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"Adam" dosa drama e ternura em um retrato intimista sobre solidariedade, compaixão, independência e sororidade.

“Adam” dosa drama e ternura em um retrato intimista sobre solidariedade, compaixão, independência e sororidade.


DDirigido e roteirizado pela estreante Maryam Touzani, Adam, concorrente do Marrocos para uma vaga na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar, conta uma intimista e tocante história sobre maternidade, liberdade e independência.

Samia (Nisrin Erradi) é uma jovem em estágio de gravidez avançada. Abandonada pelo pai da criança, ela vaga pelas ruas de Casablanca a procura de um emprego e uma moradia temporária. E, decidida a deixar o bebê para adoção após o nascimento, Samia acaba acolhida pela ríspida e fechada Abla (Lubna Azablal), uma viúva proprietária de uma pequena padaria anexa à sua casa, onde vive com sua pequena filha Warda (Douae Belkhaouda).

Deste encontro, o roteiro de Adam desenvolve uma relação de cumplicidade, afeto, apoio e confronto de dores do passado e anseios atuais de ambas as mulheres, sempre entrecortadas pela ternura de Warda. Optando por um retrato intimista, Touzani adota o uso da câmera na mão, de planos fechados e enquadramentos sempre em cantos para construir uma linguagem visual que dialoga com a encruzilhada social que vivem as mulheres marroquinas.

Assim, a cineasta constrói uma narrativa que aborda o companheirismo feminino, o prazer e as dores da maternidade, a luta pela independência e a resistência contra o machismo enraizado. Este último, por mais que pouco verbalizado, é a força motora de grande parte dos acontecimentos. O vagar de Samia pelas ruas e seu plano de entrega do bebê é motivado pelo medo do julgamento social para uma mulher que será mãe sem um marido, enquanto a própria recepção inicial de Abla, que em um primeiro momento é receosa quanto acolher a jovem e mente sobre sua relação com ela, demonstram a insegurança e discriminação sofrida.

Abla (Lubna Azablal) e Samia (Nisrin Erradi), respectivamente

O ritmo de Adam é muito bem conduzido por uma consciente e talentosa diretora, que entende como trabalhar o olhar intimista para a dinâmica criada na casa ao dosar os momentos de ternura em que cozinham e dançam, com as conversas em que precisam enfrentar suas próprias cicatrizes. No que diz respeito a questão da maternidade, Maryam Touzani escreve com leveza e carinho, criando uma relação de apadrinhamento de Abla com Samia, além de uma dinâmica interessante entre a jovem grávida e pequena Warda.

Destas relações, vem o aprofundamento de toda a temática a respeito da maternidade e suas questões, que se tornam ainda mais vivas graças as atuações, especialmente das atrizes mais experientes. Lubna Azablal faz uma Abla dura, austera e marcada pela dor da perda, enquanto Nisrin Erradi interpreta uma jovem Samia insegura, em dúvidas e sofrida pela indecisão conflitante entre seu instinto materno ou sua preocupação com as perspectivas futuras da criança.

Dosando drama e ternura, inocência e maturidade, solidão e sororidade, Maryam Touzani entrega em Adam um retrato real e intimista sobre solidariedade, compaixão, independência e ternura.

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