Era uma vez…o cinema de Tarantino

Era Uma Vez…o Cinema De Tarantino
[tempo de leitura: 5 minutos]

“Era Uma Vez em… Hollywood” é o filme mais autoral de Quentin Tarantino, tomando como panos de fundos o fim da Era de Ouro de Hollywood.


A filme by Quentin Tarantino” se tornou uma das frases de maior prestígio do cinema Hollywoodiano contemporâneo. Alguns dizem que ele glamouriza a violência, outros que ele dá preferência para a forma do que o conteúdo, enquanto terceiros o consideram um gênio. O fato é que Quentin Tarantino é um dos diretores mais influentes do cinema atual e a estreia de Era Uma Vez em…Hollywood (seu 9º e penúltimo filme, na contagem do diretor) evidencia o amadurecimento de um cineasta cheio de virtudes, convicções e muita identidade própria.

Independentemente da temática, gênero ou se agrada a público e crítica especializada, o Cinema de Tarantino sempre foi sobre Cinema. É verdade que cada película do diretor tem seus temas e, muitas vezes, discursos do próprio cineasta ali presentes, mas todos são desenvolvidos a partir da paixão cinéfila que o cineasta cultiva. Em Era Uma Vez em…Hollywood essa paixão deixa de ser um exercício de referências, easter eggs e homenagens do diretor e se torna a premissa do novo longa, escolhendo tratar especificamente do cinema hollywoodiano como símbolo de um momento muito particular da cultura estadunidense.

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Situando a narrativa em 1969, o roteiro apresenta três personagens para o público acompanhar o verdadeiro protagonista: a nostálgica Los Angeles da década de 60. Assim, somos apresentados a Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), um famoso ator de séries de TV que agora se encontra em fase inicial de derrocada da carreira, e seu dublê e melhor amigo Cliff Booth (Brad Pitt), que se manteve presente para o companheiro de vida e profissão ao longo de todos os anos.

 

Paralelamente, acompanhamos alguns vislumbres da atriz Sharon Tate (vivida por Margot Robbie) em atividades corriqueiras e momentos de lazer pela cidade. Sua personagem contrapõe a construção glamourizada da cidade dos astros de filmes justamente ao apresentar uma grande celebridade da época em momentos de humanidade puros – tanto nas ações triviais, quanto na forma singela com que Robbie vive a sua personagem.

 

A descrição de como a trama se apresenta traz uma memória da estrutura de roteiro dos filmes de Tarantino, sempre trabalhando uma quantidade razoável de personagens interessantes e amarrando uma história bem construída por meio de diálogos afiados. Contudo, por mais que Era Uma Vez em…Hollywood tenha estes elementos muito presentes, eles existem com a finalidade de construir uma ideia e não um enredo clássico.

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E muito por isso esse é o filme menos palatável de sua filmografia, com sequências que soam desconjuntadas, aparições espontâneas de um narrador e uma certa demanda para com o espectador (internacional/fora dos Estados Unidos) de que ele tenha um conhecimento prévio a respeito do trágico assassinato de Sharon Tate e das ações do assassino Charles Manson e sua “família”. A “identidade tarantinesca”, se é que podemos denomina-la assim, está presente aqui de uma forma mais sóbria e madura do que filmes como Kill Bill, Django Livre e Cães de Aluguel. De fato, Era Uma Vez em…Hollywood está muito mais próximo de Jackie Brown com uma sobriedade e existência em um universo realista do diretor, do que qualquer outra película assinada por ele.

Aqui o principal tema é sim o cinema, com toda metalinguagem fazendo parte da essência deste projeto, seja na própria abordagem da história de Sharon Tate como um símbolo de uma época da sétima arte ou então na forma criativa e interessante com que Tarantino filma Rick Dalton trabalhando nas cenas de uma série de TV – um personagem fictício que é interpretado por um ator real, que está interpretando outro ser ficcional dentro de uma produção televisiva inserida no enredo de um longa-metragem cinematográfico.

Com o desenrolar do enredo, somos sim envolvidos pela excelente dinâmica entre Rick e Cliff, muito pela construção de personagens interessante. Dalton é um homem sensível e inseguro que lida de forma emotiva com os sentimentos duros, provenientes da angustia e do medo de estar entrando em sua derrocada profissional, enquanto Booth é carismático, mais bretão e esconde um passado misterioso que trazem uma dualidade do personagem. Tanto DiCaprio e Pitt entendem seus personagens e entregam atuações excelentes, que agregam ainda mais para a relação dos dois e assegurando ainda mais folego para as sequências.

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Margot Robbie entrega uma atuação brilhante nos poucos momentos pontuais que aparece. Entendendo a delicadeza que é interpretar Sharon Tate sem ser desrespeitosa à memória da atriz, ao mesmo tempo que a homenageia, Robbie encontra uma forma pura de personifica-lá, complementando o tom angelical que Tarantino dá à moça, em suas atitudes humanas e relacionáveis (desconstruindo a imagem inacessível de uma estrela hollywoodiana quando ela coloca pés sujos na cadeira do cinema), ao mesmo tempo que o trabalho de fotografia de Robert Richardson a ilumina com um destaque divino e quase celestial.

O trabalho de Richardson, inclusive, é impecável na recriação da atmosfera sessentista com cores quentes saturadas a todo momento, que são complementadas por uma direção de arte certeira na reconstrução de uma Los Angeles de outros tempos, com mais brilho e, até mesmo, um pouco cafona.

Quando as 2 horas e 41 minutos de projeção vão desenrolando, a sensação de que algo errado está para acontecer vai aumentando em um crescendo de tensão especialmente para quem já sabe o terrível desfecho que Sharon Tate passa em sua vida. E conhecendo a assinatura de Tarantino e seu grafismo visual para trabalhar a violência, cria-se um questionamento de desconforto na mente do espectador que passa a se questionar se o diretor realmente vai mostrar toda a brutalidade e sanguinolência do que aconteceu dentro da casa de Tate.

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Neste ponto, a genialidade de Tarantino aparece novamente com um encerramento bonito, uma homenagem à atriz e uma surpresa que edifica toda a construção bem humorada e os momentos de humor subjacentes que o diretor colocou em seu longa, em uma sequência sim violenta, mas com uma assinatura diferente de Quentin. É a resposta que o diretor dá a todos que sempre o criticaram e questionaram por “fazer filmes violentos demais”, mostrando a maturidade de um cineasta que caminha para o desfecho de sua carreira.

Ao final, o encerramento da história de Rick Dalton, Cliff Booth e Sharon Tate, amarra todo o enredo colorido, divertido e metalinguístico com a própria arte que Tarantino tanto ama e se dedica. O próprio título traz o tom de contos de fadas que parece ser o desfecho de Era Uma Vez em…Hollywood: um período que não volta mais, de uma nostalgia artística que representa a Era de Ouro do cinema hollywoodiano, da pura inocência de Sharon Tate como o símbolo da bandeira do movimento paz e amor atacado por Charles Mason. E, porque não, a fantasia de um período que Quentin Tarantino tanto sente falta, da mesma forma com que sentiremos de seus filmes, logo logo.

joão dicker

com 23 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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