Uma cinebiografia digna para Elton John

Uma Cinebiografia Digna Para Elton John

Jim Carrey, um dos nomes mais conhecidos na indústria do entretenimento do século XXI, há algum tempo vem abandonando a fantasia de super-astro de Hollywood para propor uma outra perspectiva sobre glamour, dinheiro e fama. Há uma frase em um de seus depoimentos que diz: “Acho que todo mundo deveria ficar rico e famoso e fazer tudo o que sempre sonhou para que pudessem ver que isso não é a resposta.”. Embora a relação entre Jim Carrey e a cinebiografia de Elton John não seja exatamente óbvia, é sobre essa mesma premissa que Rocketman se desenvolve.

Rocketman conta a trajetória de Reginald Dwight, um garoto tímido que conquistou o mundo sob o stage-name de Elton John e se tornou, posteriormente, um dos maiores ícones da música pop. As primeiras cenas já funcionam como um prólogo do que nos aguarda: um filme excêntrico (como deveria ser), quase cafona, que redefine a percepção por vezes desumanizada de grandes ídolos e sem a menor vergonha de trazer à tona os momentos desonrosos da carreira do músico.

O filme, que possui o roteiro seguro, linear e bem estruturado de Lee Hall como alicerce, usa a chegada de Elton, vivido pelo talentosíssimo Taron Egerton, em uma clínica de reabilitação como ponto de partida para desenrolar a história dos primeiros anos da carreira do cantor, que começa a ser revisitada desde a infância. Nesse primeiro ato, é interessante ver como a relação com a arte pode ser fundamental para canalizar emoções destrutivas proporcionadas por lares problemáticos. No entanto, é possível ver que o filme se preocupa em retratar a música como uma espécie de refúgio emocional para o pequeno Reggie mas que, com o passar do tempo, sua produção artística só volta a ser vista como verdadeira pelo protagonista depois de abraçar os traumas que viveu, aceitá-los e começar uma nova lógica de criação, a partir de um contexto sadio, sem romantizar o sofrimento.

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Apesar da ideia do desencontro com si mesmo ser mais clara no decorrer do filme, ainda nos primeiros momentos é possível ver como Reginald Dwight, criança, já traz questionamentos sobre ser quem ele é. Acredito que a escolha de trazer essa indagação no princípio do filme mostra exatamente que a obra não é só sobre uma carreira de sucesso ou somente sobre a trajetória de uma estrela: trata-se de uma celebração da jornada em busca do amor, do autoconhecimento e da autoaceitação.

Ainda sobre a escolha de retratar da infância até a vida adulta de Elton John, cinebiografias costumam cair em uma cilada comum: a ambição de condensar uma história de décadas repleta de detalhes em duas horas. Rocketman, por sua vez, faz um recorte bem definido na carreira do astro, bem como em sua vida pessoal. Isso é fundamental para que o roteiro funcione com profundidade, trazendo tanto momentos eufóricos quanto intimistas de Elton, explorando sua personalidade complexa e multifacetada e, principalmente, permitindo que cada momento vivido reverbere no estado de espírito do personagem, bem como no enredo em si, deixando o projeto do filme conciso e bem amarrado.

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Tudo isso na pele do brilhante Taron Egerton, que se mostra versátil, intenso e imersivo no papel. Além disso, os saltos narrativos são extremamente bem executados, utilizando cenas lúdicas (quase teatrais) como recurso para sinalizar a passagem do tempo em questão, com representações icônicas daquilo que marca o período retratado, de um dinamismo interessantíssimo e estética adequada.

Falando em estética, Rocketman proporciona uma experiência quase engraçada em termos visuais. É espalhafatoso, meio cafona, exagerado, colorido e com um toque kitsch, tanto na direção de arte quanto na fotografia. Cores vibrantes, figurinos peculiares, planos rápidos e travellings circulares marcam uma extravagância que nasce da figura emblemática de Elton e contagia todos os outros aspectos do filme. A verdade é que, para um filme do circuito industrial, Rocketman habita o elo perfeito entre o contido e o não-convencional, com uma estrutura pouco ousada mas com uma energia criativa pulsante – o que é absolutamente apropriado para um filme que se propõe a falar sobre a carreira de um músico com uma das personalidades mais excêntricas que o mundo já viu.

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Apesar de o próprio Elton John assinar a produção executiva do longa, esse não é um filme cheio de feitos heroicos, preocupado em canonizar uma estrela da música – na realidade, existe uma intenção latente em humanizar o artista. A carreira de sucesso exponencial do protagonista é uma segunda camada da narrativa, servindo mais como contexto para o desenvolvimento do ponto central, que tange noções existenciais sobre ser quem você é, sobre amar e ser amado, sobre fazer as pazes com a sua história e sobre sobriedade. A própria relação do astro com drogas é retratada com dura clareza e uma certa decadência, em momentos de absoluta introspecção, tristeza e solidão, ainda que sempre rodeado de pessoas. Além disso, a atuação de Egerton traz brilhantemente uma dimensão arrogante e egocêntrica para o personagem – e é interessante perceber que a raiva exacerbada foi tomando conta de Elton a medida que o protagonista se via mais e mais distante de quem ele era em essência.

Outro ponto que vale ressaltar sobre a obra é a forma absolutamente natural com que a orientação sexual do cantor é tratada. Não é escancarada, não é velada – é, simplesmente, normal. Vale dizer ainda que o filme pisa em ovos para não deixar que a sexualidade do protagonista seja vista como a responsável pela relação abusiva com drogas ou pela excentricidade de sua personalidade, como o senso comum pode muitas vezes definir. A construção dos conflitos familiares na infância, o desamor do pai, o “abandono” do parceiro de composição, tudo isso faz um papel muito claro de fio condutor para que o personagem se visse, posteriormente, em uma situação de dependência química. O descobrimento de sua orientação sexual é construído com doçura, verdade e um nítido orgulho. Pois é: Rocketman é um filme do circuito industrial e, assim como Elton John, não está muito preocupado em agradar o público conservador.

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Em suma, Rocketman fez o dever de casa e entregou uma biopic bem resolvida, segura, estruturada, emocionante, extremamente envolvente e espirituosa. E acho que só podia ser assim mesmo, como Elton foi (e é). Uma última observação: separem lencinhos. Vocês podem precisar.

raquel almeida

sempre atenta aos pequenos detalhes de todas as coisas. mineira, 24 anos, formada em Comunicação e fã de Cinema pop.

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