológico na produção de informação ainda se mostram muito atuais. A série convida o espectador a mergulhar nos bastidores do Jornalismo e faz com que reflexões sejam propostas a partir de cada situação enfrentada pelos profissionais da ACN.

O debate sobre como o Jornalismo deve ser realizado é executado com maestria e, o caminho seguido pelo noticiário, por meio das escolhas feitas no roteiro de Sorkindão a tônica do posicionamento sobre questões extremamente atuais. Qual o espaço que a empresa deve dar para o seu canal de notícias agir, mesmo que isso cause consequências no seu orçamento? O Jornalismo é definido pelo interesse público ou é ele o agente definidor deste interesse? Até onde o noticiário pode ir na seara do entretenimento e até onde precisa ficar na esfera noticiosa? As três temporadas de The Newsroom acendem esses debates que, cada vez mais, são questões contemporâneas.

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Talvez por questionar o método de construção do noticiário e até criticar outras emissoras, um possível rumor de reboot da série (já negado por Aaron Sorkin) causou um certo frisson entre os fãs. Afinal, quais seriam os eventos que a equipe cobriria? Vendo diariamente os noticiários, pensamos nos mais diversos. Como não teremos o prazer de assistir esse retorno ao mundo de The Newsroom, vale a pena rever (ou assistir pela primeira vez) e se permitir que este debate sobre Jornalismo e sua importância para a sociedade nos faça enxergar a urgência de repensarmos as relações políticas, sociais, econômicas e culturais de nosso tempo.


leonardo parrela

um grande bobão que não entende de nada que escreve de tudo.

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