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Superar o passado sem abandoná-lo

[tempo de leitura: 5 minutos]

“A Caminho da Lua”, nova animação da Netflix, encanta pelo visual extravagante e valiosas lições sobre recomeço.


GGlen Keane, diretor de A Caminho da Lua, é um veterano em filmes animados. O cineasta esteve por trás de obras como A Pequena Sereia, A Bela e a Fera, Aladdin e Pocahontas e, embora não tenha dirigido tais títulos, manteve-se inserido por muitos anos em um extenso universo infantil repleto de perdas, dores e a esperança como forma de alcançar os sonhos. Com tais referências, é notável como A Caminho da Lua absorve as fórmulas de roteiro estabelecidas pelos clássicos da Disney.

A Caminho da Lua acompanha Fei Fei (Cathy Ang), uma menina chinesa de 12 anos que perdeu a mãe (Ruthie Ann Miles) para uma doença e vive apenas com o pai (John Cho) desde então. Situado quatro anos após o acontecimento fúnebre, a pré-adolescente se vê em seu segundo momento de ruptura da família – agora incompleta – quando descobre que o patriarca está prestes a se casar com outra mulher. Incapaz de aceitar a nova integrante, Sra. Zhong (Sandra Oh), em seu meio familiar, e o travesso filho da moça (Robert G. Chiu), Fei Fei encontra nas antigas histórias de sua mãe um meio de fugir dessa realidade.

Neste momento, Fei Fei se agarra à lenda de Chang’e (Phillipa Soo), que tem um importante papel na mitologia chinesa e também na vida da menina, por ter sido o conto que a mãe narrava para ela em todos os feriados lunares.

 

Caminho PARA A Lua

Logo no início de A Caminho da Lua, é perceptível que a Deusa da Lua possui uma ligação ainda mais profunda com a história da desconstrução da família da pré-adolescente. Isto se deve ao fato de ter se separado do marido Hou Yi (Conrad Ricamora) quando foi para o céu e o deixou aqui na terra. É o exato contexto que Fei Fei resgata para mostrar ao pai que a divindade existe, assim como a mãe também continua presente no núcleo familiar, e que o mesmo deve continuar a amando incondicionalmente.

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Fei Fei representa bem os sentimentos conflitantes que vagueiam entre o medo do esquecimento de um ente querido e a inquietação por sair da zona confortável que se manteve por quatro longos anos – mas em nenhum momento apresenta culpa pelo fato da família estar prestes a seguir em frente. Inclusive, em nenhum momento a personagem demonstra tal receio, por sequer cogitar a possibilidade, e isso a torna irredutível em sua jornada de recuperar o afeto do pai pela finada mãe.

No entanto, a falta de flexibilidade para olhar a partir de outras perspectivas também faz com que a garota seja insensível aos sentimentos alheios. A característica a retrata como egoísta em relação ao pai, a madrasta e até mesmo ao futuro meio-irmão, Chin, que não é o culpado pela mudança mas, ainda sim, representa mais um grande rompimento na estrutura da família, já que Fei Fei sempre foi filha única.

Apesar deste aspecto negativo na conduta da chinesa, a esperança inabalável ao construir o foguete e voar para a lua – ao lado de Chin, que adentrou a nave sem seu consentimento – gera empatia do espectador de A Caminho da Lua pela trajetória de Fei Fei. A menina, tão independente e apaixonada por ciências, trilha um corajoso caminho autônomo que poucas personagens clássicas desenhadas por Glen Keane ousariam seguir. Além disso, a inocência demasiadamente infantil de seu ato em conjunto com a rebeldia pré-adolescente entregam uma protagonista muito fiel ao retrato de indivíduos dessa idade.

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Ao chegar à lua, a construção da história contada pela falecida mãe é destruída aos poucos, a começar pela deusa Chang’e, que mais parece uma estrela de música pop do que a entidade religiosamente cultuada no feriado chinês. A primeira aparição da divindade é deslumbrante tanto pelo incrível espetáculo musical que a mesma oferece, quanto pela explosão de cores no palco e ao redor do ambiente.

Este é, inclusive, um ponto impressionante da representação lunar que a direção oferece. Ao invés de ser um lugar escuro, quieto e pouco habitado, como é frequentemente mostrado em filmes de ficção científica, a lua retratada no filme é como um grande festival de música. Repleto de seres coloridos, luzes neon e sons, o satélite natural parece muito mais feliz e animado do que o plano terrestre.

Sendo Glen Keane, um grande fã de Pink Floyd, é possível encontrar as referências visuais da capa do álbum The Dark Side of the Moon. Na arte do disco lançado em 1973, um feixe de luz branca atravessa a dimensão do triângulo e se torna um arco-íris. Em A Caminho da Lua, a transição é perceptível quando a discreta paleta de cores dos cenários na Terra se transformam em tons fortes e chamativos assim que Fei Fei chega à lua.

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Embora a extravagância presente nos figurinos de Chang’e e em seu império lunar represente uma quebra de expectativa para Fei Fei, a menina consegue facilmente se conectar com o ser por trás daquela figura esplendorosa, que também é vigorosa e destemida em seus objetivos. A convergência de interesses é fundamental para o crescimento das duas, tanto individualmente quanto em suas relações com o coletivo.

Apesar de se basear na lenda de Chang’e para a construção da narrativa, A Caminho da Lua não alcança plenamente o intuito de ambientar o público no cotidiano chinês. Por isso, mesmo que os personagens tenham traços orientais e o roteiro apresente claras menções à mitologia e culinária da China, a cultura e o país retratados no filme poderiam facilmente ser encaixados na esfera ocidental.

Com a usual carga emotiva transmitida por animações, enérgicos números musicais e atmosfera bem humorada, o filme da Netflix é bem sucedido no objetivo de transmitir a mensagem de que o passado é lugar de memórias e não de estadia. Trazendo à tona a doçura infantil e a inocente esperança de alcançar o impossível, A Caminho da Lua cumpre os requisitos para se tornar uma obra amada por crianças e, também, adultos.

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Fei Fei é uma protagonista forte que representa o progresso positivo da construção de figuras femininas em animações. E, assim como as personagens da Disney que chegaram ao cinema pelas mãos de Glen Keane, a chinesa de 12 anos de idade tem potencial para se tornar memorável a longo prazo.

Nathalia Jesus

nathalia jesus

Com 21 anos de idade, é Jornalista quase formada que descobriu na pré-adolescência que todas as suas maiores paixões podiam também ser profissão. Já se aventurou no teatro, dança e instrumentos musicais, mas encontrou na escrita a melhor forma de se expressar. Amante de Cinema, Séries, Música e Livros, e até hoje sofre pelo fim da versão impressa de suas revistas favoritas.

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