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O velho, o novo e o tempo de recomeço

[tempo de leitura: 3 minutos]

Conciliando o velho e o novo, “Cry Macho: O Caminho para Redenção” revisita a vida e a filmografia de Clint Eastwood como uma forma de desnudar os EUA.


ÉÉ seguro dizer que quando Clint Eastwood (hoje na plenitude de seus 91 anos) partir, o cinema estadunidense perderá um dos seus maiores cronistas. Mais do que um cineasta prestigiado e uma figura de carreira longeva, Clint perdurou por anos como um verdadeiro interlocutor da sociedade americana, tendo acompanhado o “sonho americano” desde seus tempos brilhantes, até seu fracasso. Estes dois elementos (a alta idade de Clint e o fracasso do american way) se combinam como a essência norteadora de Cry Macho: O Caminho para Redenção.

Outrora protagonista de filmes-símbolo dos cinema Hollywoodiano, Eastwood é também o responsável por grandes obras que expõem o sucumbir do “sonho americano”, uma dualidade que se torna cada vez mais interessante de observar na medida em que ele envelheceu, amadureceu e lidou com tudo o que viveu.

Se já a algum tempo ele vem desconstruindo o american way, Cry Macho parece mesmo uma obra despedida: um delicado revisionismo dos símbolos formadores de uma nação, dos arquétipos tão marcantes da vida do diretor, da sua própria filmografia e, sobretudo, a pavimentação de um caminho de reconciliação e plenitude.

Estas ideias de reconciliar e de alcançar um estado pleno tem, em certo sentido, uma relação direta com toda a narrativa. Cry Macho: O Caminho para Redenção é uma espécie de road movie western feito de anticlímax — um movimento muito natural para o trabalho de um diretor-ator de 90 anos. É muito interessante que Eastwood trace aqui um olhar sutil mais interessado na beleza dos movimentos e pequenos gestos da vida, do que no confronto e no embate de estruturas definidas.

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A história acompanha o caubói Mike Milo (Eastwood) que, pagando um favor a um amigo, parte na jornada de busca por Rafael (Eduardo Minett), o filho do colega que vive no México e é abusado por sua mãe. Cry Macho se assemelha naturalmente a Honkytonk Man (1982) e Um Mundo Perfeito (1993) por toda sua estrutura à la road movie, mas aqui a dinâmica entre o caubói nonagésimo e o “garoto problema” toma outros contornos.

A redenção de Milo não passa pelo sucesso da missão necessariamente e sim pelo processo de toda a caminhada em solo mexicano. Ao descobrir em outras terras a possibilidade de um recomeço, de se refazer e encontrar a plenitude que tanto buscava, o protagonista alcança o encontro reconciliador com o fato de que o american way fracassou. O que resta, é seguir a vida.

Desta forma, a progressão lógica (tanto narrativa quanto de tempo) não se faz tão importante aqui. Afinal, Mike está no estágio de sua vida em que menos tem pressa e, por isso mesmo, tem tanto apreço pelos momentos mais singelos de refeição, descanso e de conversas à mesa. São pausas rotineiras que prolongam a estadia da dupla no México e, consequentemente, tornam Cry Macho um filme de ritmo mais lento e contemplativo — um movimento anti-climático para o estilo que se apresentava, mas tão natural vindo de Eastwood e sua idade.

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No fim das contas, Cry Macho: O Caminho para Redenção é também um filme de conciliação entre o velho e o novo. Na dinâmica entre Milo e Rafael, o garoto termina a jornada com mais aprendizado, muito mais maduro e consciente de que o tão comentado sonho americano não é tão brilhante assim. Já o caubói nonagenário encontra no México (tanto na jornada, quanto em seu fim) o vigor e o sopro de vida que precisava para seguir vivendo com algum brilho.

E esta, talvez, seja a maior resposta que Clint oferece em Cry Macho. Ao colocar seu personagem dizendo “I don’t know how to cure old”, mostra o aprendizado de uma vida e que é exposto em sua filmografia. A lição de que mesmo sem saber como lidar com o inevitável, devemos enxergar que a dureza que montamos é apenas uma máscara para esconder aquilo que mais importa: a sensibilidade para perceber a verdadeira beleza da vida.

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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