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O grande fim de BoJack

[tempo de leitura: 5 minutos]

A excelente derradeira temporada de “Bojack Horseman” nos prova como o recomeço é necessário, mesmo que isso seja um desafio.


Nota da Colab: esse texto contém sérios spoilers.

 

AAo chegar ao seu fim, estreando os capítulos finais da última temporada no dia 31 de janeiro deste ano, a produção animada BoJack Horseman (2014-2020) vêm com um grande desfecho de mensagem valiosa: mesmo terminando, tudo está, na verdade, recomeçando, por mais doloroso que isso seja.

No final da penúltima temporada, nos deparamos com um BoJack (dublado por Will Arnet), um ser meio cavalo e meio humano, admitindo que precisa de ajuda. O personagem principal é, além de deprimido, alcoólatra. Por isso, após muitas enrascadas e decisões erradas que toma em sua vida, opta por lar os vícios recorrendo a reabilitação, algo que ajuda o famoso cavalo-ator a restabelecer sua vida, rotina e saúde mental.

Porém, com essa última temporada, percebemos que o cavalo mudou, mas o seu “eu antigo” continua presente como nunca, assombrando suas escolhas, sua sobriedade, relações e vida como um todo. Para além disso, BoJack Horseman ressignifica sua vida e percebe um novo desejo: o de ser professor.

  — Nossa crítica das temporadas anteriores de “BoJack Horseman”  

 

Ano 6

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Fãposter por NickyBarkla

Durante o processo de se inserir, conhecer e viver essa nova profissão, o personagem-título nota como ajudar – e ensinar – os alunos iniciantes a atuar é uma forma de se sentir satisfeito e feliz com o que faz. Longe dos holofotes, estratégias de marketing e mentiras da indústria de Hollywoo (ou Hollwood, que no final virou até Hollywoob – uma alusão a Hollywood, claro), é notável como BoJack não busca nem fama, reconhecimento ou dinheiro: apenas deseja ajudar o próximo com a sua nova profissão. Além disso, o cavalo confessa neste último ano que se identifica com os alunos, ao ver neles o seu eu do passado, um iniciante em atuação, ingênuo, indeciso e inexperiente. E isso conforta o coração do velho ator.

A sobriedade é outra vertente que a série explora – e com muito humor. Não só mudando de vida e profissão, BoJack Horseman quer viver sóbrio, encarando a realidade e seus pensamentos com coragem e determinação. Era de se esperar, também, as sátiras. Em nenhum momento a série deixa de dar graça e fazer piadas com a reabilitação, sem banalizar, enquanto mostra como ela ajuda com a mudança do cavalo.

Neste ano derradeiro de BoJack Horseman, algo incrível e digno de comentários é o jogo de cenas e falas que os produtores trouxeram, fazendo com que o telespectador vivencie algo que, depois de alguns segundos, muda totalmente. Essa busca por “enganar” o público é uma ótima estratégia para fazer, principalmente os fãs mais fascinados, perderem a respiração até o último segundo de todos os oito capítulos da reta final.

A forma de dividir a última temporada em duas estreias foi outra grande estratégia para dar um respiro aos telespectadores com o final da série. Uma vez que tantas coisas mudam em todos os personagens, podemos facilmente nos perder e não absorver tudo. Afinal, não é apenas BoJack que busca um recomeço e autoconhecimento.

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Assim, essa divisão facilita a digestão de tanto conteúdo em tão pouco tempo. Os oito primeiros episódios da última temporada de BoJack Horseman foram lançados no final do ano passado, 25 de outubro e, no começo deste ano, lançaram os últimos oito. Outro fator inovador são as novas mensagens que a última temporada quer passar, mesmo com tão pouco espaço. E com os seus 16 capótulos finais, a série consegue reunir muitas perspectivas e atribuir a elas um final realista, mesmo que não tão feliz, repetindo o feitio das outras cinco temporadas.

  — Nossa crítica das temporadas anteriores de “BoJack Horseman”  

 

Aceitação como tema

O grande fator que norteia o enredo da sexta temporada de BoJack Horseman é a aceitação em muitos personagens e, seguindo dele, a mudança completa de vida. BoJack aceita se reabilitar e largar seus vícios (principalmente o álcool). Diane (Alisson Brie) assume para si que precisa cuidar da sua saúde mental e busca ajuda psiquiátrica. Mr. Peanutbutter (Paul F. Tompkins) chega a conclusão de como seus relacionamentos não o levam a lugar algum e como tem dependência emocional, algo que descobre fazendo terapia.

Por outro lado, Princess Carolyn (Amy Sedaris) se entrega ao amor de braços aberto, tanto para a sua filha quanto para um companheiro de vida. Todd (Aaron Paul) quer – e tenta – restabelecer a relação com a sua mãe, mesmo anos atrás tendo em mente que isso nunca aconteceria. São tantas coisas que, para aqueles que não acompanham com paixão os personagens, é fácil ficar perdido a tantos acontecimentos que parecem “simples”, mas que para os personagens, que reafirmaram padrões de pensamento e comportamento por tantas temporadas, representam um grande avanço e um importante passo para grandes recomeços.

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Princess Carolyn e BoJack

Ainda mais, BoJack Horseman busca afirmar algo além dos recomeços, provando com as histórias dos personagens como este é, na verdade, um processo sem fim e, com isso, agregado de sofrimento. BoJack, muitas vezes, cede aos seus vícios. Diane se recusa a tomar seus medicamentos. Princess Carolyn continua priorizando o seu trabalho e deixando de lado a sua vida pessoal. Mr. Peanutbutter demora para sair de uma relação que já está no fim e permanece nela até ser uma situação inviável. Todd se mete em confusões e faz com que sua mãe vá parar no hospital.

Por mais que os monólogos sejam resguardados a alguns personagens – não são todos que refletem e falam sobre as novas escolhas que têm em suas – é visível como este é um processo lento, demorado e muito doloroso. BoJack, por exemplo, se questiona várias vezes, até o último episódio, até quando vai aguentar ficar sóbrio. Todd volta a ter contato com a mãe, mas nada é muito caloroso e natural como gostaria.

A última temporada é uma história sutil, incrível e realista, graças a forma como nos deparamos com um cavalo que, em busca de mudanças, finalmente muda suas atitudes. Essas novas perspectivas e escolhas que os personagens tomam, atreladas à dificuldade em conseguir manter-se em uma nova postura, em uma nova vida, traz a dificuldade de perceber que para que este processo de mudanças dê certo, é preciso viver todos os dias escolhendo ser diferente.

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Isso revela a nova (e última) mensagem que BoJack Horseman, enquanto série, quis passar para os seus telespectadores e fãs. É como se o ano final estivesse sussurrando em nosso ouvidos as seguintes frases a cada episódio: “No final, tudo tende a recomeçar, por mais doloroso que isso seja. Nada está em seu exato fim, tudo está em um eterno recomeço de escolhas, postura e, consequentemente, de vida”. BoJack Horseman não está terminando mas, sim, recomeçando.

  — Nossa crítica das temporadas anteriores de “BoJack Horseman”  

Giovana Silvestri

giovana silvestri

tem 18 anos. escorpiana viciada café e amante de gatos. estuda jornalismo na Unesp e escreve muito desde que se entende por gente. tem um jeito doce mas gosta de boteco e de cerveja de garrafa. escuta mais MPB e pagode do que a voz da razão.

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