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Brincando de ser adulto

[tempo de leitura: 4 minutos]

“Round 6”, novo drama sul-coreano da Netflix, traz reflexões sobre a forma como vivemos a vida ao mesmo tempo em que propõe um cenário distópico cheio de desafios mortais.


Nota da Colab: este texto contém spoilers leves.

 

QQuando somos crianças, muitas vezes mal podemos esperar para finalmente virarmos adultos e poder ter a liberdade de fazer as coisas do jeito que queremos. Porém, viver no mundo dos adultos é muito mais complicado do que pensamos. Temos que nos preocupar com contas, responsabilidades, reuniões — tudo enquanto tentamos não surtar, não morrer e continuar tentando alcançar a tão sonhada felicidade. Mas e se você recebesse uma chance de ganhar uma quantidade inimaginável de dinheiro, apenas competindo em jogos e brincadeiras da sua infância?

Esse é o plot principal de Round 6 (ou Squid Game), dorama da Coreia do Sul que estreou no final de setembro na Netflix. Conquistando a posição de ser o primeiro k-drama (drama sul coreano) a alcançar o primeiro lugar na plataforma nos Estados Unidos, a produção detém 100% de aprovação em um dos mais importantes sites de críticas audiovisuais, o Rotten Tomatoes.

Na trama, Seong Gi-hun (Lee Jung Jae) é um homem cheio de dívidas que não consegue encontrar soluções em seu caminho que não sejam se afogar em mais dívidas. Um dia, um estranho o aborda no metrô e o convida para participar de um jogo com um prêmio bilionário, em dinheiro, para quem for o ganhador. Aceitando o convite, Seong Gi-hun se vê em uma espécie de simulação com mais de 400 pessoas competindo pelo prêmio.

De começo, tudo parece simples: um dos primeiros desafios é um tradicional jogo de crianças, “Batatinha frita, 1, 2, 3”, que funciona assim: um líder (no caso do k-drama, uma boneca automatizada) fica de costas para os participantes, e, ao falar a frase “batatinha frita, 1, 2, 3”, os participantes se movem até conseguirem cruzar a linha atrás do líder. Porém, quando ele acaba de pronunciar a frase, ele se vira para os jogadores, e todos tem que estar parados, sem se mexer. Quem se move é eliminado. Literalmente. Assim, nem todos os jogadores sobreviverão aos desafios propostos pelo idealizador dos jogos.

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Em uma mistura de Jogos Vorazes, 3% e Jogos Mortais, o cruel, divertido e violento k-drama traz também a participação especial de Gong Yoo, ator famoso pelo drama Goblin e o filme Invasão Zumbi. Atualmente ranqueada em primeiro lugar em vários outros lugares do mundo, como Coreia do Sul, Hong Kong, México, Arábia Saudita, Tailândia e Brasil, Round 6 traz uma grande conquista para o mercado de entretenimento sul-coreano, que vem ganhando muito espaço e força pelos serviços de streaming.

O dorama de nove episódios apresenta ao espectador um roteiro que prende a atenção desde o início, fazendo você torcer pelos personagens e acabar os perdoando várias vezes. O programa ainda projeta o medo dos participantes em quem está assistindo, e apreensivamente nos fazendo passar por cima de nossa própria moral. Além disso, temos no elenco nomes de peso como Lee Jung Jae (A Empregada, 2010) e Heo Sung Tae (Além do Mal, 2021), que trazem para seus personagens homens com personalidades totalmente diferentes, mas que estão em busca de um mesmo objetivo custe o que custar. Além deles, temos também Wi Ha Joon (18 Again, 2020, e Romance is a Bonus Book, 2019), Park Hae Soo (Prison Playbook, 2017) e a impactante modelo Jung Ho Yeon em sua estreia nos dramas coreanos.

Round 6 nos faz pensar no momento em que deixamos de ser criança e nos tornamos adultos, e como a perda da inocência interior pode nos prejudicar ao longo da vida. Os jogos de criança são nosso primeiro contato com as regras do mundo adulto: se você não correr rápido o suficiente, podem te pegar e você ficará na posição de ir atrás de quem está fugindo. Se não se esconder bem e ter a coragem de correr na hora certa, podem te achar e você perder tudo. Se não conseguir pensar direito em uma estratégia boa, você pode perder toda a sua mesada que apostou em um simples jogo de cartas.

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O ator Lee Jung Jae no centro

Assim, podemos pensar que até mesmo nas brincadeiras de criança existe uma moral que determina quem ganha e quem perde — e, muitas vezes, essa moral não está nem aí se você é a criança mais rica da rua ou a que sempre ganha todos os jogos. Dependendo de em qual jogo vocês estiverem competindo, você só poderá contar com a sorte e, por que não, com a ajuda de algum outro competidor. E essa é a grande jogada (com o perdão da palavra) que o dorama apresenta em seu roteiro.

Round 6 nos mostra como, mesmo depois de adultos, simples jogos infantis podem reavivar saudosos sentimentos que apenas quem já perdeu em uma disputa de cabo de guerra, por exemplo, saberá explicar. É um k-drama que não promete grandes reviravoltas, e, apesar de pouca imprevisibilidade, esse aspecto não tira a curiosidade em saber como o maior jogo ali proposto irá se desenrolar: o jogo da vida.

gabi carvalho

Formada em Jornalismo e Cinema, é libriana com ascendente em sagitário e lua em peixes.

Divide o tempo lendo críticas sobre absolutamente tudo, assistindo k-dramas e enaltecendo o feminismo. É bem eclética, lê de tudo, ama escrever, escutar k-pop, indie e funk — e não come carne.

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