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Tomando partido, "Os Olhos de Tammy Faye" cresce com a performance de Jessica Chastain e tem sucesso em envolver o espectador.

Tomando partido, “Os Olhos de Tammy Faye” cresce com a performance de Jessica Chastain e tem sucesso em envolver o espectador.


FFilmes sobre grandes personalidades, no geral, fazem muito sucesso. A curiosidade em saber mais sobre o outro é quase intrínseca à sociedade atual, especialmente no caso das celebridades. Tais obras, muitas vezes, tornam os famosos mais reais e palpáveis ao mostrar sua jornada, erros e receios. O interesse no gênero é ainda maior quando o longa se baseia em uma figura polêmica. Quem não gosta de uma fofoca, não é mesmo?

Os Olhos de Tammy Faye (2021) é pautado justamente na história de duas pessoas muito controversas, que garantiram tanto uma legião de fãs quanto de haters. O filme conta a história do casal Tammy Faye (Jessica Chastain) e Jim Bakker (Andrew Garfield), que cresceram astronomicamente no tele-evangelismo dos Estados Unidos durante as décadas de 70 e 80.

Ambos com origens bem humildes, construíram um verdadeiro império no canal PTL. Começaram o público infantil, usando fantoches para falar sobre o cristianismo, mas logo se tornaram apresentadores de TV, com direito a talk-show e programa de auditório.

Ainda que o objetivo inicial fosse espalhar a palavra de Deus, não demorou muito para que virasse uma maneira de fazer muito dinheiro. Os telespectadores eram instigados a doar dinheiro para o canal e diversos empresários fizeram investimentos nas causas levantadas pelo casal.

Enquanto o PTL crescia, os luxos dos Bakker também aumentavam. Eles não eram discretos. Moravam em uma casa enorme e muito sofisticada, com todas as mordomias possíveis. Tammy, principalmente, esbanjava em casacos de pele e acessórios extravagantes.

O filme é narrado sob o ponto de vista de Tammy Faye, de modo que Jim é pintado como o responsável pelos desvios de verba e ela supostamente não sabia do que estava acontecendo. Considerando que as mulheres de fato ficavam de fora das discussões financeiras na época e eram até ensinadas a deixar tudo nas mãos do marido, acho justo que ela não tenha participado diretamente do esquema. Porém, surge a questão: ela não desconfiava de nada? De onde ela pensava que vinha todo o dinheiro?

A personagem é construída como uma pessoa que tem suas próprias ideias e valores. Seu apoio à comunidade LGBTQIA + e às pessoas com HIV/AIDS eram contrários ao que os grandes líderes cristãos pregavam, e ela ainda assim se mantinha firme no que acreditava. Não consigo acreditar que ela estava completamente alheia aos arranjos financeiros do marido mas, de qualquer forma, o filme não é sobre isso e apenas Jim foi preso por fraude. Só fiquei com esse questionamento.

Ainda que seja um retrato bem íntimo do processo de ascensão e queda, o longa passa por diversas situações sem se aprofundar muito. Tammy e seu relacionamento complicado com a mãe (Cherry Jones), escândalos sexuais envolvendo Jim, conflitos entre o casal e até um caso extraconjugal são mencionados de maneira superficial. O filme até sugere que a protagonista ficou dependente de remédios, mas nada é minimamente detalhado.

É como se fossem apenas menções do cotidiano e não situações realmente sérias e com grandes consequências. Claro que não dá para entrar em detalhes sobre tudo em apenas duas horas, entretanto, não dá para introduzir na narrativa com menos importância que o vício da protagonista em Coca-Cola diet.

O grande destaque de Os Olhos de Tammy Faye está em Jessica Chastain, que verdadeiramente incorporou a personagem com todas as extravagâncias. Tammy era uma pessoa muito caricata, com maquiagens fortes, expressões faciais marcantes e comportamento intenso. E Chastain conseguiu interpretar com uma naturalidade impressionante, sem fazer uma caricatura ainda maior de alguém que já parece fantasioso.

Andrew Garfield não tem tanto destaque, mas os holofotes não são dados ao personagem. Ele está em segundo plano e se porta muito bem nesse lugar. Jim Bakker é uma pessoa marcante na história, mas o filme é sobre Tammy Faye.

E a semelhança física entre Garfield e Bakker é bizarra. Chastain precisou mudar todo o visual para parecer com Tammy, mas não foi o caso do parceiro. Quando foram mostradas fotos do casal real e ficcional, eu fiquei na dúvida sobre quem era quem.

Ainda que eu tenha certas ressalvas sobre o filme, achei a história bem interessante de saber e o resultado final é de uma obra que prende o espectador e causa boas reflexões. Importante mencionar que a narrativa não é neutra e deixa bem claro que o casal tem atitudes e morais questionáveis mas, no final das contas, o julgamento cabe apenas ao público.

Os Olhos de Tammy Faye é um filme baseado em um documentário homônimo, lançado em 2000. A direção é de Michael Showalter, conhecido pelos trabalhos em Mais um Verão Americano (2001) e The Baxter (2005).

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