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“Rosa Tirana” (2021) / 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes

[tempo de leitura: 2 minutos]


Quando Rosa se vê perdida em meio as paisagens desoladas da caatinga, experimentamos a sensação do abandono inerente aos questionamentos da fé. Sob o olhar de Rogério Sagui, a vida no sertão ganha contornos de purgatório: seus habitantes aguardam pela chuva como uma recompensa pelas preces incessantes e não medem esforços para alimentar suas crenças. A exploração da fé cristã como amortecedora das intempéries do mundo material constitui o principal fio condutor de Rosa Tirana.

Vivendo com a mãe e com o avô, Rosa é uma criança que pouco fala, mas muito observa. Acompanhamos seus pensamentos a partir de planos subjetivos enriquecidos com distorções de foco e grandes angulares, que aumentam a carga de novidade e até dão contornos de terror em determinadas cenas. Depois de ouvir as lamentações do avô durante um jantar de pouca fartura, a garota parte sozinha numa jornada a procura de Nossa Senhora Imaculada, na intenção de pedir pelo fim do longo período de estiagem.

Apostando em muita simbologia e poucos diálogos, a obra de Sagui ganha certo caráter experimental quando nos inserimos mais profundamente na jornada de Rosa e suas percepções sobre o espaço circundante. Aliando os questionamentos do avô com a persistência religiosa da mãe, Rosa decide traçar sua própria romaria.

Durante a caminhada, ela tem de lidar com a tentação do acolhimento por um rico coronel, bem como enfrentar seus medos materializados por pessoas de barro. Seu maior conforto reside na comunhão. Ao encontrar outros habitantes da mesma região enfrentando dificuldades e oferecendo um pouco de abrigo, alimento, transporte e compartilhando da mesma fé, Rosa acumula forças para o seu tão esperado encontro.

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Embalado por uma trilha sonora de forte demarcação territorial, Rosa Tirana é daqueles filmes que nos apresentam traços de uma civilização autóctone. Seus personagens possuem uma relação com a natureza determinada pelo isolamento e profusão de marcas culturais. Há uma denotação antropofágica na relação de seus indivíduos com a fé cristã que permanece em evolução a cada geração subsequente.

Ao propor uma sucinta reflexão desse perfil sociocultural, Sagui compõe também uma experiência de grande valor imersivo. É uma janela para um mundo defasado das ambições contemporâneas, mas pulsante em sua resiliência ambiental. Uma oportunidade de calibrar reflexões sobre a nossa espécie como colonizadora de seus próprios temores.


MOSTRA TIRADENTES

giulio bonanno

Biólogo, educador e escritor. sempre gostou de fazer perguntas. nunca se achou bom em respondê-las.

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